Revista Bimensal 
Edição 19 - Abril 07
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Empreender nas escolas e na comunidade: o projecto ENE Almada

 

Sílvia Matias
Madan Parque de Ciência
scm@madanparque.pt


“O Empreendorismo é uma revolução silenciosa, que será para o século XXI mais do que a revolução industrial foi para o século XX”1
 

Empreender significa ter ideias, reconhecer oportunidades, correr riscos, iniciar e desenvolver novos projectos. Não se aplica apenas a quem cria novas entidades, com ou sem fins lucrativos, mas identifica, na essência, a atitude criadora, motivada e pró-activa do indivíduo que, por sua própria conta ou integrado numa organização, diariamente se esforça para inovar e produzir valor acrescentado.

Assim, não é de estranhar que, nos anos mais recentes, termos como “empreender” e “empreendedorismo” tenham saltado para os discursos políticos enquanto sinónimos de produtividade, competitividade e crescimento económico. De facto, empreender por conta própria, seja mediante a criação de uma empresa ou de uma entidade sem fins lucrativos, cria emprego e contribui para o desenvolvimento económico e social. Por outro lado, a presença de profissionais empreendedores numa organização possibilita ganhos contínuos de produtividade e a inovação dos seus processos de produção. Deste modo, e sobretudo em países como Portugal, onde persiste uma matriz cultural desfavorável ao risco e condenadora do fracasso, têm vindo a multiplicar-se esforços para promover uma atitude cada vez mais empreendedora entre os cidadãos.

A educação assume, neste cenário, um papel de relevo. O sucesso dos empreendedores depende não apenas de conhecimentos específicos, mas de características individuais como a criatividade, o gosto pelo risco, a persistência, a capacidade de trabalho em equipa, a inovação. E estas qualidades começam a desenvolver-se desde a mais tenra idade e podem ser estimuladas ao longo do percurso escolar.

Neste contexto, a União Europeia tem vindo a recomendar aos seus Estados Membros a adopção de metodologias que promovam o desenvolvimento de atitudes empreendedoras nos diversos graus de ensino. Em Portugal, no entanto, a introdução destas temáticas no ensino ainda se encontra pouco disseminada, particularmente nos níveis básico e secundário. Em 2002, a Comissão Europeia, num estudo sobre educação e formação em empreendedorismo nos seus Estados Membros, retratava, precisamente, esta realidade, relevando que, no nosso país:


“O Ministério da Economia, em colaboração com o Ministério da Educação, e algumas organizações privadas (associações empresariais) com laços estreitos com instituições de ensino estão actualmente a levar a cabo uma série de acções (seminários, conferências e visitas de estudo) cujo móbil é incentivar o espírito empresarial. Contudo, essas acções não se inscrevem no sistema de educação nacional
.2


Face a esta situação, diversas entidades públicas e privadas têm vindo a mobilizar-se para promover uma cultura empreendedora entre os mais jovens. Surgiram, assim, diversas iniciativas nas escolas da Madeira (http://www.rs4e.com/portal/), de Cascais (www.dnacascais.pt), do Algarve (http://www.projecto-ene.com/ene/) e da Covilhã (www.caie-covilha.com), entre outras.

Em Almada, a preocupação com este cenário motivou a reflexão do Madan Parque de Ciência e do Centro PROFORMAR sobre possíveis iniciativas a encetar neste domínio. Inspirados por diversas experiências internacionais e nacionais e avaliadas as competências e possibilidades de contributo de cada entidade, concluiu-se que existiam condições para a estruturação de um projecto de educação em empreendedorismo no ensino secundário. Ponderadas as opções metodológicas e os recursos disponíveis para afectar ao projecto, optou-se pela adopção da metodologia ENE – Empreender Na Escola, desenvolvida pelo BIC Algarve (Business Inovation Center) e pela Direcção Regional de Educação do Algarve, no quadro da iniciativa comunitária EQUAL.

Nasceu assim o projecto Empreender Na Escola – Almada (ENE-Almada). A sua finalidade consiste em promover uma cultura empreendedora junto de alunos com idades entre os 15 e os 18 anos, que frequentem o ensino secundário e profissional do concelho de Almada. Presentemente, o projecto encontra-se em fase de implementação piloto na Escola Secundária do Monte da Caparica mas, no próximo ano lectivo, o objectivo é abranger todas as escolas secundárias e profissionais do concelho. Posteriormente, ponderar-se-á a extensão a outras escolas da Península de Setúbal ou outras regiões mas com ligações à Universidade Nova de Lisboa.

A metodologia ENE baseia-se na elaboração de um Plano de Negócios durante um ano lectivo, suportado por materiais didácticos e por um leque diversificado de actividades (Formação para Professores, Visitas a Empresas, Concurso de Ideias, Exposição das Ideias de Negócio e Estágios em Empresas). Adicionalmente, o plano curricular será completado com a temática da propriedade industrial e com o alargamento ao empreendedorismo social, dada a tradição associativa do concelho.

Este programa de ensino privilegia a participação activa dos alunos e a sua responsabilização na concepção dos seus próprios percursos (empowerment); inclui uma componente prática forte de conhecimento do meio (empresas e serviços de apoio); contribui para o apoio à transição dos jovens para a vida activa e proporciona-lhes uma experiência enriquecedora, motivadora e divertida. Esta variedade de actividades pedagógicas permite que o projecto contribua para a dinamização não apenas das escolas mas de toda a comunidade envolvente.

A coordenação do projecto está a cargo do Madan Parque de Ciência (www.madanparque.pt) e do Centro PROFORMAR (www.proformar.org). Adicionalmente, o ENE Almada conta com apoio do Núcleo Empresarial de Almada Velha (www.novalmadavelha.pt/), da Federação Regional de Associações de Pais do Distrito de Setúbal (www.fersap.pt), da Fertagus (www.fertagus.pt) e da Junta de Freguesia de Caparica (http://jf-caparica.pt/index.htm). Prevê-se ainda a adesão de outros parceiros públicos e privados.

Ainda em fase preliminar, o projecto ENE Almada tem sido alvo de reacções muito positivas e entusiastas por parte de professores, alunos e comunidade local. Espera-se que este entusiasmo persista aquando da sua implementação e possibilite aos alunos a aquisição de capacidades que os ajudem a lidar com a mutabilidade e a incerteza profissionais e os tornem cidadãos mais proactivos e intervenientes. Para que sejam eles os actores da revolução silenciosa preconizada por Jeffrey Timmons para o século XXI.

1)Timmons, Jefrey A. (1994): New Venture Creation, Irwin, Boston, USA
2)Comissão Europeia: Relatório Final do Grupo de Peritos do Projecto sobre Educação e Formação para o Desenvolvimento do Espírito Empresarial no âmbito do “Procedimentos Best”, Publicações DG Empresa, 2002