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BIBLIOTECA ESCOLAR OU BIBLIOTECA DA ESCOLA?
Reflexões de um professor efectivo e bibliotecário amador
Coordenador do
CR
Esc. Sec. Daniel Sampaio
A biblioteca é “escola”
Quando há cerca de 13 anos o então Conselho Directivo
da escola a que pertenço me convidou para tomar conta da
biblioteca da dita, os meus planos eram muito simples: ter a
biblioteca aberta todo o tempo possível para o maior e mais
diverso número de utentes possível. O “Centro de Recursos”, a
CDU, as estantes abertas, os equipamentos, as informatizações,
as redes nacionais e concelhias, foram aventuras posteriores
que nunca me fizerem perder de vista esse projecto primordial.
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Não fiz já parte,
felizmente, daquele grupo de desafortunados que anteriormente
foram parar à biblioteca por circunstâncias de superavit
lectivo. Como bibliotecário amador, fui aprendendo com o
tempo, com encontros e desencontros com outros colegas e
alguns especialistas, e muito particularmente com o
desenvolvimento do “menino” (ou do “polvo”, na óptica de
alguns colegas mais críticos) que passou de uma exígua sala
com livros para o espaço amplo e polivalente que é hoje. Assim
sendo, se algum fundamento ou legitimidade poderão ter as
observações que aqui partilho ela advém tão somente dessa
viagem experimental do professor de português sem qualquer
formação académica em Ciências Documentais que ainda continuo
a ser.
Perdoem-me então a franqueza e deixem-me que lhes diga
que a familiaridade técnica com que nos referimos a esta parte
importante das nossas escolas como BE-CRE me soa às vezes como
o nome daqueles partidos que querem ser inovadores, apanhar as
marés do tempo, mas têm medo de perder o património e a
respeitabilidade do seu passado. Antes de ser “biblioteca”,
a biblioteca é “escola” com tudo o que isso implica, e o
facto de continuar a levar este barco por diante tem pouco a
ver com a minha paixão pelos livros (não maior do que pelo
futebol, as viagens, uma boa conversa, um bom jantar....) mas
muito mais com o facto de ser professor e gostar de ver os
alunos crescerem e alargarem horizontes, de constatar como vão
amadurecendo desde o 7º até ao 12º... e de poder, integrado na
Escola, ter contribuído de alguma forma para isso.
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Um posto de pesquisa directa na base de dados
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Encorajar a autonomia
O que deve então fazer uma escola para contribuir para esse
desenvolvimento? Nada melhor do que o espaço do
faça-você-mesmo da biblioteca para promover essa autonomia
progressiva. Lembro-me do velho e conhecido ditado chinês que
diz algo assim: “não dês um peixe a um faminto, dá-lhe antes
uma cana e ensina-o a pescar” - o que traduzido para
“português” significa que os alunos devem ser encorajados a
serem cada vez mais autónomos na pesquisa e utilização dos
documentos. De que serve ter uma CDU quilométrica para
cada documento se ninguém a entende? Esta classificação que se
apelida “universal” (mesmo antes de ser decimal) deve ser
inteligível por todos os utentes e não se limitar a um
misterioso código reservado aos bibliotecários – cairíamos no
erro crasso de confundir os fins com os meios. Os alunos podem
ser orientados a procurar o que querem com meios simples: um
pequeno guia com os rudimentos da CDU, um posto de pesquisa
directa da base de dados, o apoio pedagógico dos responsáveis
e uma pequena “visita de estudo” à biblioteca no princípio do
ano para os novatos, pode dar uma ajuda, a título de exemplo.
Também no tratamento da informação e na produção de novos
documentos a biblioteca poderá ser, em colaboração activa (e
lectiva) com os outros professores, um instrumento da
autonomização dos alunos.
Dinamizar actividades de
uma forma integrada
Esta colaboração com os professores leva-me novamente à minha
tese guia: a biblioteca é ela mesmo um elemento do todo que
é a escola e, para ser fiel a este propósito, julgo que deve
estar completamente integrada tanto em termos de objectivos
como de processos e esquemas organizativos. Não sou de
forma alguma partidário de um calendário de actividades que
não integre as propostas dos vários agentes da dita comunidade
educativa – não estamos nós todos a trabalhar para o mesmo?
