Revista Bimensal 
Edição 12 - Dezembro 05
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História de um Clube de Ciência


 

Teresa Santos Faria
Professora de Física e Química
no 3º ciclo do Ensino Básico


 
Introdução


Este artigo descreve alguns aspectos da dinamização de um clube de ciência num centro comunitário de apoio social inserido num bairro da cidade de Lisboa, no âmbito de uma actividade de voluntariado. Não se trata de um artigo de investigação sobre ensino experimental das ciências nem o projecto que se descreve está inserido em qualquer trabalho de natureza académica.

Com esta descrição pretende-se partilhar uma experiência e talvez ajudar a formular algumas questões para uma reflexão sobre o tema.

Como surgiu o clube?

O Clube de Ciência de que trata o artigo, deu os primeiros passos em Maio de 2005, inserido no programa de um Centro Comunitário que organiza diversas actividades de ocupação de tempos livres para as crianças e jovens do bairro onde se localiza. Passou a ser mais um entre outros clubes já existentes (Clubes dos Desafios, de Jornalismo, de Artes Plásticas, de Hip Hop...)

A filosofia subjacente à criação deste Clube, teve por base o desejo de que fosse, em primeiro lugar, um espaço informal onde, em simultâneo, se esperava que acontecesse um pouco de ciência.

Começou a funcionar semanalmente, ao fim da tarde, dinamizado por mim, em regime de voluntariado, mas sempre em colaboração e estreito diálogo com um dos monitores da instituição que tinha, à partida, um maior conhecimento dos miúdos e experiência na dinamização de actividades de ocupação de tempos livres.

Quem são os seus membros?

Os participantes do Clube são jovens com idades compreendidas entre os 11 e os 15 anos que frequentam os 2º e 3º ciclos em diferentes escolas da zona. O número de jovens participantes em cada sessão é variável. Muito embora o número total de inscritos seja quinze, estão presentes, em média, seis por sessão, apesar de não serem sempre os mesmos.

Que actividades acontecem?

No início, e porque o tempo e a nossa disponibilidade para planear as tarefas não abundavam, optámos por adaptar actividades já testadas por mim noutros contextos, publicadas em livros de divulgação de ciência para os mais novos [1], em manuais escolares ou na Web (por exemplo, em http://cienciaemcasa.cienciaviva.pt/).

Numa primeira fase, não existiram grandes preocupações com os temas abordados nem com a sequência das propostas. Os critérios determinantes eram que fossem de fácil execução pelos miúdos, adaptadas ao seu nível etário e que pudessem ser realizadas usando materiais simples de fácil acesso e baixo custo ou reaproveitados.

Apesar de o Clube funcionar como um espaço lúdico que para os jovens nada tinha a ver com a escola, numa segunda fase, que começa agora a nascer, passou a ser nossa preocupação abordar algumas temáticas específicas, aproximando-as dos currículos escolares, embora sem lhes tornar isso transparente. Esta decisão relacionou-se com a constatação de que o insucesso escolar de muitas daquelas crianças nas disciplinas de ciências era significativo e pensámos que este espaço podia ajudar a solucionar alguns bloqueios.

Paralelamente fomos constatando que a maioria dos miúdos revelava grandes dificuldades na escrita. Surgiu assim a ideia de criar um blog, alimentado e gerido pelos próprios miúdos, como estratégia de incentivar a expressão e a comunicação escrita. É um trabalho que terá de ser sistemático, obrigando a um esforço de, por exemplo, promover discussões ricas dentro do grupo tendo como base a formulação de questões que possam contribuir para o enriquecimento dos textos que os miúdos venham a escrever.

Que futuro?

É difícil prever como e para onde iremos caminhar no futuro enquanto Clube. Os processos dinâmicos como este seguem a evolução das próprias pessoas e das instituições que os acolhem. Pensamos, contudo, que há ainda muito a fazer.

Em relação às propostas de actividades, gostávamos que num futuro próximo, em simultâneo com a abordagem temática, elas pudessem evoluir para se tornarem mais desafiadoras e menos “receitas de cozinha”. Até agora as propostas obrigam muito a seguir procedimentos passo a passo como numa receita, sem muita margem para imaginar, inventar, criar, formular hipóteses. A forma tem de ser outra, incentivando mais a formulação de questões, colocando desafios a partir de situações tanto quanto possíveis próximas dos miúdos, investigando, procurando respostas, mesmo que essas "respostas" sejam novas questões. Acredito que assim iremos melhorar o envolvimento dos miúdos e talvez conquistar os mais velhos. Claro que isto exige mais trabalho. Os desafios têm de ser pensados e construídos, não existem, em geral, completamente disponíveis nas fontes que usamos.

