Revista Bimensal 
Edição 9 - Maio 05
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proFORM R
online

 

 

 

As Bibliotecas Escolares e os Centros de Recursos:
uma discussão mais urgente do que actual

 

Ana Maria Pessoa
ESE Setúbal


No número de Março da Revista Proformar online encontramos um (excelente e actual) conjunto de reflexões sobre as bibliotecas escolares e os centros de recursos. Elas passam, entre muitas e muitas outras, pelos apoios institucionais públicos e privados, pela (in)definição dos ditos conceitos, objectivos, recursos materiais e humanos, escolas e formação de professores, actividades lectivas e produções de alunas(os) e professoras(es) envolvidas(os)...

Porque o tema parece inesgotável, seria impossível colocar, num texto que se quer breve, todos os ‘links’ que gostaríamos de estabelecer com os referidos artigos; por isso, vamos focar a nossa atenção apenas num tópico: a importância de uma biblioteca escolar ou centro de recursos numa escola e relações que ela pode/deve criar com a chamada “comunidade”.

O discurso sobre “auto-aprendizagem”, “produção de conhecimentos”, “trabalho autónomo” e muitos outros termos ou (conceitos?), porque já integrados em muitos e desvairados discursos, deixou de ter qualquer significado quando se trata do tema que aqui nos prende. Todas(os) sabemos que as(os) alunas(os) devem pesquisar, informar-se, enfim, produzir conhecimento. Também todas(os) sabemos que, salvo poucas excepções (que se contam já por muitos milhares e nos quais incluímos todas as experiências referidas no número da supracitada revista), a maior parte das nossas escolas tem ainda um quotidiano de sala de aula muito centrado nas actividades dos docentes. Bem gostaríamos de dizer que isto é mentira mas...a realidade desmente a nossa vontade de a ver com outros olhos. Talvez devêssemos dizer de outro modo: as(os) alunas(os) realizam em sala de aula actividades muito diferentes mas... a sua avaliação...

Qualquer escola que se preze tem hoje uma biblioteca escolar ou um centro de recursos que se pretende bem apetrechado para apoiar o desenvolvimento do ‘gosto pela leitura’, o currículo oficial, a ‘articulação com a comunidade’ e o ‘meio’ envolvente... Sinceramente, parece-nos que estas e outras expressões foram já tão usadas, gastas e desvirtuadas que não sabemos bem o que cada um de nós entende ser o seu significado. Por tal motivo não podemos deixar de estar de acordo com aquele professor (Rebelo, 2005) que sonha com o dia em que, em todas as bibliotecas escolares, a organização técnica da documentação seja posta em segundo plano em relação às possibilidades da sua utilização pedagógica. Como se vê, só aqui teríamos já uma discussão bem interessante para professoras(es) mas talvez muito árida para todas(os) aquelas(es) alunas(os) para quem o que interessa é que o que lá podem ir buscar ou deixar e não a forma como lá foi colocado...

Também temos sempre defendido, como é feito em vários dos artigos publicados naquela revista online, que as bibliotecas escolares e os centros de recursos devem servir a escola onde vivem: estando apetrechadas(os) com o que é necessário para a ‘boa’ consecução dos currículos e de todas as actividades não-curriculares, dando-se a conhecer a todas(os) professoras(es) que nela trabalham, captando os apoios de todas(os) as(os) Encarregados de Educação e estabelecendo as melhores ligações com o ‘meio’ envolvente. Este inclui o quê?

O Ministério da Educação que decide, para todas as escolas? por igual? da maior parte das questões educativas? Que quer as escolas em rede, mas qual? A rede da comunicação virtual ou a rede de comunicação real que ‘encrava’ a toda a hora por falta de meios informáticos? O Gabinete da Rede de Bibliotecas Escolares que apoia todas as escolas? ou só algumas que têm a “(...) felicidade (...)” de serem seleccionadas (Miranda, 2005)? Estamos a falar de um ensino público ou vários? A Rede das Bibliotecas Escolares – www.dapp.min_edu.pt/rbe/ que promove concursos entre escolas para terem aquilo que deve existir em todas ou introduzimos nelas o princípio dos ‘rankings’? ou o da meritocracia? As autarquias locais que, desde 1987, têm a responsabilidade pela leitura pública? Mas o que quer isto dizer? Como fazem esse trabalho: virando-se para toda a população que é suposto servirem ou escolhendo, dentro dela, um grupo específico - a população escolar activa? E que fazem com a outra, por exemplo, com os quase 50% de estudantes que abandonam o secundário? Quando criam, nesta área, os “SABE”- Serviços de Apoio a Bibliotecas Escolares - fazem-no porque a esses serviços cabe a parceria na definição de políticas locais de leitura ou para “(...) promover a articulação e ajudar as bibliotecas escolares a tirar o melhor proveito possível dessa mais valia(...)”(Nunes, 2005)? ‘Ajudar’ significa igualdade entre intervenientes, supremacia da organização documental sobre a utilização pedagógica ou o quê ainda?

Falta referir também a comunidade das(os) professoras(es) que, por esse país, dão “(...) fora do horário lectivo directo(...)”(Miranda, 2005) muitas e muitas horas para projectos tipo “Xeque-mate”. Elas(es) fazem ainda formação, formação, formação, sobretudo ‘contínua’, nestas áreas: nas escolas, nos Agrupamentos, através da Rede de Bibliotecas Escolares, em instituições de Ensino Superior Público e Privado – tipo ESE de Setúbal, de Viseu, de Lisboa ou João de Deus - ou também, numa recente iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian – veja-se www.gulbenkian.pt/projectos_especiais/ ou www.theka.org. que já apoia quase uma centena de escolas ou ainda em Projectos como Nónio e muitos outros relacionados com as TIC. Muita dessa formação não ‘dá’ diploma académico, outra ‘dá’, outra é gratuita como a da Fundação Gulkbenkian, outra é reconhecida pelas escolas e entrega-se a essas(es) professoras(es) a coordenação desses sectores da Escola outra não o é, isto para não referir, de momento, a formação e a prática das(os) formadoras(es) de todas essas ‘formações’.

Não nos alongaremos mais. Começámos a enumeração, propositadamente confusa, ou o ‘brain storming’ atabalhoado desta meia dúzia de problemas entre as centenas de que hoje se reveste a discussão sobre bibliotecas escolares e centros de recursos. Esta listagem, demasiado incompleta, servirá apenas como um pequeno contributo para que se inicie, num país que se diz pobre mas que vive melhor do que os mais ricos nesta área, um debate mais urgente do que actual. Todas(os) as(os) que estão fora dele exigem isso a todas(os) nós. Uma última sugestão: deitemos mais dados para este saco, sacudamo-los e, depois peguemos numa ponta e iniciemos uma discussão coerente, objectiva, séria, fundamentada. O desnorte sempre se pagou muito caro e, em educação, tem sido mesmo fatal. A “saturação da informação” também!