Sendo escola, a biblioteca deve ser simultaneamente
dinamizadora e integradora das “agendas” da própria escola –
não é por acaso que os Coordenadores dos CRs são hoje, por
inerência, coordenadores dos projectos/clubes em actividade.
Para quê criar um calendário distinto e isolado das
actividades dos diferentes departamentos e clubes? Porque não
potenciar esforços e articular com os outros agentes
objectivos e processos? Aquela colecção de cartazes do
Centenário do Eça dão muito jeito no momento em que no 11º Ano
se leccionam “Os Maias” e os próprios alunos a podem expor e
observar como aula de sensibilização para o tema. E que tal
uma exposição com documentos escolhidos do acervo pelos
colegas de Física para comemorar o “Ano Internacional da
Física”? Podemos igualmente tentar tornar menos efémeras
algumas efemérides como o “Dia Mundial da Poesia” (com
patrocínio de poemas pelos utentes: alunos, professores,
funcionários, pais) ou lembrando o “Dia dos Direitos Humanos”
em colaboração com a Secção Portuguesa da Amnistia
Internacional.
Nesta linha de ideias, não faz falta a uma biblioteca
uma numerosa equipa de professores a trabalhar em separado,
especialmente se estiverem todo o tempo que têm disponível a
classificar documentos e a discutir pormenores do Unimarc. Não
negando, porém, que os responsáveis bibliotecários
(professores ou auxiliares) tenham que possuir algumas
competências técnicas específicas, a equipa da biblioteca é
potencialmente toda a escola com as suas sugestões, objectivos
e projectos.
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Os cartazes do Centenário do Eça dão muito jeito
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Patrocínio de poemas
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Manter uma organização que permita a polivalência
Como espaço polivalente que deve ser, a biblioteca pode
servir para quase tudo o que se faz numa escola,
facultando espaço e recursos para actividades diversas como
estudar, dar/ter aulas, trabalhar em grupos, ocupar os tempos
livres... Como se pode então chegar a este nirvana, a esta
quase situação de “sol na eira e chuva no nabal”? Nem sempre
se pode – quantas vezes não ouvi queixas quase simultâneas de
um colega que se lamentava do barulho excessivo e de alunos
precisamente do silêncio que lhes era imposto. À parte da
organização do espaço, elemento fundamental para permitir
diversas valências em simultâneo (remetendo-os para a
diversa literatura especializada no assunto), diria que
igualmente importantes são as regras e o seu estrito
cumprimento. É verdade, lapaliciana, mas é. O
problema é que sem firmeza e com medo de enfrentar alguns
conflitos podemos ter as melhores regras do mundo e, mesmo
assim, sujeitarmo-nos a perder recursos e acabar por não
agradar nem a gregos nem a troianos.
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A biblioteca pode ser um espaço polivalente
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Num tempo em que falar de “diversificação das actividades
lectivas”, com ênfase nas metodologias activas, já se tornou
um cliché, o espaço da biblioteca pode tornar mais efectivo
este propósito. A informação sai do quadro, do discurso do
professor e desloca-se para o espaço em volta do aluno – o
próprio professor se sente impelido a assumir um papel de
orientador e dinamizador das tarefas dos alunos. A ausência
de um “estrado”, uma “cátedra”, com um quadro como cenário,
ameniza ainda a assimetria dos dois papéis e, além
de permitir ao aluno a pesquisa e utilização mais autónoma de
informação em diversos suportes, suscita no professor um
acompanhamento mais individual dos alunos, apercebendo-se de
diferentes ritmos e necessidades. Não é igualmente de
estranhar que se possuírem um espaço agradável e organizado
seja mais fácil professores e alunos combinarem encontros para
orientação de trabalhos, esclarecimento de dúvidas, enfim,
aquele apoio informal do próprio professor que muitas vezes
surte mais efeito do que o resultante de preenchimento de
buracos nos horários de outros professores.
Com a consciência de que os nossos alunos passam mais tempo
na escola do que, por vezes com os pais, sabendo como
alguns de entre nós lamentam o “adolescentário” em que as
escolas secundárias se tornaram, registo porém com agrado que
muitos bibliotecários já se deixaram de queixumes e puseram
mãos à obra – há que ocupar os tempos livres dos alunos.
