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Introdução
Este artigo descreve alguns aspectos da dinamização de um
clube de ciência num centro comunitário de apoio social inserido
num bairro da cidade de Lisboa, no âmbito de uma actividade de
voluntariado. Não se trata de um artigo de investigação sobre
ensino experimental das ciências nem o projecto que se descreve
está inserido em qualquer trabalho de natureza académica.
Com esta descrição pretende-se partilhar uma experiência
e talvez ajudar a formular algumas questões para uma reflexão
sobre o tema.
Como surgiu
o clube?
O Clube de Ciência de que trata o artigo, deu os primeiros
passos em Maio de 2005, inserido no programa de um Centro
Comunitário que organiza diversas actividades de ocupação de
tempos livres para as crianças e jovens do bairro onde se
localiza. Passou a ser mais um entre outros clubes já existentes
(Clubes dos Desafios, de Jornalismo, de Artes Plásticas, de Hip
Hop...)
A filosofia subjacente à criação deste Clube, teve por base o
desejo de que fosse, em primeiro lugar, um espaço informal onde,
em simultâneo, se esperava que acontecesse um pouco de ciência.
Começou a funcionar semanalmente, ao fim da tarde, dinamizado
por mim, em regime de voluntariado, mas sempre em colaboração e
estreito diálogo com um dos monitores da instituição que tinha,
à partida, um maior conhecimento dos miúdos e experiência na
dinamização de actividades de ocupação de tempos livres.
Quem são os
seus membros?
Os participantes do Clube são jovens com idades compreendidas
entre os 11 e os 15 anos que frequentam os 2º e 3º ciclos em
diferentes escolas da zona. O número de jovens participantes em
cada sessão é variável. Muito embora o número total de inscritos
seja quinze, estão presentes, em média, seis por sessão, apesar
de não serem sempre os mesmos.
Que
actividades acontecem?
No início, e porque o tempo e a nossa disponibilidade para
planear as tarefas não abundavam, optámos por adaptar
actividades já testadas por mim noutros contextos, publicadas em
livros de divulgação de ciência para os mais novos [1], em
manuais escolares ou na Web (por exemplo, em
http://cienciaemcasa.cienciaviva.pt/).
Numa primeira fase, não existiram grandes preocupações
com os temas abordados nem com a sequência das propostas. Os
critérios determinantes eram que fossem de fácil execução pelos
miúdos, adaptadas ao seu nível etário e que pudessem ser
realizadas usando materiais simples de fácil acesso e baixo
custo ou reaproveitados.
Apesar de o Clube funcionar como um espaço lúdico que
para os jovens nada tinha a ver com a escola, numa segunda fase,
que começa agora a nascer, passou a ser nossa preocupação
abordar algumas temáticas específicas, aproximando-as dos
currículos escolares, embora sem lhes tornar isso transparente.
Esta decisão relacionou-se com a constatação de que o insucesso
escolar de muitas daquelas crianças nas disciplinas de ciências
era significativo e pensámos que este espaço podia ajudar a
solucionar alguns bloqueios.
Paralelamente fomos constatando que a maioria dos miúdos
revelava grandes dificuldades na escrita. Surgiu assim a ideia
de criar um blog, alimentado e gerido pelos próprios miúdos,
como estratégia de incentivar a expressão e a comunicação
escrita. É um trabalho que terá de ser sistemático, obrigando a
um esforço de, por exemplo, promover discussões ricas dentro do
grupo tendo como base a formulação de questões que possam
contribuir para o enriquecimento dos textos que os miúdos venham
a escrever.
Que futuro?
É difícil prever como e para onde iremos caminhar no
futuro enquanto Clube. Os processos dinâmicos como este seguem a
evolução das próprias pessoas e das instituições que os acolhem.
Pensamos, contudo, que há ainda muito a fazer.
Em relação às propostas de actividades, gostávamos que
num futuro próximo, em simultâneo com a abordagem temática, elas
pudessem evoluir para se tornarem mais desafiadoras e menos
“receitas de cozinha”. Até agora as propostas obrigam muito a
seguir procedimentos passo a passo como numa receita, sem muita
margem para imaginar, inventar, criar, formular hipóteses. A
forma tem de ser outra, incentivando mais a formulação de
questões, colocando desafios a partir de situações tanto quanto
possíveis próximas dos miúdos, investigando, procurando
respostas, mesmo que essas "respostas" sejam novas questões.
