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  V Oficinas de Formação "A Escola na Sociedade da Informação"

 

  Sessão Prática 1: "À conversa com ..."

  Dinamizadores: Manuel Campos Pinto e Olga Ferreira, Assoc. de Prof. de Português  

Ch@t com o escritor

Jorge Arrimar

 

27/03/2003

16:30 às 17:30

 

Chat #na_ tua_escola, no servidor irc.pop.rcts.pt 

 

Nota biobibliográfica

Ligações na Internet

Entrevista

Excertos

 
     

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Nota biobibliográfica

 

Jorge Manuel de Abreu Arrimar nasceu em S. Pedro da Chibia, no Planalto da Huíla, em Angola, a 14 de Junho de 1953. Após o ensino primário na sua terra natal, foi para o Lubango, onde fez o ensino secundário. Na década de 70 foi um dos fundadores do GRUCUHUÍLA (Grupo Cultural da Huíla) a dirigiu um suplemento literário no Jornal da Huíla, no qual publicou os seus primeiros poemas. Trabalhou com o prestigiado etnólogo do Sudoeste Angolano, Carlos Estermann, tendo sido deste a autoria do prefácio de Ovatyilongo (Gente da Terra), primeiro livro de poesia de Jorge Arrimar, publicado no Lubango, em 1975.
Na Faculdade de Letras da Universidade de Luanda iniciou os seus estudos superiores, tendo concluído a Licenciatura em História e a Especialização em Ciências Documentais em Portugal, para onde foi viver em Outubro de 1975.
Em S. Miguel, nos Açores, onde se radicou a partir de Janeiro de 1976, foi professor de Português a de História, tendo obtido a profissionalização na Escola Secundária Domingos Rebelo, em Ponta Delgada. Com Carlos Loureiro dirigiu um suplemento literário, intitulado "Página Africana" no jornal Açores a participou de tertúlias com Dias de Melo, Emanuel Jorge Botelho, Eduardo Bettencourt Pinto, Sidónio Bettencourt, Tavares de Melo, Luís Xarez, entre outros. Faz parte da antologia de poetas naturais a residentes nos Açores, intitulada Nós Palavras, ed. em 1979. A investigação na área da História Insular levou﷓o a publicar o livro Cinco Cronistas dos Açores: Subsídios para a Historiografa Açoriana, editado, em 1983, pelo Instituto Histórico da Ilha Terceira. Encontra-se a fazer, na Universidade dos Açores, o Doutoramento em História Contemporânea.
A sua obra de temática africana é referenciada na Bibliografia das Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, da Gerald Moser a de Manuel Ferreira, a na revista África, sob a direcção deste último. Um dos seus livros, intitulado 20 Poemas de Savana, foi objecto da publicação 20 Poemas de Savana: Etnopoesia Angolana, da autoria de Maria da Conceição Vilhena. De temática angolana publicou os seguintes livros: Ovatyilongo, Lubango, 1975; Poemas, Ponta Delgada, 1979, 2ª ed. Macau, 1993 (de parceria com Eduardo Bettencourt Pinto); 20 Poemas de Savana, Ponta Delgada, 1981, 2á ed. Macau, 1994; Murilaonde, Macau, 1990 (poesia); Os Bettencourt: da Ilha da Madeira ao Planalto da Huíla, Funchal, 1997 (História); O Planalto dos Pássaros, Lisboa a Luanda, 2002 (Romance).
A partir de 1985, Jorge Arrimar passou a residir em Macau, tendo ali exercido o cargo de Director da Biblioteca Nacional/Central de Macau. Em 1992 publicou A Biblioteca Central de Macau, editado pelo Instituto Histórico de Macau. Entre 1990 e 1992 publicou dois livros de poesia: Fonte do Lilau a Secretos Sinais. Fez parte da Comissão Organizadora do I Encontro de Poetas de Macau, 1997. De parceria com o poeta chinês Yao Jingming, foi dado à estampa o livro de poesia, intitulado Confluências, em 1997, a Antologia de Poetas de Macau (de línguas Portuguesa a Chinesa), em 1998. Foi agraciado com a Medalha de Mérito Cultural pelo Governador de Macau.
É colaborador do Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, ed. pelo Instituto da Biblioteca Nacional a do Livro; Dicionário de História de Macau, a ed. pela Universidade de Macau; Dicionário temático da Lusofonia, a ed. pelo Instituto Camões.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ligações na Internet

 

http://www3.telus.net/eduardo-b-pinto/jorgearrimar-menu.html

Seixoreview - Revista semestral de letras & artes. Editor: Eduardo Bettencourt Pinto.

http://www.casadeangola.org/LIVROS/livros.htm

Casa de Angola – Livros “O Planalto dos Pássaros”

http://www.ebonet.net/canais/cultura/ver.cfm?m_id=7370
Ebonet – Cultura. Agualusa defende uso das línguas nacionais na literatura

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entrevista

Entrevista concedida à Seixoreview  - Revista de letras e artes. Cedida para este projecto com a autorização do escritor.