E é vê-los na Fnac adquirindo febrilmente o último Harry
Potter, preocupando-se com o “parental advice” na capa do CD
pedido pelos alunos, completando a Colecção Horrível,
hesitando entre o Shrek II e... o Homem-aranha II.
Não faz mal, a minha experiência diz-me (como provavelmente a
de muitos colegas) que o Homem-aranha II para a maior
parte dos alunos é como a pastilha elástica – mastiga-se e
deita-se fora, enquanto outros filmes continuam a ser vistos
por eles anos depois de terem sido editados: Forrest Gump,
Sexto Sentido, A Lista de Shindler...
O que comprar, quando há dinheiro? Nenhum dos nossos
colegas especialistas em toda a diversidade de saberes que
povoam uma escola nos pode ajudar quando toca ao acervo mais
lúdico e o bom senso tem de prevalecer: há que satisfazer os
gostos dos alunos sem transformar a biblioteca num
blockbuster.
Promover a leitura?
Seria estranho que, tendo no seu étimo a palavra grega
para livro, a biblioteca acabasse por se transformar num
cybercafé, com os alunos limitando-se a “chatear”
freneticamente, ou a ler revistas cor-de-rosa enquanto ouvem
música nos seus leitores de mp3, como numa vulgar sala de
espera de um dentista. Há então, para além do que já foi dito,
de continuar a desempenhar a, muitas vezes, ingrata e
espinhosa missão de promover a leitura?
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Promover anualmente uma
Feira do Livro
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Muitas bibliotecas têm actividades destinadas a este nobre
objectivo mas, até ao momento, não conheci nenhuma receita
mágica: podemos sempre fomentar uma feira do livro anual
(muitas editoras já as têm prontas-a-usar), premiar o “leitor
do mês”, dinamizar um painel de novidades apelativo, promover
palestras com escritores bons comunicadores, fazer leituras em
voz alta e até pedir aos
alunos-artistas-leitores-mais-renitentes que façam bustos dos
nossos clássicos para nos olharem com um ar complacente do
alto das estantes da biblioteca... e mesmo assim podemos não
sentir grandes resultados.
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Os nossos clássicos no alto
das estantes
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O tema da leitura é um assunto difícil pois envolve muitas
opiniões preconceituosas e precipitadas, assim como hábitos
culturais que muitas vezes vão para além da energia das nossas
boas vontades.
Enfim, se o “bom é inimigo do óptimo” , eu diria que se
não quiserem ler os “clássicos” que leiam os “best-selllers”;
se não quiserem ler livros que leiam jornais e revistas e que,
finalmente, se não lerem bons jornais e boas revistas que
leiam qualquer coisa que não tenha erros de expressão, pelo
menos.
De qualquer forma, quando nos sentirmos demasiado
frustrados nesta, repito, espinhosa tarefa, podemos sempre
reler o já clássico "Como um Romance", de Daniel Pennac e
encarar o assunto filosoficamente.
Construir um Centro de Gestão de Recursos
Com o grande incremento nos últimos anos da rede de
bibliotecas escolares que proporcionou alguns recursos
financeiros, meios divulgação de boas práticas, algum apoio
técnico por parte das autarquias, uniformização de algumas
normas e procedimentos técnicos, deu-se um salto qualitativo
neste aspecto da vida de cada escola. No entanto, como defendi
desde o início deste artigo, uma biblioteca antes de ser
escolar tem de ser da escola. O que equivale a dizer que
antes de entrar cegamente num processo de normalização que a
torne igual a um modelo nacional, deve fazer parte do tecido
da própria escola, servir as suas necessidades, aperceber-se
das suas idiossincrasias, ser mais um instrumento de execução
do seu Projecto Educativo. Com todas as potencialidades que
este espaço tem há que começar, ainda antes de fazer parte
de redes nacionais e concelhias, por ser ela o centro de uma
rede de gestão de recursos no interior de cada escola, um
ponto nevrálgico dos produtos educativos, que são afinal a
razão pela qual nós aqui estamos todos a preocupar-nos com
estas coisas.
Que me desculpem aqueles para quem nada do que escrevi
constitui novidade. Pelo menos restar-me-á o consolo de me
sentir cúmplice da mesma razão.
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O centro de uma rede de
Gestão de Recursos
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