Revista Bimensal 
Edição 21 - Novembro 07
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online

 



Diálogos Interculturais
ou
as aulas de NPL
*
 

Filomena Flora
Esc. Sec. Alfredo dos Reis Silveira
Seixal


Que a sociedade moderna é multicultural, é já um facto inegável. A globalização, as migrações dos povos, a diáspora do homem em busca de uma vida melhor geraram sociedades multiraciais e multilinguísticas. E mesmo apesar da comum crença de que o Inglês é a língua de comunicação universal entre nações, a verdade é que o Português continua a ser a língua do diálogo e aproximação dos povos.

Nos últimos trinta anos, Portugal tem assistido ao fenómeno da imigração, recebendo, primeiro, os africanos provindos dos PALOP, depois, os imigrantes dos países de Leste, e, ultimamente, os chineses, que vêm procurar, no Ocidente, a melhoria de condições de vida que não conseguiram alcançar nas suas terras de origem.

Neste contexto, a Escola Portuguesa teve de dar resposta a necessidades pedagógicas e didácticas que nos eram desconhecidas, habituados que estávamos ao fenómeno da emigração do cidadão português para outros países.

O carácter enriquecedor de que se reveste a diversidade linguística da nossa Escola actual deveria obviar, só por si, a uma reflexão aturada sobre as estratégias a adoptar, para que dela possamos todos retirar ensinamento e crescermos enquanto seres sociais e tão diversos. Todavia, seria cínico afirmar-se que essa reflexão tem sido feita. A prática mostra-nos que, na maior parte das situações, nos tem sido mais fácil aceitar o insucesso escolar destes alunos como um dado adquirido e muito menos como o nosso próprio insucesso, simplesmente porque nos é menos trabalhoso…

Parece-me, contudo, que a situação está a mudar. Muito por força da legislação entretanto publicada e da obrigatoriedade da sua implementação nas escolas, estamos, finalmente, a repensar o ensino da Língua Portuguesa, não apenas como língua de escolarização e formação do indivíduo português, mas também como língua de integração/escolarização dos filhos dos ex-colonos portugueses, já nascidos em Portugal, dos filhos dos ex-emigrantes portugueses, entretanto regressados ao seu país de origem, e dos estrangeiros a viverem no nosso país.

À semelhança do que o resto da Europa tem feito, sobretudo desde finais dos anos noventa, começámos agora a organizarmo-nos em função da integração linguística e cultural dos cidadãos falantes de outras línguas, na sociedade portuguesa.

As alterações que as escolas têm de fazer, para terem capacidade de resposta às solicitações desta nova vertente do ensino do Português, são de vária ordem: desde a concepção de horários que permitam a concentração de alunos de diferentes anos e turmas em grupos de nível de proficiência linguística, à elaboração de testes diagnósticos, à distribuição de alunos por nível, à criação de planos de trabalho, ao uso do Portefólio Europeu de Línguas como instrumento de avaliação, ao recrutamento de pessoal docente para assegurar a prática lectiva, muito tem de ser mudado nas escolas e, sobretudo, com a devida antecedência, ou comprometer-se-á o projecto ainda antes de ele nascer.

Sendo verdade que é discutível o processo de implementação, em tempo útil, das aulas de Português Língua Não Materna (não foi dada formação atempada, nem aos docentes nem aos órgãos dirigentes das escolas), não é menos verdade que há estabelecimentos de ensino em que tal tarefa tem estado a ser levada a cabo com sucesso.

É o caso da Escola Secundária Alfredo dos Reis Silveira.

Ali, três docentes asseguraram estas aulas a cerca de quarenta alunos do ensino básico, no ano passado. O mesmo grupo de trabalho também convidou o ILTEC, nas pessoas da Professora Doutora Maria Helena Mira Mateus, Dr. Nuno Carvalho e Dr. Fausto Caels a divulgar o seu projecto Diversidade Linguística, estando presentes, nesse encontro, professores dos concelhos de Almada e Seixal. Este ano lectivo, as aulas de PLNM alargaram-se ao ensino secundário. Cerca de cem alunos estão a frequentá-las e o grupo docente é composto por sete elementos.

Ao mesmo tempo, o Centro de Formação Proformar, que soube do trabalho realizado na ESARS, dinamizou outro encontro entre professores da margem Sul e o ILTEC, em Maio deste ano, estando em estudo a possibilidade de o mesmo organismo dar, brevemente, formação prática em ensino do Português como Língua Não Materna aos professores interessados.

Estou certa de que a reflexão e a partilha de experiências em ensino de PLNM é um excelente pretexto para gerar um diálogo construtivo entre docentes e escolas, já que o intercâmbio de experiências nos enriquece a todos – professores e alunos.



*NPL- Níveis de Proficiência Linguística.