Revista Bimensal 
Edição 8 - Março 05
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BIBLIOTECA ESCOLAR OU BIBLIOTECA DA ESCOLA?

Reflexões de um professor efectivo e bibliotecário amador

 

Fernando Cunha Rebelo
Coordenador do CR
 Esc. Sec. Daniel Sampaio



A biblioteca é “escola”

Quando há cerca de 13 anos o então Conselho Directivo da escola a que pertenço me convidou para tomar conta da biblioteca da dita, os meus planos eram muito simples: ter a biblioteca aberta todo o tempo possível para o maior e mais diverso número de utentes possível. O “Centro de Recursos”, a CDU, as estantes abertas, os equipamentos, as informatizações, as redes nacionais e concelhias, foram aventuras posteriores que nunca me fizerem perder de vista esse projecto primordial.
 


Não fiz já parte, felizmente, daquele grupo de desafortunados que anteriormente foram parar à biblioteca por circunstâncias de superavit lectivo. Como bibliotecário amador, fui aprendendo com o tempo, com encontros e desencontros com outros colegas e alguns especialistas, e muito particularmente com o desenvolvimento do “menino” (ou do “polvo”, na óptica de alguns colegas mais críticos) que passou de uma exígua sala com livros para o espaço amplo e polivalente que é hoje. Assim sendo, se algum fundamento ou legitimidade poderão ter as observações que aqui partilho ela advém tão somente dessa viagem experimental do professor de português sem qualquer formação académica em Ciências Documentais que ainda continuo a ser.

Perdoem-me então a franqueza e deixem-me que lhes diga que a familiaridade técnica com que nos referimos a esta parte importante das nossas escolas como BE-CRE me soa às vezes como o nome daqueles partidos que querem ser inovadores, apanhar as marés do tempo, mas têm medo de perder o património e a respeitabilidade do seu passado. Antes de ser “biblioteca”, a biblioteca é “escola” com tudo o que isso implica, e o facto de continuar a levar este barco por diante tem pouco a ver com a minha paixão pelos livros (não maior do que pelo futebol, as viagens, uma boa conversa, um bom jantar....) mas muito mais com o facto de ser professor e gostar de ver os alunos crescerem e alargarem horizontes, de constatar como vão amadurecendo desde o 7º até ao 12º... e de poder, integrado na Escola, ter contribuído de alguma forma para isso.


Um posto de pesquisa directa na base de dados


Encorajar a autonomia

O que deve então fazer uma escola para contribuir para esse desenvolvimento? Nada melhor do que o espaço do faça-você-mesmo da biblioteca para promover essa autonomia progressiva. Lembro-me do velho e conhecido ditado chinês que diz algo assim: “não dês um peixe a um faminto, dá-lhe antes uma cana e ensina-o a pescar” - o que traduzido para “português” significa que os alunos devem ser encorajados a serem cada vez mais autónomos na pesquisa e utilização dos documentos. De que serve ter uma CDU quilométrica para cada documento se ninguém a entende? Esta classificação que se apelida “universal” (mesmo antes de ser decimal) deve ser inteligível por todos os utentes e não se limitar a um misterioso código reservado aos bibliotecários – cairíamos no erro crasso de confundir os fins com os meios. Os alunos podem ser orientados a procurar o que querem com meios simples: um pequeno guia com os rudimentos da CDU, um posto de pesquisa directa da base de dados, o apoio pedagógico dos responsáveis e uma pequena “visita de estudo” à biblioteca no princípio do ano para os novatos, pode dar uma ajuda, a título de exemplo. Também no tratamento da informação e na produção de novos documentos a biblioteca poderá ser, em colaboração activa (e lectiva) com os outros professores, um instrumento da autonomização dos alunos.

