Revista Bimensal 
Edição 7 - Janeiro 05
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STRESS ESCOLAR PERCEBIDO PELOS ALUNOS

 

Ana Isabel Pereira
Bolseira da Fundação para a Ciência e Tecnologia
Docente da Escola Superior de Educação João de Deus

Isabel Narciso Davide
Professora Auxiliar da FPCE da Universidade de Lisboa


Stress, adaptação e recuperação

A compreensão de uma situação de stress implica que se considere não apenas o(s) factor(es) de stress e o estado de stress, mas também o processo de adaptação, a possibilidade de crise e o estado de recuperação.

De um modo geral, numa situação de stress, não intervém apenas um único factor mas sim uma pilha de factores dado que ao factor central se acrescentam outros adicionais, uns decorrentes daquele e alguns que lhe são independentes mas concomitantes.

Os factores de stress constituem uma pressão que perturba o indivíduo ou sistema, desencadeando um estado de tensão e desequilíbrio e exigindo mudanças as quais são essenciais para que novos estados de equilíbrio sejam alcançados (Boss, 2002).

No processo de adaptação à situação de stress intervêm três componentes centrais:

  • os recursos – características ou condições individuais e contextuais que favorecem a recuperação (Burr & Klein, 1994);

  • a percepção da situação que pode variar desde uma maior negatividade (situação experienciada como dramática, trágica) até uma maior positividade (situação experienciada como um desafio, uma oportunidade de crescimento);

  • as estratégias de coping, as quais implicam uma pró-actividade do indivíduo no sentido de gerir e ultrapassar a situação adversa (Burr & Klein, 1994). Tais estratégias incluem comportamentos e cognições em resposta aos factores de stress e têm subjacentes diferentes estilos de coping: focado no problema (acções que visam alterar a situação tornando-a menos stressante) vs focado na emoção (o qual envolve a utilização de estratégias cognitivas ou comportamentais que ajudam o indivíduo a lidar com o estado de stress decorrente da situação problemática) (Lazarus & Folkman, 1984); coping por aproximação (cognições e comportamentos que mantêm o foco na situação stressante) vs coping por evitamento (cognições e comportamentos que minimizam o foco na situação) (Ebata e Moos, 1991 in Bridges, 2003).

Os principais componentes deste processo de adaptação – recursos, percepção e estratégias de coping – operam num circuito interactivo, influenciando e sendo influenciado pelos factores de stress – central e adicionais -, e condicionando o movimento para a crise ou para a recuperação.

A crise, decorrente de um processo de adaptação ineficaz, corresponde a uma situação de tensão e desequilíbrio tão grave que o indivíduo ou sistema fica bloqueado, imobilizado e incapacitado para responder adequadamente às mudanças que são exigidas pela situação de stress, o que, por sua vez, influencia negativamente o processo de adaptação e condiciona a trajectória para a recuperação.

A recuperação traduz-se por uma adaptação eficaz do indivíduo ou sistema que resulta num novo estado de equilíbrio.


Stress em contexto escolar

Tal como acontece na fase adulta, o stress faz parte da vida de crianças e adolescentes e pode ter consequências negativas para o seu bem estar físico, socio-afectivo e cognitivo.
É impossível eliminar completamente o stress da vida das crianças, mas é desejável conhecer como é que elas podem lidar eficazmente com o stress, de forma a que não se produzam consequências negativas a nível da saúde e do bem estar. Para que pais, professores e as próprias crianças/adolescentes aprendam a gerir o stress é preciso conhecer os contornos específicos que este assume na infância e adolescência.
Um acontecimento gerador de stress para a criança é um acontecimento relevante, percebido como uma ameaça e acompanhado por um sentimento de incapacidade de responder com eficácia a essa ameaça.