No momento em que começaste a arrumar as malas para saíres de Angola, onde estavas? Qual foi o teu último olhar, aquele que ficou gravado dentro de ti com pungência e beleza? 

Estava em minha casa, na Chibia, no Planalto da Huíla. No dia 05 de Outubro de 1975 abracei os meus pais, avós e irmãos, dei-me a todos os lugares que pude e assim me fui despedindo ...sem, afinal, me despedir. Não fiquei tolhido de grandes emoções porque não conseguia acreditar que ia deixar a minha Casa e a minha Terra para sempre, ou sequer por muito tempo. Achava que dali a um ano, no máximo dois, estaria de volta. O meu avô, pessoa muito lúcida e inteligente, abraçou-me e despediu-se verdadeiramente, com um “Até nunca mais!”. No meu pequeno diário, que me foi acompanhando enquanto partia, escrevi o seguinte: “…mas bem no fundo de mim mesmo acredito que nos encontraremos de novo e em melhores circunstâncias.”  O tempo e a loucura dos homens provariam que o meu avô tinha razão. Viria a falecer em sua casa, na Chibia, a 7 de Fevereiro de 1983, sem nunca mais nos termos encontrado.

Da secular fonte desnudei um adeus

imenso, e a tarde perfumou-me

os cabelos com um cheiro adocicado,

o aroma peganhento do manhéu

a subir pelas narinas

bloqueadas de silêncio…

 

Em Outubro separei-me de mim

com os lábios emudecidos num adeus

que a memória gravou a fogo.

Não vale a pena ignorar as palavras

acesas de um lume vivo:

“Adeus! Até nunca mais!…

                (Murilaonde, 1990)

O que deixaste atrás que ainda buscas?

Uma boa parte de mim encontra-se lá ainda! Mas eu não a quero ir buscar. Bem pelo contrário, eu quero que ela continue lá, presa às raízes que teimosamente se agarram àquele naco de terra. 

Para lá das montanhas

que a neblina esconde

ficou o meu riso

de criança, o meu amor

e a minha esperança…

 

Para lá das montanhas

fiquei de olhar perdido

a chamar por mim…

Mas eu não vim!

               (Murilaonde,1990)

Com o advento do 25 de Abril, chegava até nós uma grande esperança e um alívio. Tínhamos pela frente um país novo, a construir; por outro lado, consciencializados de que uma guerra colonial inútil e injusta nos afogava as perspectivas futuras, senti, contudo, que o corpus social angolano, em Abril de 1974, fragmentado pelas injustiças do fascismo não tinha de modo nenhum fundações seguras para enfrentar um desafio tão grande, e a tão curto prazo, que foi a caótica corrida para a independência. Para a nossa geração, o amor pela nossa terra não foi o suficiente para cobrir as cinzas do passado. A História ultrapassou as nossas vidas, aumentando ainda o fosso. Que te dói mais: a perda pessoal relativamente à ausência da terra natal, costumes de vida, amigos, familiares, etc., ou a demoníaca destruição do país, física e social? 

Tudo me dói, pois uma e outra coisa se confundem. A ausência da terra natal e tudo o que essa realidade implica aconteceu, e ainda acontece tantos anos volvidos, precisamente porque a destruição do país se verificou a todos os níveis. O processo de destruição de Angola não foi só físico e social mas, também, moral… e é isto que faz com que uma das principais figuras das letras angolanas do nosso tempo, José Eduardo Agualusa, termine o seu romance “Estação das Chuvas”, com uma profunda exclamação de dor: “Este país morreu!”  Com ele, uma parte de todos nós foi morrendo também. 

