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Valerá a pena realizar aulas laboratoriais no ensino das ciências?
Miguel Marques
Esc.
Sec. António Gedeão - Laranjeiro
Formador
do Centro Proformar
A actual Revisão Curricular do ensino secundário elegeu como objectivo prioritário o aumento da qualidade das aprendizagens, no respeito pela pluralidade e equilíbrio dos seus fundamentos, a saber: a aquisição de conhecimentos, o desenvolvimento das competências vocacionais, a capacidade de pensar cientificamente os problemas, a interiorização de uma cultura de participação e responsabilidade, a plena consciência das opções que potenciam a liberdade e o desenvolvimento dos alunos como indivíduos e como cidadãos. Definiu igualmente algumas orientações metodológicas, das quais se destaca a integração das dimensões teórica e prática nas disciplinas científicas através da criação de “unidades lectivas de 90 minutos, que proporcionem uma organização e adequação de espaços de aprendizagem mais consentânea com as exigências neste nível de ensino. Afirmam-se, assim, os princípios da articulação das aprendizagens teórico-práticas e da interacção da componente experimental com a componente expositiva. Com esta postura, o ensino experimental/laboratorial é definitivamente aceite como cerne do desenvol-vimento de aprendizagens significativas em ciências.
Na nova organização curricular, disciplinas como Biologia-Geologia ou
Física-Química (do Curso de Ciências e Tecnologia) procuram o reforço das capacidades de experimentação, de trabalho de equipa e de interpretação de informação científica, o que permite desenvolver competências (estabelecer relações causa-efeito, compreender articulações estrutura-função, entre outras) que mobilizam a confrontação entre o previsto e o observado, a criatividade e a análise crítica. Tais aspirações serão mais facilmente materializadas através de abordagens de inquérito científico, de maior abertura, abrangência e inevitável complexidade que as práticas mais comuns nos laboratórios das escolas portuguesas.
De facto, como comprovam as investigações que empreendo de forma sistemática desde 1998, a metodologia de ensino laboratorial que vai prevalecendo é a demonstrativa, com a qual se ilustra, verifica ou descobre conceitos simples a partir de factos providenciados pela observação de fenómenos naturais ou por uma experimentação “receitada” pelo professor ou manual escolar. Trata-se fundamentalmente de oportunidades para os alunos executarem um protocolo laboratorial detalhado e rotineiro com o objectivo de encontrar as respostas “certas” num determinado tema do programa curricular.
À prática laboratorial demonstrativa é frequentemente apontado o defeito de ser uma mera confirmação das teorias ou conhecimentos vigentes. A respeito desta prática é muitas vezes dito que a passividade intelectual a que os estudantes são remetidos é evidente na ausência de um debate e de uma exploração aberta das ideias científicas em jogo com as experiências efectuadas, reflectindo uma menor valorização da curiosidade, dos interesses e dos conhecimentos prévios dos alunos. Será uma visão redutora, na minha opinião, pois estou convicto que o alcance das actividades demonstrativas é maior. Devido à sua estrutura e implementação relativamente simples, estas actividades devem ser encaradas como o ponto de partida ou base de trabalho para o delineamento e concretização nas aulas de ciências de um ensino laboratorial mais sofisticado, uma vez que a simplicidade da demonstração converte-a no meio mais directo e rápido para o professor dominar as experiências (materiais, procedimentos e técnicas) propostas pelos programas
curriculares e de compreender a natureza, as potencialidades e limitações do ensino laboratorial.
Qualquer que seja a natureza do ensino laboratorial, o trabalho realizado não se limita a uma mera verificação ou repetição de aprendizagens pré-estabelecidas, dado que adiciona sempre alguns conhecimentos que facilitam a compreensão e memorização do tema abordado. Dependendo da contextualização teórica, do tratamento dos dados experimentais, das questões colocadas durante a fase de discussão dos resultados e do fio condutor das experiências realizadas no estudo de um dado tema geral (por exemplo, as Biomoléculas), as actividades demonstrativas podem contribuir para o desenvolvimento nos alunos da análise crítica, da curiosidade e de uma visão da Ciência como empreendimento interdisciplinar, permitindo também que os alunos compreendam melhor a lógica (o
porquê da sequência ou de determinados passos procedimentais) e as “regras” (identificação e controlo de variáveis) dos protocolos laboratoriais. A partir desta base de trabalho simples, segura e de resultados (quase sempre) garantidos, os professores - ponderando os seus valores filosóficos e profissionais, a sua experiência de ensino, as características dos alunos (capacidades cognitivas, conhecimentos prévios, motivação, auto-confiança, responsabilidade, capacidades de gestão e de trabalho em grupo), das turmas (homogéneas/heterogéneas) e do contexto - avançam então para abordagens diferentes e mais elaboradas, desde tarefas “fáceis” como identificar problemas, formular hipóteses ou planificar experiências até estratégias formais de inquérito científico (empirista ou racionalista) e de resolução de problemas. Com estas actividades os professores poderão concretizar as aspirações mais ambiciosas do ensino laboratorial: estimular o cepticismo e a criatividade dos alunos e desenvolver as suas capacidades de investigação, abstracção e de tomada de decisões.
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