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Diálogos
Interculturais
ou
as aulas de NPL*
Filomena Flora
Esc. Sec. Alfredo dos Reis Silveira
Seixal
Que a sociedade moderna é
multicultural, é já um facto inegável. A globalização, as
migrações dos povos, a diáspora do homem em busca de uma vida
melhor geraram sociedades multiraciais e multilinguísticas. E
mesmo apesar da comum crença de que o Inglês é a língua de
comunicação universal entre nações, a verdade é que o
Português continua a ser a língua do diálogo e aproximação dos
povos.
Nos últimos trinta anos, Portugal tem assistido ao
fenómeno da imigração, recebendo, primeiro, os africanos
provindos dos PALOP, depois, os imigrantes dos países de
Leste, e, ultimamente, os chineses, que vêm procurar, no
Ocidente, a melhoria de condições de vida que não conseguiram
alcançar nas suas terras de origem.
Neste contexto, a Escola Portuguesa teve de dar
resposta a necessidades pedagógicas e didácticas que nos eram
desconhecidas, habituados que estávamos ao fenómeno da
emigração do cidadão português para outros países.
O carácter enriquecedor de que se reveste a diversidade
linguística da nossa Escola actual deveria obviar, só por si,
a uma reflexão aturada sobre as estratégias a adoptar, para
que dela possamos todos retirar ensinamento e crescermos
enquanto seres sociais e tão diversos. Todavia, seria cínico
afirmar-se que essa reflexão tem sido feita. A prática
mostra-nos que, na maior parte das situações, nos tem sido
mais fácil aceitar o insucesso escolar destes alunos como um
dado adquirido e muito menos como o nosso próprio insucesso,
simplesmente porque nos é menos trabalhoso…
Parece-me, contudo, que a situação está a mudar. Muito
por força da legislação entretanto publicada e da
obrigatoriedade da sua implementação nas escolas, estamos,
finalmente, a repensar o ensino da Língua Portuguesa, não
apenas como língua de escolarização e formação do indivíduo
português, mas também como língua de integração/escolarização
dos filhos dos ex-colonos portugueses, já nascidos em
Portugal, dos filhos dos ex-emigrantes portugueses, entretanto
regressados ao seu país de origem, e dos estrangeiros a
viverem no nosso país.
À semelhança do que o resto da Europa tem feito,
sobretudo desde finais dos anos noventa, começámos agora a
organizarmo-nos em função da integração linguística e cultural
dos cidadãos falantes de outras línguas, na sociedade
portuguesa.
As alterações que as escolas têm de fazer, para terem
capacidade de resposta às solicitações desta nova vertente do
ensino do Português, são de vária ordem: desde a concepção de
horários que permitam a concentração de alunos de diferentes
anos e turmas em grupos de nível de proficiência linguística,
à elaboração de testes diagnósticos, à distribuição de alunos
por nível, à criação de planos de trabalho, ao uso do
Portefólio Europeu de Línguas como instrumento de avaliação,
ao recrutamento de pessoal docente para assegurar a prática
lectiva, muito tem de ser mudado nas escolas e, sobretudo, com
a devida antecedência, ou comprometer-se-á o projecto ainda
antes de ele nascer.
Sendo verdade que é discutível o processo de
implementação, em tempo útil, das aulas de Português Língua
Não Materna (não foi dada formação atempada, nem aos docentes
nem aos órgãos dirigentes das escolas), não é menos verdade
que há estabelecimentos de ensino em que tal tarefa tem estado
a ser levada a cabo com sucesso.
É o caso da Escola Secundária Alfredo dos Reis
Silveira.
Ali, três docentes asseguraram estas aulas a cerca de
quarenta alunos do ensino básico, no ano passado. O mesmo
grupo de trabalho também convidou o ILTEC, nas pessoas da
Professora Doutora Maria Helena Mira Mateus, Dr. Nuno Carvalho
e Dr. Fausto Caels a divulgar o seu projecto Diversidade
Linguística, estando presentes, nesse encontro, professores
dos concelhos de Almada e Seixal. Este ano lectivo, as aulas
de PLNM alargaram-se ao ensino secundário. Cerca de cem alunos
estão a frequentá-las e o grupo docente é composto por sete
elementos.
Ao mesmo tempo, o Centro de Formação Proformar, que
soube do trabalho realizado na ESARS, dinamizou outro encontro
entre professores da margem Sul e o ILTEC, em Maio deste ano,
estando em estudo a possibilidade de o mesmo organismo dar,
brevemente, formação prática em ensino do Português como
Língua Não Materna aos professores interessados.
Estou certa de que a reflexão e a partilha de
experiências em ensino de PLNM é um excelente pretexto para
gerar um diálogo construtivo entre docentes e escolas, já que
o intercâmbio de experiências nos enriquece a todos –
professores e alunos.
*NPL- Níveis de Proficiência Linguística.
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