Que o meu grito de desespero

se crave nesta hora

no peito dos homens

que amam a guerra

e o choro das mães

perdendo os seus filhos

no escuro das noites invadidas…

                  (Poemas, 1979)

Quando falamos de Angola, não estamos a puxar a corda do saudosismo. Aludismo, sim, à ternura que o berço nos inspira. Como poeta, que labirintos atravessas nas palavras para ultrapassar o utópico e chegar à realidade, acreditando que, apesar da tirania e da loucura, Angola será um dia um país de direito? Sobra ainda alguma acha quente na apagada fogueira da esperança?

Quando já esgotados pensamos que todas as brasas estão extintas, eis que se levanta uma leve brisa, muitas vezes quase imperceptível, que se encarrega de reavivar o calor da tal acha esquecida na apagada fogueira da esperança. Durante anos a fio sonhei com as madrugadas frescas do Planalto, com o cheiro misturado de terra molhada da chuva e do café a ser torrado em casa de minha avó. Se durante o sono povoava a minha cabeça de imagens vivas, quase reais, durante a vigília sobrevivia ancorado ao poema que a minha imaginação fazia brotar. Que Angola um dia será um país de direito, penso que sim! Só que me agonia pensar que isso, provavelmente, já não será naquele pedacinho de tempo que a vida me legou. Mas eu também sei que a história dos países não se confina à história de uma pessoa só, ela mede-se pela história de gerações. Se o desvario das minhas palavras se perde nos labirintos que levam à utopia é por que só assim eu julgo conseguir comungar com o fluxo mágico da vida e ter a impressão de conseguir deter um pouco a voragem do tempo. As palavras são os pássaros do meu voo onírico rumo às nuvens macias onde se encontra o alento que afasta o desespero e traz a esperança. 

Eu quero abandonar-me

à fome mastigada dos velhos

gemendo pelas noites

que não terminam…

Eu quero abandonar-me

por todos os arimos

da minha terra

onde morre e nasce a esperança

em cada pé de maçaroca…

              (Poemas, 1979)

Se não estou em erro, remonta ao Século XVIII a presença da tua família em solo angolano. Podes explicar?

Em finais do Séc. XVIII, um antepassado meu, 7o avô, foi Capitão – Mor da povoação de Alba Nova, na margem esquerda do Rio Lupolo, uma das povoações mais antigas do interior sul de Angola, fundada pelo Governador Sousa Coutinho, em 1769. O topónimo Alba Nova seria rapidamente esquecido e substituído por Huíla, que é, afinal, o da província a que aquela povoação pertence. Muito mais tarde, em Janeiro de 1885, uma descendente daquele, sua trineta e minha trisavó, Cristina, e seu marido, José António, chegariam às Terras Altas da Huíla, onde fundariam, juntamente com outros, a povoação do Lubango, futura cidade capital da província da Huíla. O seu único filho, meu bisavô João, viria a casar-se com a minha bisavó Amália, nascida em 1875, na histórica povoação da Huíla, e descendente, por via materna, dos pioneiros luso-pernambucanos que, em 1849-50, fundaram Moçâmedes. Na Huíla lhes nasceria, em 1898, uma filha, Ana, minha avó materna. Mais tarde, acabariam por ir residir para a vila da Chibia, a pouco mais de vinte quilómetros daquele local, onde a minha avó se casaria com o meu avô Alberto. Ali lhes nasceriam quatro filhos (dois rapazes e duas raparigas, uma delas minha mãe), tendo três deles casado com naturais da terra e deixado larga descendência. Também a minha avó paterna, Marcelina, nasceu na Chibia, em 1900, tendo os seus pais (meus bisavós)  ido viver para o Planalto da Huíla, em 1885. Na Chibia nasceram os meus pais na década de 20, depois eu e os meus irmãos, na década de 50. Já aos seguintes não estava destinado nascerem naquela terra onde se encontram sepultados tantos dos seus antepassados. Em 1972, já lá vão trinta anos, eu escrevia assim: 

Quando os carros bóer faziam volta

em redor daquelas enormes fogueiras

que se viam de longe

ela, Tchalufinga nDungo

contava aos meus avós

as histórias do seu povo

agora meu.

          (Publ. em Ovatyilongo, Lubango, 1975)

Ao contrário do que muitos apregoam e defendem, a africanidade tem a ver com a absorção dos valores éticos, linguísticos, sociais, etc. de África e não adstrita à cor de pele ou de genes. Recentemente no Brasil, quando eu dizia que era angolano, ficavam a olhar para mim... Um amigo angolano negro, ainda jovem, disse-me espantado que eu tinha sido o primeiro branco que se assumia como angolano. Explicou-me que os pais sempre lhe faziam sentir que só os negros eram angolanos...