Dinamizar actividades de uma forma integrada

Esta colaboração com os professores leva-me novamente à minha tese guia: a biblioteca é ela mesmo um elemento do todo que é a escola e, para ser fiel a este propósito, julgo que deve estar completamente integrada tanto em termos de objectivos como de processos e esquemas organizativos. Não sou de forma alguma partidário de um calendário de actividades que não integre as propostas dos vários agentes da dita comunidade educativa – não estamos nós todos a trabalhar para o mesmo? Sendo escola, a biblioteca deve ser simultaneamente dinamizadora e integradora das “agendas” da própria escola – não é por acaso que os Coordenadores dos CRs são hoje, por inerência, coordenadores dos projectos/clubes em actividade. Para quê criar um calendário distinto e isolado das actividades dos diferentes departamentos e clubes? Porque não potenciar esforços e articular com os outros agentes objectivos e processos? Aquela colecção de cartazes do Centenário do Eça dão muito jeito no momento em que no 11º Ano se leccionam “Os Maias” e os próprios alunos a podem expor e observar como aula de sensibilização para o tema. E que tal uma exposição com documentos escolhidos do acervo pelos colegas de Física para comemorar o “Ano Internacional da Física”? Podemos igualmente tentar tornar menos efémeras algumas efemérides como o “Dia Mundial da Poesia” (com patrocínio de poemas pelos utentes: alunos, professores, funcionários, pais) ou lembrando o “Dia dos Direitos Humanos” em colaboração com a Secção Portuguesa da Amnistia Internacional.

Nesta linha de ideias, não faz falta a uma biblioteca uma numerosa equipa de professores a trabalhar em separado, especialmente se estiverem todo o tempo que têm disponível a classificar documentos e a discutir pormenores do Unimarc. Não negando, porém, que os responsáveis bibliotecários (professores ou auxiliares) tenham que possuir algumas competências técnicas específicas, a equipa da biblioteca é potencialmente toda a escola com as suas sugestões, objectivos e projectos.


Os cartazes do Centenário do Eça dão muito jeito


Patrocínio de poemas


Manter uma organização que permita a polivalência


Como espaço polivalente que deve ser, a biblioteca pode servir para quase tudo o que se faz numa escola, facultando espaço e recursos para actividades diversas como estudar, dar/ter aulas, trabalhar em grupos, ocupar os tempos livres... Como se pode então chegar a este nirvana, a esta quase situação de “sol na eira e chuva no nabal”? Nem sempre se pode – quantas vezes não ouvi queixas quase simultâneas de um colega que se lamentava do barulho excessivo e de alunos precisamente do silêncio que lhes era imposto. À parte da organização do espaço, elemento fundamental para permitir diversas valências em simultâneo (remetendo-os para a diversa literatura especializada no assunto), diria que igualmente importantes são as regras e o seu estrito cumprimento. É verdade, lapaliciana, mas é. O problema é que sem firmeza e com medo de enfrentar alguns conflitos podemos ter as melhores regras do mundo e, mesmo assim, sujeitarmo-nos a perder recursos e acabar por não agradar nem a gregos nem a troianos.


A biblioteca pode ser um espaço polivalente


Num tempo em que falar de “diversificação das actividades lectivas”, com ênfase nas metodologias activas, já se tornou um cliché, o espaço da biblioteca pode tornar mais efectivo este propósito. A informação sai do quadro, do discurso do professor e desloca-se para o espaço em volta do aluno – o próprio professor se sente impelido a assumir um papel de orientador e dinamizador das tarefas dos alunos. A ausência de um “estrado”, uma “cátedra”, com um quadro como cenário, ameniza ainda a assimetria dos dois papéis e, além de permitir ao aluno a pesquisa e utilização mais autónoma de informação em diversos suportes, suscita no professor um acompanhamento mais individual dos alunos, apercebendo-se de diferentes ritmos e necessidades. Não é igualmente de estranhar que se possuírem um espaço agradável e organizado seja mais fácil professores e alunos combinarem encontros para orientação de trabalhos, esclarecimento de dúvidas, enfim, aquele apoio informal do próprio professor que muitas vezes surte mais efeito do que o resultante de preenchimento de buracos nos horários de outros professores.