Acredito que assim iremos melhorar o envolvimento dos miúdos e
talvez conquistar os mais velhos. Claro que isto exige mais
trabalho. Os desafios têm de ser pensados e construídos, não
existem, em geral, completamente disponíveis nas fontes que
usamos.
Gostávamos também de ir inovando na elaboração das
propostas de actividades experimentais integrando nelas, de
forma explícita, a utilização do computador pelos miúdos,
nomeadamente a Internet.
A Internet pode assumir vários papéis, refiro apenas
alguns:
-
fonte para
pesquisa de informação que alimente a realização das
actividades experimentais, nomeadamente a investigação e a
busca de respostas;
-
sítio para
encontrar e usar laboratórios virtuais de aprendizagem.
Usando o conceito de forma muito simplificada, designo assim
sites que permitem, por exemplo, usar simulações ou mesmo
actividades “experimentais” virtuais;
-
ferramenta
para criar e manter um blog a ser gerido essencialmente
pelos miúdos;
-
recurso
para a comunicação entre os membros do Clube (e-mail,
messenger, ...)
-
sítio para
publicar a página web do clube.
O ideal
seria ainda, conceber, planear e construir kits, adaptados à
realidade portuguesa, para abordagens temáticas. Estes seriam
constituídos por propostas de actividades inovadoras integrando
vários recursos (experimentais e virtuais), os materiais
necessários para as realizar e algumas indicações auxiliares
para dinamizadores ou professores. É um projecto a investir
tendo como princípio que é possível aprender ciência
experimentando, sem precisar de um laboratório no sentido
clássico e formal.
Que
dificuldades?
Este texto ficaria incompleto sem a referência a algumas
dificuldades sentidas no funcionamento do Clube. Enumeram-se
algumas:
-
A primeira
está relacionada com o espaço físico onde funciona o Clube.
A sala disponível é pequena e por isso, às vezes, é difícil
colocar os miúdos a trabalhar em grupos de dois ou três
elementos sem que exista alguma perturbação entre eles;
Alguns materiais e espaços de arrumação são partilhados com
outros grupos o que dificulta a organização e a gestão dos
recursos disponíveis;
-
O material
experimental é escasso o que limita a concretização de
algumas propostas. Em muitas situações é necessário
improvisar e usar muita imaginação;
-
A sala onde
têm lugar as actividades experimentais fica um pouco
distante da sala onde se localizam os computadores, apesar
de ambas se situarem no mesmo edifício, o que dificulta a
utilização integrada dos vários recursos e gera alguma
dispersão nos miúdos.
-
O facto de
o grupo de miúdos ser muito variável e serem poucos os que
mantém uma presença constante ao longo de várias semanas,
dificulta bastante a dinâmica de funcionamento;
-
A razão
enunciada no ponto anterior, associada ao facto de eu me
deslocar à instituição apenas uma vez por semana para as
actividades do Clube, cria algumas dificuldades ao
fortalecimento de relações afectivas entre mim e os miúdos
indispensáveis para uma maior cumplicidade entre nós e para
um maior envolvimento deles nas tarefas propostas.
Considerações finais
Para finalizar, mais do que tecer conclusões gostaria de deixar
algumas questões que fui, na minha cabeça, procurando formular
durante o desenvolvimento deste trabalho:
Que papel pode desempenhar um Clube de Ciência na ocupação de
tempos livres de crianças e jovens, na escola e fora dela?
Que papel pode desempenhar um espaço informal de ciência na
construção do gosto pela ciência e na motivação para a
aprendizagem?
Que pontes podem ser construídas entre estes espaços informais e
a escola?
Que aprendizagens fazemos todos (instituições, dinamizadores,
professores, miúdos…) com projectos desta natureza?
Por último, gostaria de deixar um convite, caso estejam
interessados em ter acesso a informações mais completas sobre o
desenvolvimento deste projecto. Visitem o diário do Clube
publicado no blog
http://clubeciencia.blogspot.com/ e ajudem a enriquecer o
seu conteúdo, publicando os vossos comentários.
Agradecimentos: Aos responsáveis da instituição e funcionários que me acolheram
e me apoiaram na concretização deste projecto; Ao Toni, monitor e meu colega no Clube. Sem a sua ajuda seria
praticamente impossível manter o funcionamento semanal do Clube; À Teresa Silva, minha colega, professora do 1º ciclo do Ensino
Básico, pelos inúmeros incentivos e sugestões durante a escrita
deste artigo e, ainda, pela preciosa ajuda na revisão do texto; Aos miúdos, os do Clube e não só. Só eles dão sentido a estes
projectos. É por eles e para eles que os faço.
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