Ironicamente, também no Brasil eu senti esse espanto, essa incredulidade, perante a minha angolanidade. Eu digo ironicamente, pois os brasileiros deviam ser os que melhor poderiam entender esse fenómeno, dado que há brasileiros de todas as origens e cores. Como reagiria um brasileiro de origem europeia ou africana se nós duvidássemos do seu “brasileirismo” só por não ser claramente índio? Incompreensivelmente, numa época em que tanto se esgrime para que as pessoas e as sociedades deixem de dar valor ao conceito de raça e afins, assiste-se constantemente a este tipo de situações em muitos e variados países. Como exemplo, referir-me-ei a um caso passado nos EUA, onde o problema da raça se põe sempre com muita acuidade, e que tem a ver com o escritor moçambicano, Mia Couto, tão nosso conhecido. Alguém me contou que, um belo dia, este foi confrontado com a surpresa dos organizadores de uma mesa-redonda, a ter lugar numa universidade americana, que o haviam convidado na certeza de que Mia era uma mulher e de raça negra. Afinal, o recém-chegado era… um homem e, inexplicavelmente, branco. Como deve ter sido difícil para aqueles americanos, pertencentes a um mundo a “preto e branco”, entenderem o que eles acham ser a suprema contradição e cujo exemplo se encontrava mesmo à sua frente:  um africano branco e, ainda por cima, dos mais representativos escritores da África Negra. Penso que, por situações similares, terão passado os escritores angolanos, António Jacinto, António Cardoso, Luandino Vieira, Pepetela, e outros… como se a cor da pele fosse, por si só, um incontornável obstáculo à identificação de uma pessoa com a sua terra.  

Hoje,

cantei o nderivela quando te olhei

perdida na recusa

de um tempo sem raiz…

Hoje,

Cantei o nderivela quando juntos

teimámos em regressar

 às mulolas do Habaíro,

fugidias águas dos nossos pés

caminhando sem caminho…

       (Murilaonde, 1990)

                            (Nderivela – Cântico muíla de grande intensidade dramática. Trata-se de um autêntico hino tribal)

Achas que o 25 de Abril chegou já tarde, de modo a poder reparar os erros do passado?

O que é ser cedo ou tarde para a História? O que acontece, acontece quando tem que acontecer!, diria candidamente La Palice. Discutir isso não passaria de um mero exercício de retórica, que não leva a lado nenhum! Uma revolução é um corte, é uma ruptura, e como tal, não possui um espírito reparador do que vem de trás, antes uma dinâmica transformadora total que crie uma entidade colectiva completamente nova. Provavelmente o que chegou tarde foi a democracia, fosse através de uma revolução, fosse através de uma mais lenta transformação, quiçá impulsionada pelos sectores mais esclarecidos e liberais do regime anterior.

A Revolução de Abril, que libertou Portugal do fascismo, possibilitou novos caminhos para as ex-colónias. O processo descolonizador foi, contudo, um exercício de irracionalidade. Não só faltaram a inteligência como a seriedade, a isenção e outras qualidades éticas que os políticos no poder em Portugal nessa altura não demonstraram ter. O certo é que Angola, em parte, continua ainda a pagar um preço elevado devido a esse factor. A guerra de Angola é, mais do que tudo, o resultado de uma descolonização irresponsável. Concordas?

