Revista Bimensal 
Edição 12 - Dezembro 05
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 O Cantinho das Experiências

Relato de uma experiência com alunos do 3º ano
 

Teresa Silva
Professora do 1º CEB
Escola Básica de São José, Lisboa



Apesar do currículo do 1.º CEB, na área de Estudo do Meio, realçar a importância da realização de actividades experimentais neste nível de ensino, apresentando várias propostas de trabalho para os alunos e existirem materiais e instrumentos laboratoriais em algumas escolas, constata-se que, na maioria dos casos, a vertente experimental continua a ser muito pouco valorizada.

De um forma geral, os professores não prevêem tempo para a realização destas actividades. Muitas vezes, a sua abordagem na sala de aula limita-se à leitura dos enunciados das experiências apresentadas nos manuais escolares (que quase sempre lançam os desafios e fornecem as respostas sem deixarem espaço para a exploração e descoberta). Como essas propostas, em geral, vêm nas últimas páginas dos manuais escolares, quando há tempo, são feitas apenas no final do ano lectivo.

Não obstante as orientações curriculares serem claras e este tipo de actividades ser de fácil execução promovendo o desenvolvimento de capacidades muito importantes (medir, observar, comparar, analisar, colocar hipóteses, etc.), a maioria dos professores continua a optar por um ensino tradicional das ciências com base na transmissão oral dos conhecimentos e na consulta do manual.

Por que será que a maioria dos professores portugueses não investe no ensino experimental das ciências?

• Será que as actividades experimentais são assim tão difíceis de concretizar com os alunos?

• Será que os professores não se sentem preparados para este tipo de trabalho?

• Será que não existem materiais de apoio?

• Será que se trata de um problema relacionado com a formação de professores?

• Será só uma questão de falta de hábito?

• ...

Eu própria faço a minha autocrítica. Posso dizer que durante muitos anos, ao longo da minha carreira profissional, fiz um fraco investimento nesta área e não consigo muito bem explicar porquê. Mais ou menos consciente desta problemática e das minhas próprias limitações, há uns anos atrás, tive a oportunidade de reflectir sobre esta temática com outros professores.

Tudo começou no Centro de Recursos Pedagógicos da Praça da Figueira, um espaço para apoiar as práticas pedagógicas de professores e de educadores da cidade, criado pela Câmara Municipal de Lisboa que funcionou de 1998 a 2002, coordenado pelo Professor do 1.º Ciclo José Júlio Gonçalves.

Inserido nas actividades desse Centro, formou-se um pequeno grupo de trabalho, no qual participei, que decidiu meter mãos à obra e construir materiais de apoio para alunos e professores no âmbito da realização das actividades experimentais.

Tendo como base os conteúdos curriculares do 1.º Ciclo referentes às actividades experimentais para os vários anos de escolaridade e após muitas pesquisas (na Internet, em bibliografia existente no mercado, nos manuais escolares...), decidimos construir o que intitulámos um Ficheiro de Actividades Experimentais. Pretendíamos que cada ficha propusesse a realização de uma experiência de uma forma simples e objectiva, de modo a facilitar a sua compreensão pelos alunos.

O ficheiro começou a engrossar e quando já tínhamos umas vinte e tal fichas, comecei a pensar utilizá-las com os meus alunos.

Para isso, decidi organizar o espaço e os materiais na sala de aula. Fiz uma lista de todos os materiais necessários para a realização das experiências constantes das fichas (frascos, velas, garrafas, fósforos, pratos, sal, açúcar, rolhas, lã, azeite...), arranjei esse material e arrumei-o num armário para que ficasse disponível para quem dele necessitasse. As fichas com as propostas de actividades foram plastificadas e guardadas num caixa nesse armário. Assim, nasceu o “Cantinho das Experiências”.

Nesse ano, eu leccionava uma turma do 3.º ano de escolaridade e uma das rotinas instituídas na sala de aula tinha a ver com a existência, ao longo da semana, de períodos dedicados ao Estudo Autónomo pelos alunos. Durante esse tempo (em geral, uma hora e meia três vezes por semana), cada aluno, tendo por base o seu Plano Individual de Trabalho, podia realizar um conjunto de tarefas previamente combinadas, entre o qual passou a figurar a possibilidade de fazer experiências.

Como forma de organização, e como não podiam fazer experiências todos ao mesmo tempo, combinámos formar grupos de dois ou três elementos. Afixei uma folha para os grupos se inscreverem, estabelecendo assim uma ordem para a realização das experiências.

Aos poucos, foram-se combinando as regras e procedimentos de trabalho que passaram a incluir duas fases distintas:


1.ª fase – Realização da Experiência pelo grupo

• Escolher a ficha da experiência que pretendia realizar;
• Procurar no armário o material necessário para a sua realização;
• Fazer a experiência seguindo as instruções dadas na ficha;
• Observar o que acontecia e tentar explicar as causas dos fenómenos observados;
• Fazer o registo da experiência numa folha de papel (existia uma matriz para o registo) realçando o que tinham observado e por que achavam que aquilo tinha acontecido.

Durante esta primeira fase, eu incentivava a autonomia do grupo pois precisava de gerir, em simultâneo, as restantes actividades em curso na sala e apoiar individualmente alguns alunos com maiores dificuldades. Havia a regra de o grupo que estava a fazer a experiência só solicitar a minha ajuda se fosse mesmo necessário.

2.ª fase – Apresentação da Experiência pelo grupo à turma (em geral, no dia seguinte)

• Referência aos materiais utilizados;
• Realização da experiência à vista de todos os colegas;
• Tentativa de explicação do fenómeno aos colegas;
• Resposta às perguntas dos colegas.

Na maior parte dos casos, seguia-se uma 3.ª fase, orientada por mim, em que eu tentava fazer a sistematização dos principais conteúdos curriculares relacionados com a experiência realizada, fornecer mais informação ou remeter os alunos para outras fontes de pesquisa e de trabalho. O trabalho colectivo era registado por todos no caderno de trabalho.

Entretanto, o Ficheiro de Actividades Experimentais foi sendo aperfeiçoado pelo Professor José Júlio e tem sido divulgado e oferecido a professores que vamos conhecendo (através de fotocópias ou de gravações em CD). O passo seguinte será a sua disponibilização na Web.

Aproveitamos para anunciar que este ficheiro estará brevemente disponível no site do Centro de Competência da FCUL (página que actualmente se encontra em remodelação).

Esperamos que este pequeno contributo posto à disposição de todos os interessados permita dar alguns passos em frente na realização de actividades experimentais na sala de aula.