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Cantinho das Experiências
Relato de uma experiência com alunos do 3º ano
Teresa Silva
Professora do 1º CEB
Escola Básica de São José, Lisboa
Apesar do currículo do 1.º CEB, na área de Estudo do
Meio, realçar a importância da realização de actividades
experimentais neste nível de ensino, apresentando várias
propostas de trabalho para os alunos e existirem materiais e
instrumentos laboratoriais em algumas escolas, constata-se que,
na maioria dos casos, a vertente experimental continua a ser
muito pouco valorizada.
De um forma geral, os professores não prevêem tempo para
a realização destas actividades. Muitas vezes, a sua abordagem
na sala de aula limita-se à leitura dos enunciados das
experiências apresentadas nos manuais escolares (que quase
sempre lançam os desafios e fornecem as respostas sem deixarem
espaço para a exploração e descoberta). Como essas propostas, em
geral, vêm nas últimas páginas dos manuais escolares, quando há
tempo, são feitas apenas no final do ano lectivo.
Não obstante as orientações curriculares serem claras e
este tipo de actividades ser de fácil execução promovendo o
desenvolvimento de capacidades muito importantes (medir,
observar, comparar, analisar, colocar hipóteses, etc.), a
maioria dos professores continua a optar por um ensino
tradicional das ciências com base na transmissão oral dos
conhecimentos e na consulta do manual.
Por que será que a maioria dos professores portugueses não
investe no ensino experimental das ciências?
• Será que as actividades experimentais são assim tão difíceis
de concretizar com os alunos?
• Será que os professores não se sentem preparados para este
tipo de trabalho?
• Será que não existem materiais de apoio?
• Será que se trata de um problema relacionado com a formação de
professores?
• Será só uma questão de falta de hábito?
• ...
Eu própria faço a minha autocrítica. Posso dizer que
durante muitos anos, ao longo da minha carreira profissional,
fiz um fraco investimento nesta área e não consigo muito bem
explicar porquê. Mais ou menos consciente desta problemática e
das minhas próprias limitações, há uns anos atrás, tive a
oportunidade de reflectir sobre esta temática com outros
professores.
Tudo começou no Centro de Recursos Pedagógicos da Praça
da Figueira, um espaço para apoiar as práticas pedagógicas de
professores e de educadores da cidade, criado pela Câmara
Municipal de Lisboa que funcionou de 1998 a 2002, coordenado
pelo Professor do 1.º Ciclo José Júlio Gonçalves.
Inserido nas actividades desse Centro, formou-se um
pequeno grupo de trabalho, no qual participei, que decidiu meter
mãos à obra e construir materiais de apoio para alunos e
professores no âmbito da realização das actividades
experimentais.
Tendo como base os
conteúdos
curriculares do 1.º Ciclo referentes às actividades
experimentais para os vários anos de escolaridade e após muitas
pesquisas (na Internet, em bibliografia existente no mercado,
nos manuais escolares...), decidimos construir o que intitulámos
um Ficheiro de Actividades Experimentais. Pretendíamos
que cada ficha propusesse a realização de uma experiência de uma
forma simples e objectiva, de modo a facilitar a sua compreensão
pelos alunos.
O ficheiro começou a engrossar e quando já tínhamos umas
vinte e tal fichas, comecei a pensar utilizá-las com os meus
alunos.
Para isso, decidi organizar o espaço e os materiais na
sala de aula. Fiz uma lista de todos os materiais necessários
para a realização das experiências constantes das fichas
(frascos, velas, garrafas, fósforos, pratos, sal, açúcar,
rolhas, lã, azeite...), arranjei esse material e arrumei-o num
armário para que ficasse disponível para quem dele necessitasse.
As fichas com as propostas de actividades foram plastificadas e
guardadas num caixa nesse armário. Assim, nasceu o “Cantinho das
Experiências”.
Nesse ano, eu leccionava uma turma do 3.º ano de
escolaridade e uma das rotinas instituídas na sala de aula tinha
a ver com a existência, ao longo da semana, de períodos
dedicados ao Estudo Autónomo pelos alunos. Durante esse tempo
(em geral, uma hora e meia três vezes por semana), cada aluno,
tendo por base o seu
Plano Individual de Trabalho, podia realizar um conjunto de
tarefas previamente combinadas, entre o qual passou a figurar a
possibilidade de fazer experiências.
Como forma de organização, e como não podiam fazer
experiências todos ao mesmo tempo, combinámos formar grupos de
dois ou três elementos. Afixei uma folha para os grupos se
inscreverem, estabelecendo assim uma ordem para a realização das
experiências.
Aos poucos, foram-se combinando as regras e procedimentos
de trabalho que passaram a incluir duas fases distintas:
1.ª fase –
Realização da Experiência pelo grupo
• Escolher a ficha da experiência que pretendia realizar;
• Procurar no armário o material necessário para a sua
realização;
• Fazer a experiência seguindo as instruções dadas na ficha;
• Observar o que acontecia e tentar explicar as causas dos
fenómenos observados;
• Fazer o registo da experiência numa folha de papel (existia
uma matriz para o registo) realçando o que tinham observado e
por que achavam que aquilo tinha acontecido.
Durante esta primeira fase, eu incentivava a autonomia do
grupo pois precisava de gerir, em simultâneo, as restantes
actividades em curso na sala e apoiar individualmente alguns
alunos com maiores dificuldades. Havia a regra de o grupo que
estava a fazer a experiência só solicitar a minha ajuda se fosse
mesmo necessário.
2.ª fase –
Apresentação da Experiência pelo grupo à turma (em geral, no
dia seguinte)
• Referência aos materiais utilizados;
• Realização da experiência à vista de todos os colegas;
• Tentativa de explicação do fenómeno aos colegas;
• Resposta às perguntas dos colegas.
Na maior parte dos casos, seguia-se uma 3.ª fase,
orientada por mim, em que eu tentava fazer a sistematização dos
principais conteúdos curriculares relacionados com a experiência
realizada, fornecer mais informação ou remeter os alunos para
outras fontes de pesquisa e de trabalho. O trabalho colectivo
era registado por todos no caderno de trabalho.
Entretanto, o Ficheiro de Actividades Experimentais
foi sendo aperfeiçoado pelo Professor José Júlio e tem sido
divulgado e oferecido a professores que vamos conhecendo
(através de fotocópias ou de gravações em CD). O passo seguinte
será a sua disponibilização na Web.
Aproveitamos para anunciar que este ficheiro estará
brevemente disponível no site do
Centro de
Competência da FCUL (página que actualmente se encontra em
remodelação).
Esperamos que este pequeno contributo posto à disposição
de todos os interessados permita dar alguns passos em frente na
realização de actividades experimentais na sala de aula.
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