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Empreender nas escolas e na comunidade: o projecto ENE
Almada
Sílvia Matias
Madan Parque
de Ciência
scm@madanparque.pt
“O
Empreendorismo é uma revolução silenciosa, que será para o
século XXI mais do que a revolução industrial foi para o
século XX”1
Empreender
significa ter ideias, reconhecer oportunidades, correr
riscos, iniciar e desenvolver novos projectos. Não se aplica
apenas a quem cria novas entidades, com ou sem fins
lucrativos, mas identifica, na essência, a atitude criadora,
motivada e pró-activa do indivíduo que, por sua própria
conta ou integrado numa organização, diariamente se esforça
para inovar e produzir valor acrescentado.
Assim, não é de estranhar que, nos anos mais
recentes, termos como “empreender” e “empreendedorismo”
tenham saltado para os discursos políticos enquanto
sinónimos de produtividade, competitividade e crescimento
económico. De facto, empreender por conta própria, seja
mediante a criação de uma empresa ou de uma entidade sem
fins lucrativos, cria emprego e contribui para o
desenvolvimento económico e social. Por outro lado, a
presença de profissionais empreendedores numa organização
possibilita ganhos contínuos de produtividade e a inovação
dos seus processos de produção. Deste modo, e sobretudo em
países como Portugal, onde persiste uma matriz cultural
desfavorável ao risco e condenadora do fracasso, têm vindo a
multiplicar-se esforços para promover uma atitude cada vez
mais empreendedora entre os cidadãos.
A educação assume, neste cenário, um papel de relevo.
O sucesso dos empreendedores depende não apenas de
conhecimentos específicos, mas de características
individuais como a criatividade, o gosto pelo risco, a
persistência, a capacidade de trabalho em equipa, a
inovação. E estas qualidades começam a desenvolver-se desde
a mais tenra idade e podem ser estimuladas ao longo do
percurso escolar.
Neste contexto, a União Europeia tem vindo a
recomendar aos seus Estados Membros a adopção de
metodologias que promovam o desenvolvimento de atitudes
empreendedoras nos diversos graus de ensino. Em Portugal, no
entanto, a introdução destas temáticas no ensino ainda se
encontra pouco disseminada, particularmente nos níveis
básico e secundário. Em 2002, a Comissão Europeia, num
estudo sobre educação e formação em empreendedorismo nos
seus Estados Membros, retratava, precisamente, esta
realidade, relevando que, no nosso país:
“O Ministério da Economia, em colaboração com o Ministério
da Educação, e algumas organizações privadas (associações
empresariais) com laços estreitos com instituições de ensino
estão actualmente a levar a cabo uma série de acções
(seminários, conferências e visitas de estudo) cujo móbil é
incentivar o espírito empresarial. Contudo, essas acções
não se inscrevem no sistema de educação nacional.2
Face a esta situação, diversas entidades públicas e
privadas têm vindo a mobilizar-se para promover uma cultura
empreendedora entre os mais jovens. Surgiram, assim,
diversas iniciativas nas escolas da Madeira (http://www.rs4e.com/portal/),
de Cascais (www.dnacascais.pt),
do Algarve (http://www.projecto-ene.com/ene/)
e da Covilhã (www.caie-covilha.com),
entre outras.
Em Almada, a preocupação com este cenário motivou a
reflexão do Madan Parque de Ciência e do Centro PROFORMAR
sobre possíveis iniciativas a encetar neste domínio.
Inspirados por diversas experiências internacionais e
nacionais e avaliadas as competências e possibilidades de
contributo de cada entidade, concluiu-se que existiam
condições para a estruturação de um projecto de educação em
empreendedorismo no ensino secundário. Ponderadas as opções
metodológicas e os recursos disponíveis para afectar ao
projecto, optou-se pela adopção da metodologia ENE –
Empreender Na Escola, desenvolvida pelo BIC Algarve (Business
Inovation Center) e pela Direcção Regional de Educação do
Algarve, no quadro da iniciativa comunitária EQUAL.
Nasceu assim o projecto Empreender Na Escola –
Almada (ENE-Almada). A sua finalidade consiste em
promover uma cultura empreendedora junto de alunos com
idades entre os 15 e os 18 anos, que frequentem o ensino
secundário e profissional do concelho de Almada.
Presentemente, o projecto encontra-se em fase de
implementação piloto na Escola Secundária do Monte da
Caparica mas, no próximo ano lectivo, o objectivo é abranger
todas as escolas secundárias e profissionais do concelho.
Posteriormente, ponderar-se-á a extensão a outras escolas da
Península de Setúbal ou outras regiões mas com ligações à
Universidade Nova de Lisboa.
A metodologia ENE baseia-se na elaboração de um Plano
de Negócios durante um ano lectivo, suportado por materiais
didácticos e por um leque diversificado de actividades
(Formação para Professores, Visitas a Empresas, Concurso de
Ideias, Exposição das Ideias de Negócio e Estágios em
Empresas). Adicionalmente, o plano curricular será
completado com a temática da propriedade industrial e com o
alargamento ao empreendedorismo social, dada a tradição
associativa do concelho.
Este programa de ensino privilegia a participação
activa dos alunos e a sua responsabilização na concepção dos
seus próprios percursos (empowerment); inclui uma
componente prática forte de conhecimento do meio (empresas e
serviços de apoio); contribui para o apoio à transição dos
jovens para a vida activa e proporciona-lhes uma experiência
enriquecedora, motivadora e divertida. Esta variedade de
actividades pedagógicas permite que o projecto contribua
para a dinamização não apenas das escolas mas de toda a
comunidade envolvente.
A coordenação do projecto está a cargo do Madan
Parque de Ciência (www.madanparque.pt)
e do Centro PROFORMAR (www.proformar.org).
Adicionalmente, o ENE Almada conta com apoio do Núcleo
Empresarial de Almada Velha (www.novalmadavelha.pt/),
da Federação Regional de Associações de Pais do Distrito de
Setúbal (www.fersap.pt),
da Fertagus (www.fertagus.pt)
e da Junta de Freguesia de Caparica (http://jf-caparica.pt/index.htm).
Prevê-se ainda a adesão de outros parceiros públicos e
privados.
Ainda em fase preliminar, o projecto ENE Almada tem
sido alvo de reacções muito positivas e entusiastas por
parte de professores, alunos e comunidade local. Espera-se
que este entusiasmo persista aquando da sua implementação e
possibilite aos alunos a aquisição de capacidades que os
ajudem a lidar com a mutabilidade e a incerteza
profissionais e os tornem cidadãos mais proactivos e
intervenientes. Para que sejam eles os actores da revolução
silenciosa preconizada por Jeffrey Timmons para o século
XXI.
1)Timmons, Jefrey A. (1994): New Venture
Creation, Irwin, Boston, USA
2)Comissão Europeia: Relatório Final
do Grupo de Peritos do Projecto sobre Educação e Formação
para o Desenvolvimento do Espírito Empresarial no âmbito do
“Procedimentos Best”, Publicações DG Empresa, 2002
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