Passadas que são mais de duas décadas, criou-se a possibilitando de a distância tornar o raciocínio mais frio e objectivo. A distância também permite ter uma visão mais alargada e ponderada das consequências, das sequelas, do processo que se seguiu ao desencadear da revolução. Para mim, o processo descolonizador faz parte de um todo que é a Revolução do 25 de Abril, tendo sido até a sua principal motivação. Não é por acaso que são os militares que a iniciam. Ela começa por ser uma revolta de caserna para logo se tornar uma revolução popular. Depois foi o que se sabe… abertas as comportas de uma barragem fechada havia meio século, ninguém mais conseguiu deter a força das águas. As energias criadas pela revolução ultrapassaram os seus próprios autores e despoletaram forças difíceis de controlar. Uma delas foi a descolonização. Ninguém conseguiu emergir das águas turbulentas e turvas para orientar o grande navio que se afundava, cabendo às colónias um trágico destino. Mas, se aos dirigentes portugueses saídos do 25 de Abril se podem assacar culpas, sobretudo pela ingenuidade política demonstrada (Não se ouviu durante tanto tempo um dos seus mais importantes elementos adjectivar a Descolonização de “exemplar”?), ou pelo serviço prestado, mais ou menos descaradamente, ao bloco liderado pela URSS, não podemos deixar de o fazer, igualmente, aos dirigentes dos novos países africanos emergidos da descolonização. No caso de Angola, que é o que mais nos interessa aqui, não é de escamotear o valor e a importância da luta pela libertação que durante catorze anos foi travada nos terrenos militar e político. Devia ser forte a consciência de que, a qualquer momento, quando o inimigo claudicasse por fraqueza demonstrada no terreno militar ou por triunfo da sua própria oposição interna (que foi o caso), teriam que estar prontos para substituírem o governo estrangeiro por um nacional. Mas afinal, o que foi que aconteceu? Feitas as pazes com o antigo inimigo, iniciou-se uma guerra muito pior do que a anterior, envolvendo os próprios angolanos na maior das loucuras que é a autodestruição. Se anteriormente, a guerra quase se confinava às zonas fronteiriças do Norte e Leste de Angola, permitindo, apesar de tudo, que este imenso país progredisse e se dotasse de infra-estruturas pouco comuns na África Sub Saariana, agora a guerra lavrava por todo o território, inclusive em zonas que tinham ficado resguardadas do conflito anterior, como o Bié, Huambo, Benguela, Namibe (ex-Moçamedes), Huíla, Cunene, Cuando Cubango. O resto toda a gente sabe! Milhares de mortos e de estropiados, um terço da população desamparada e a viver fora das suas terras de origem, as infra-estruturas económicas e urbanas destruídas, o tecido social abruptamente rompido. Por outro lado, milhares de angolanos (brancos e mestiços, na sua maioria) e portugueses radicados, confusos e amedrontados pela situação, acabaram por deixar Angola, deixando um vazio enorme que os políticos na altura escamotearam e muitas vezes favoreceram, mas que a breve trecho viria a revelar-se desestabilizador, pelo facto de se ter deixado o país sem a rede de profissionais de toda a ordem com que já estava habituado a contar. A morte de muitos que teimaram em ficar e o vazio deixado pelos outros que optaram por partir, hipotecaria o futuro de um povo que gostava de encher a boca - e a alma - com a frase “Gostar de Angola é gostar do futuro!”.

Sim! A Descolonização foi irresponsável, basta atentar nos seus resultados. Mas descolonizadores foram todos aqueles que, de um lado e do outro, lutaram pelo fim do colonialismo e pela independência das colónias. Se uns largaram o “bolo” outros receberam-no. Chegamos à conclusão de que nem uns nem outros estiveram à altura de tão importante momento, o momento da passagem de testemunho… e do nascimento de uma nova nação. A fuga a tão grande responsabilidade (a da entrega / recepção) foi evidente quando uns quiseram desfazer-se rapidamente (sem qualquer preparação e a qualquer preço, portanto!) de uma realidade complexa e frágil que já não interessava manter e outros a receberam com a mesma pressa e, igualmente, sem qualquer preparação, ávidos de se instalarem e assumirem o poder. O Povo, esse tornar-se-ia apenas numa palavra que se jogava para lá e para cá ao sabor das conveniências e dos interesses de cada protagonista e da cada momento. E por lá anda… sem quase poder andar, apenas rastejar entre os milhares de minas que fazem de Angola um dos países mais minados do planeta, alimentando-se de nada e perdendo a esperança por cada ano que passa…sem passar!

A “pior guerra do mundo”, como já foi apelidada, tem conseguido ser mais forte do que tudo o resto, ultrapassando todos os limites. A sua voracidade é tal que conseguiu ultrapassar todo o tipo de justificações: porque a descolonização devia ter sido encetada muito antes, ou muito depois; porque os colonos não faziam falta nenhuma e deviam ter ido embora mais cedo, ou porque os portugueses retiraram todos os quadros de um dia para o outro, sem explicação; porque se fizeram inúmeros acordos de paz, ou porque nenhum era suficientemente bom; porque Angola teve o apoio da ONU para a manutenção da paz, ou porque esse apoio era fraco e falhou; porque existia uma “política de blocos” a que não pôde fugir, ou porque agora já não existe um bloco definido onde se possa encostar; porque foi um peão da URSS, ou porque ficou órfã da “guerra-fria”; porque dependia da protecção internacionalista contra o avanço do imperialismo, ou porque os cubanos aproveitaram a sua estadia angolana para levar tudo o que puderam; porque era socialista, mas agora é capitalista; porque os sul-africanos racistas apoiavam a UNITA, ou porque agora já não apoiam nada nem ninguém; porque tem um governo rico em diamantes e petróleo, ou porque tem um povo dos mais pobres e sofridos do mundo. Enfim, porque isto, porque aquilo! Infelizmente, apesar de tanta coisa mudar nesta vida, só a trágica situação de Angola resiste a tudo. Será que algo vai mudar com a morte de Savimbi? Só o tempo dirá…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Excertos