Gostávamos também de ir inovando na elaboração das propostas de actividades experimentais integrando nelas, de forma explícita, a utilização do computador pelos miúdos, nomeadamente a Internet.

A Internet pode assumir vários papéis, refiro apenas alguns:

  • fonte para pesquisa de informação que alimente a realização das actividades experimentais, nomeadamente a investigação e a busca de respostas;

  • sítio para encontrar e usar laboratórios virtuais de aprendizagem. Usando o conceito de forma muito simplificada, designo assim sites que permitem, por exemplo, usar simulações ou mesmo actividades “experimentais” virtuais;

  • ferramenta para criar e manter um blog a ser gerido essencialmente pelos miúdos;

  • recurso para a comunicação entre os membros do Clube (e-mail, messenger, ...)

  • sítio para publicar a página web do clube.

O ideal seria ainda, conceber, planear e construir kits, adaptados à realidade portuguesa, para abordagens temáticas. Estes seriam constituídos por propostas de actividades inovadoras integrando vários recursos (experimentais e virtuais), os materiais necessários para as realizar e algumas indicações auxiliares para dinamizadores ou professores. É um projecto a investir tendo como princípio que é possível aprender ciência experimentando, sem precisar de um laboratório no sentido clássico e formal.

Que dificuldades?

Este texto ficaria incompleto sem a referência a algumas dificuldades sentidas no funcionamento do Clube. Enumeram-se algumas:

  • A primeira está relacionada com o espaço físico onde funciona o Clube. A sala disponível é pequena e por isso, às vezes, é difícil colocar os miúdos a trabalhar em grupos de dois ou três elementos sem que exista alguma perturbação entre eles;
    Alguns materiais e espaços de arrumação são partilhados com outros grupos o que dificulta a organização e a gestão dos recursos disponíveis;

  • O material experimental é escasso o que limita a concretização de algumas propostas. Em muitas situações é necessário improvisar e usar muita imaginação;

  • A sala onde têm lugar as actividades experimentais fica um pouco distante da sala onde se localizam os computadores, apesar de ambas se situarem no mesmo edifício, o que dificulta a utilização integrada dos vários recursos e gera alguma dispersão nos miúdos.

  • O facto de o grupo de miúdos ser muito variável e serem poucos os que mantém uma presença constante ao longo de várias semanas, dificulta bastante a dinâmica de funcionamento;

  • A razão enunciada no ponto anterior, associada ao facto de eu me deslocar à instituição apenas uma vez por semana para as actividades do Clube, cria algumas dificuldades ao fortalecimento de relações afectivas entre mim e os miúdos indispensáveis para uma maior cumplicidade entre nós e para um maior envolvimento deles nas tarefas propostas.


Considerações finais

Para finalizar, mais do que tecer conclusões gostaria de deixar algumas questões que fui, na minha cabeça, procurando formular durante o desenvolvimento deste trabalho:

Que papel pode desempenhar um Clube de Ciência na ocupação de tempos livres de crianças e jovens, na escola e fora dela?

Que papel pode desempenhar um espaço informal de ciência na construção do gosto pela ciência e na motivação para a aprendizagem?

Que pontes podem ser construídas entre estes espaços informais e a escola?

Que aprendizagens fazemos todos (instituições, dinamizadores, professores, miúdos…) com projectos desta natureza?

Por último, gostaria de deixar um convite, caso estejam interessados em ter acesso a informações mais completas sobre o desenvolvimento deste projecto. Visitem o diário do Clube publicado no blog http://clubeciencia.blogspot.com/ e ajudem a enriquecer o seu conteúdo, publicando os vossos comentários.



Agradecimentos:
Aos responsáveis da instituição e funcionários que me acolheram e me apoiaram na concretização deste projecto;
Ao Toni, monitor e meu colega no Clube. Sem a sua ajuda seria praticamente impossível manter o funcionamento semanal do Clube;
À Teresa Silva, minha colega, professora do 1º ciclo do Ensino Básico, pelos inúmeros incentivos e sugestões durante a escrita deste artigo e, ainda, pela preciosa ajuda na revisão do texto;
Aos miúdos, os do Clube e não só. Só eles dão sentido a estes projectos. É por eles e para eles que os faço.