Revista Bimensal 
Edição 18 - Fevereiro 07
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O novo jornalismo no ensino secundário

 

Ruth Navas
Esc. Sec. Emídio Navarro,
 Almada


Cada vez mais as diferentes disciplinas do ensino secundário recorrem aos textos dos media para exemplificar, interpretar ou comentar assuntos que dizem respeito aos conteúdos programáticos. A leitura do artigo de jornal e a pesquisa na Internet referente aos acontecimentos tecnológicos/científicos ou aos desastres ecológicos, permitem criar aulas mais dinâmicas para os professores de Biologia e de Físico-Química. Os próprios exames nacionais das disciplinas científicas apresentam enunciados da comunicação social, obrigando o aluno a saber comparar os dados estatísticos e a explorar a objectividade dos artigos.

Também os DVD's dos filmes comerciais mais recentes, marcados pelo novo “novo jornalismo”, abrem um mundo de possibilidades para as disciplinas da formação geral, como é o caso da Filosofia, do Português e do Inglês. Hoje, qualquer uma destas disciplinas recorre às diversas fontes para aprofundar os valores culturais, políticos e éticos associados à formação do indivíduo e do cidadão.

Pelas razões mais diversas, assistimos a uma clara preocupação educativa em promover actividades próximas da realidade transmitida pelos meios da comunicação social. Por isso é possível dizer que o recurso aos textos dos media exige uma selecção criteriosa de textos com vista ao desenvolvimento da competência argumentativa do aluno face à actualidade. E, por isso há que ter a consciência das tarefas didácticas e pedagógicas que podem facilitar e ajudar, em muito, a nossa prática lectiva. Destaco duas das mais interessantes e porventura determinantes para o sucesso educativo. A primeira diz respeito à catalogação de temas jornalísticos (on-line) em conformidade com as áreas de interesse disciplinar. A partir desta catalogação será possível, a todo o momento, prever estratégias de leitura comparativas entre datas de publicação, artigos do mesmo tema e pontos de vista. A segunda medida exige uma selecção constante de textos críticos e opinativos, compilados em volume e publicados por autores e jornalistas que persistentemente abordam as temáticas da actualidade, quer numa perspectiva mais argumentativa, quer numa perspectiva mais ficcional.

Entre as obras recentes podemos evidenciar: (2003) Diário do Iraque (texto acompanhado de fotografias publicadas no diário El País - de Mário Vargas Llosa); (2004) Hotel Babilónia, (crónicas jornalísticas de Cáceres Monteiro); (2004) Crónicas no Fio do Horizonte (de Eduardo do Prado Coelho); (2006) Grande Reportagem (textos de diferentes jornalistas -coordenação de José Manuel Barata-Feyo); (2005) A Tragédia Televisiva (ensaio crítico de Eduardo Cintra Torres). Também importa realçar as compilações de crónicas literárias, centradas na vida quotidiana, como por exemplo: (1995) Um Momento de Ternura e Nada Mais de Afonso Praça, (1998) Fronteiras Perdidas de José Agualusa (2001) Lisboa Contada pelos Dedos de Baptista Bastos; (2003) Fora de Mão – prosas revisitadas e inéditas – de Mário Zambujal. A este nível, podemos dizer que despontam na literatura portuguesa um número considerável de compilações e que estão à espera de reedição e de uma catalogação pedagógica.

É certo que os manuais escolares apresentam textos. Contudo, rapidamente verificamos que a intenção de desenvolver a competência argumentativa exige uma estratégia centrada na relação do leitor com textos bem articulados. Quem folhear, por exemplo, um manual de Português de 10ºAno publicado em 2003, verificará que os “textos dos media” mais interessantes e próximos dos leitores de 2007, são aqueles que resistem ao efeito do tempo, ou porque abordam criticamente temas recorrentes (ambiente, novas tecnologias, saúde, experiências científicas) ou porque apresentam as crónicas de um autor. Em contrapartida se lermos, no mesmo manual, uma cópia de uma notícia, esta reduz-se a um faits divers sem interesse para o leitor. Por outras palavras, não é possível desenvolver competências de leitura crítica dos textos dos media, sem estimular a crítica, e para isso há que prever uma selecção de conteúdos específicos. Na realidade a concepção dos manuais escolares não permite propor um trabalho continuado, pois o que prevalece são textos a exemplificar tipologias diferentes, dispersos e sem articulação temática ou argumentativa. Assim, há que insistir nas metodologias de leitura dinâmica, com recurso à catalogação jornalística activada pela Internet e às obras do novo jornalismo, pois sem eles dificilmente se desenvolvem as novas competências tão necessárias à formação dos alunos, cidadãos críticos e responsáveis.