“... e chamando o quimbare que chefiava a guerra preta.
- Vita, Vita! Junta depressa setecentos homens, pega em cento e vinte armas de fogo a vamos. Atrás daquelas mundas12 há lá muito povo a gado com fartura. Mas também tem muitos guerreiros. Eles não vão deixar-nos ficar com esse gado. Se assim for, nós todos morremos de fome. E isso nós não queremos, não é assim?!
Vita, cujo nome quer dizer "guerra", riu muito e o seu riso não era um riso normal, era crueldade pura. A gargalhada alarve ecoou nas mundas, lá ao longe nos sambos os bois mugiram de diferentes maneiras a os pastores ficaram inquietos. Estes viram depois uma onda negra que parecia ser um carreiro de kissonde que crescia, crescia a começava a aproximar-se deles. Quando a onda passou. . só ficaram cubatas a arder, pastores sem vida a sambos13 sem gado.
Gregório Mendes se foi lavar na pouca água existente numa cacimba próxima a logo, secamente, mandou o acampamento desacampar pois a viagem tinha que prosseguir imediatamente. António Jardim olhou os mantimentos a sorriu satisfeito: quinhentos bois a dois mil carneiros estavam ali nos seus novos donos que os olhavam já com a barriga a rugir nas suas fomes e a boca a salivar os antevistos nacos a assar no braseiro. Ao som renovado de mugidos a balidos a cânticos de guerra, lá arrancou a caravana, levantando uma nuvem de poeira que escureceu o dia. Manuel Pinheiro benzeu-se a murmurou qualquer coisa que ninguém percebeu. Algum tempo depois chegavam a um local que distava apenas meia légua da praia.
Gregório desceu da sua montada a se dirigiu a um espinheiro solitário cujo tronco era imbondeiramente grosso e a copa se desgrenhava numa carapinha gigantesca, larga como ele nunca vira outra. Puxou do seu facão-de-mato a inscreveu no tronco o seguinte: "Aqui esteve Gregóno Mendes, morador em Benguella, a 15 de Outubro de 1785".
- Perfeito! Sempre me disseram que eu tinha jeito para escrever.. até que as letras saíram direitinhas!...
Depois de observar, com evidente satisfação, a mensagem que deixara inscrita no espinheiro, Gregório Mendes voltou a montar e esporeou o seu cavalo que entre nuvens de poeira o conduziu até à caravana que parara. Era altura de acampar a esperar que chegassem os oitenta quimbares que haviam desaparecido durante a razia anterior. Aguardaram por eles cerca de seis dias e, nada! Gregório que, normalmente, conseguia controlar as emoções, começava a mostrar o seu nervosismo e, sobretudo, o aborrecimento que sentia por causa do atraso que a expedição já levava.
- Não senhor! Não posso aceitar que se repitam situações destas! A expedição não pode ficar parada por aqui mais tempo, sob pena de não cumprirmos a nossa missão. Vamos, pois, levantar o acampamento a continuar a nossa viagem...
O quimbar Vita ainda tentou demonstrar que a falta daqueles homens de guerra se iria sentir mais tarde, que era preferível esperar mais um pouco. António Jardim também foi dando a sua opinião, que era idêntica à de Vita. Porém, nada demoveu o Chefe da Expedição, que logo se fez ao deserto com a sua gente.
Para não se perderem naquele mar-de-areia, os guias da caravana tentavam não deixar de ver a costa e o azul fresco do mar-de-água. Seguiram, assim, o curso do rio Cangala e, quando encontraram o Dandagoa, tão seco como as suas próprias margens, decidiram acampar.
Gregório Mendes descansava à sombra reles de uma pequena espinheira, quando sentiu que alguém se aproximava, leve como uma serpente. De um salto pôs-se em pé pronto para atacar ou se defender. Os muitos anos de mato tinham desenvolvido nele um instinto apurado de sobrevivência, como só os próprios animais possuiam. Vendo que, afinal, não era nenhum inimigo que se aproximava, mas sim Vita, o chefe da guerra preta, zangou-se com ele, dizendo-lhe em umbundo que ele devia estar maluco ao aproximar-se assim, em silencioso rastejar como uma víbora:
- Vita! Ove uasaluka? Tchiasetahala nda nhoha mbuta oku enda-enda m'esisi...”