Com a consciência de que os nossos alunos passam mais tempo na escola do que, por vezes com os pais, sabendo como alguns de entre nós lamentam o “adolescentário” em que as escolas secundárias se tornaram, registo porém com agrado que muitos bibliotecários já se deixaram de queixumes e puseram mãos à obra – há que ocupar os tempos livres dos alunos. E é vê-los na Fnac adquirindo febrilmente o último Harry Potter, preocupando-se com o “parental advice” na capa do CD pedido pelos alunos, completando a Colecção Horrível, hesitando entre o Shrek II e... o Homem-aranha II. Não faz mal, a minha experiência diz-me (como provavelmente a de muitos colegas) que o Homem-aranha II para a maior parte dos alunos é como a pastilha elástica – mastiga-se e deita-se fora, enquanto outros filmes continuam a ser vistos por eles anos depois de terem sido editados: Forrest Gump, Sexto Sentido, A Lista de Shindler...

O que comprar, quando há dinheiro? Nenhum dos nossos colegas especialistas em toda a diversidade de saberes que povoam uma escola nos pode ajudar quando toca ao acervo mais lúdico e o bom senso tem de prevalecer: há que satisfazer os gostos dos alunos sem transformar a biblioteca num blockbuster.


Promover a leitura?

Seria estranho que, tendo no seu étimo a palavra grega para livro, a biblioteca acabasse por se transformar num cybercafé, com os alunos limitando-se a “chatear” freneticamente, ou a ler revistas cor-de-rosa enquanto ouvem música nos seus leitores de mp3, como numa vulgar sala de espera de um dentista. Há então, para além do que já foi dito, de continuar a desempenhar a, muitas vezes, ingrata e espinhosa missão de promover a leitura?


Promover anualmente uma Feira do Livro


Muitas bibliotecas têm actividades destinadas a este nobre objectivo mas, até ao momento, não conheci nenhuma receita mágica: podemos sempre fomentar uma feira do livro anual (muitas editoras já as têm prontas-a-usar), premiar o “leitor do mês”, dinamizar um painel de novidades apelativo, promover palestras com escritores bons comunicadores, fazer leituras em voz alta e até pedir aos alunos-artistas-leitores-mais-renitentes que façam bustos dos nossos clássicos para nos olharem com um ar complacente do alto das estantes da biblioteca... e mesmo assim podemos não sentir grandes resultados.


Os nossos clássicos no alto das estantes

O tema da leitura é um assunto difícil pois envolve muitas opiniões preconceituosas e precipitadas, assim como hábitos culturais que muitas vezes vão para além da energia das nossas boas vontades.

Enfim, se o “bom é inimigo do óptimo” , eu diria que se não quiserem ler os “clássicos” que leiam os “best-selllers”; se não quiserem ler livros que leiam jornais e revistas e que, finalmente, se não lerem bons jornais e boas revistas que leiam qualquer coisa que não tenha erros de expressão, pelo menos.

De qualquer forma, quando nos sentirmos demasiado frustrados nesta, repito, espinhosa tarefa, podemos sempre reler o já clássico "Como um Romance", de Daniel Pennac e encarar o assunto filosoficamente.


Construir um Centro de Gestão de Recursos

Com o grande incremento nos últimos anos da rede de bibliotecas escolares que proporcionou alguns recursos financeiros, meios divulgação de boas práticas, algum apoio técnico por parte das autarquias, uniformização de algumas normas e procedimentos técnicos, deu-se um salto qualitativo neste aspecto da vida de cada escola. No entanto, como defendi desde o início deste artigo, uma biblioteca antes de ser escolar tem de ser da escola. O que equivale a dizer que antes de entrar cegamente num processo de normalização que a torne igual a um modelo nacional, deve fazer parte do tecido da própria escola, servir as suas necessidades, aperceber-se das suas idiossincrasias, ser mais um instrumento de execução do seu Projecto Educativo. Com todas as potencialidades que este espaço tem há que começar, ainda antes de fazer parte de redes nacionais e concelhias, por ser ela o centro de uma rede de gestão de recursos no interior de cada escola, um ponto nevrálgico dos produtos educativos, que são afinal a razão pela qual nós aqui estamos todos a preocupar-nos com estas coisas.

Que me desculpem aqueles para quem nada do que escrevi constitui novidade. Pelo menos restar-me-á o consolo de me sentir cúmplice da mesma razão.
 


O centro de uma rede de Gestão de Recursos