12 Montes.
13 Currais, geralmente construídos com ramos de espinheira.



In “O Planalto dos Pássaros”, págs 76 e 77

 

 

"Ao longe, apenas o eco das badaladas ainda se ouvia, ténue, chamando os fiéis para a missa de Domingo. A escrava, após ter ouvido, pela décima vez nesse dia, as reclamações da ama, repuxou a boca para o lado, numa evidente demonstração de desagrado, a respondeu:
- M'nha Siôra, velo Canário faz qui podi! Ele muito velo já na tempo de Siô Calaça! - enquanto dizia isto, a velha escrava is esboçando um sorriso, parado como o tempo, deixando ver na boca desdentada dois solitários caninos, grandes, escuros a curvos como se fossem as presas de um javali.
Os tapetes foram sendo colocados para que D. Ana Ferreira pudesse caminhar sem sujar de poeira os seus escarpins e o cortejo is avançando devagar, sempre sob a ira verbal da velha senhora, que há já trinta anos repetia as mesmas palavras aos mesmos servidores. Era um ritual, mais do que uma zanga, há muito executado de forma dormente, quase sonâmbula.
- Vejam, lá vai a Viúva do Campo com os seus tapetes! - ouviam-se alguns transeuntes exclamar com ar trocista.
- Já não tem onde cair morta, mas continua com as suas manias de grandeza! - diziam outros. Outros ainda atrasavam o passo, descobriam-se a cumprimentavam a velha senhora de forma respeitosa. Para estes últimos, ela era filha - bastarda ou não, isso não lhes interessava - do Senhor D. Jorge, também ele filho bastardo d'el-Rei D. João II, mas a quem este havia querido como a nenhum dos seus filhos legítimos. O que teria levado os seus progenitores a enviar aquela menina para ali crescer, quase em segredo, era um grande mistério que ninguém sabia explicar. Mas, para quem acreditava em tal, a Viúva do Campo era merecedora de todos os respeitos, pois que lhe corria sangue real nas veias. E D. Ana Ferreira ali foi crescendo, acabando por casar com João Rodrigues Calaça, um jovem bem parecido a desempenado, filho do casal que a havia criado.
Como se nada visse nem ouvisse, D. Ana continuava imperturbável naquela marcha que a levava dos Varadouros até à capela que se descortinava, branca a solitária, no cume do Pico da Juliana, essa espécie de farol que guiava não só os fiéis para a casa de Deus como também os marinheiros que, lá em baixo, no meio do grande mar oceano, tentavam encontrar o caminho certo até às Ilhas. D. Ana levava tantas horas a fugir à areia que nem dava pela sua invasão, em secas e traiçoeiras golfadas, através dos numerosos buracos a rasgões dos seus tapetes, a maldita areia, cujos avanços constantes iam secando aquela santa Ilha. Agora, nem o vermelho e precioso "sangue de drago" fazia chegar à terra os bens necessários que, em troca, os barcos traziam para use dos seus habitantes. E os coelhos, os malditos coelhos, acabavam com tudo, comiam tudo o que fosse verde, morrendo depois com o verde que haviam feito desaparecer. Deste modo, nem vegetais nem animais eram coisas abundantes por aquelas terras de Deus, sendo uma constante a pobreza da ilha, onde poucas diferenças havia entre os grandes a os pequenos dela, talvez porque todos se intitulassem grandes ou descendentes de grandes, não importando, assim, que cada um fosse tão pobre como o seu vizinho... E a um filho d'algo não se pode exigir que trabalhe como um plebeu. Desta forma, o porto-santense, quixotescamente, lá is batalhando contra os moinhos ; de vento da sua Ilha, sem fazer calos nas mãos, a não ser no A punho da espada, ao serviço do Rei, nas partes do Norte de África, em batalhas contra a mourama.”

In “Viagem à Memória das Ilhas”, págs 138 e 139