Alguns dos stressores específicos a estas etapas desenvolvimentais estão associados à escola. O stress escolar, e mais concretamente o stress associado à transição entre escolas, tem sido alvo de múltiplos estudos desde o final da década de 80. Três domínios da vida escolar foram identificados como possíveis focos de preocupação para crianças e adolescentes: académico, relação com o professor/regras da escola e relação entre pares.
A nível académico, a pressão para o sucesso e para a obtenção de bons resultados (mais do que a valorização do esforço) é uma realidade, principalmente a partir do 1º ciclo. A fragmentação do currículo num grande número de disciplinas requer elevadas competências de organização e gestão do estudo (organizar diferentes materiais; realizar os trabalhos das diferentes disciplinas, cumprindo diferentes calendários; organizar o estudo para as diferentes avaliações, etc.), que os alunos frequentemente não têm. Uma outra preocupação relacionada é o excesso de carga de trabalho (os trabalhos de casa, os trabalhos de grupo, as avaliações, que se multiplicam pelo elevado número de disciplinas das crianças). Segundo um relatório da O.C.D.E, os alunos portugueses passam em média 5 horas por semana a fazer os trabalhos de casa., o que está acima da média europeia.
No que diz respeito ao segundo domínio, a adaptação ao funcionamento e regras da escola e a relação com os professores são também áreas que suscitam preocupações nos alunos. A partir do 2º ciclo a criança é confrontada com horários mais irregulares e com a necessidade de se adaptar a diferentes professores que os conhecem menos bem. É neste período que começam a emergir relações professor-aluno potencialmente mais conflituosas, uma vez que numa altura em que as crianças começam progressivamente a procurar maior autonomia, os professores colocam um maior ênfase no controlo e disciplina.

Um terceiro domínio do stress escolar diz respeito à relação entre pares. O receio de não ser aceite pelos colegas, o medo de causar desagrado por causa da aparência física e de ser rejeitado pelos pares é motivo de preocupação para os alunos, principalmente a partir da adolescência. No mesmo sentido, os episódios de violência e de agressão entre pares (bullying) nas escolas são um foco de preocupação para muitos alunos. Os alunos mais jovens e os alunos com necessidades educativas especiais são especialmente vulneráveis a este tipo de episódios.

Um estudo português recente (Pereira, 2003) analisou o stress nestes três domínios numa amostra de 300 alunos que na mudança do 1º para o 2º ciclo do ensino básico, transitaram também de escola. Estes alunos pertenciam a 59 escolas da rede ensino público e da rede de ensino particular e cooperativo.


Quadro 1: Acontecimentos mais frequentes (%) e acontecimentos associados a níveis mais elevados de stress (Média) em alunos do 5º ano de escolaridade

Acontecimentos mais frequentes

%

Acontecimentos indutores de níveis mais elevados de stress
(escala de 1 a 4)

M

Fazerem-me perguntas na aula, quando não sei a resposta.

89

Ser pressionado para fumar, beber álcool, ou utilizar drogas

3,7

Ter saudades dos meus amigos da escola do 1º ciclo.

85

Ter notas baixas na minha ficha de avaliação do fim do trimestre

3,4

Ter dificuldades com os trabalhos de casa

81

Roubarem-me alguma coisa

3,4

Fazer um trabalho que é demasiado difícil

80

Ter medo de armas ou violência na escola

3,3

Chamarem-me nomes

79

Não conseguir fazer bem um teste

3,1

Esquecer-me de trazer os materiais para a aula

75

Perder o meu trabalho da escola

3,1

Ter dificuldade em dizer o que está certo na aula

70

Entregar um trabalho fora do prazo

2,7

Ter de fazer demasiados trabalhos ao mesmo tempo

70

Ser castigado por um professor

2,7

Ter dificuldade em trabalhar sozinho

68

Ter saudades dos meus amigos da escola do 1º ciclo

2,7

Ser incomodado por rapazes/raparigas mais velhos

60

Ser tratado injustamente por um professor

2,6

Ser pressionado pelos pais para ser bom aluno

59

Mandarem-me falar com alguém da direcção da escola

2,6

Envolver-me em discussões com os meus amigos

58

Estar com rapazes/raparigas que causam problemas

2,6

Ter notas baixas na minha ficha de avaliação do fim do trimestre

58

Ter dificuldade em prestar atenção nas aulas

2,6

Ter dificuldade em prestar atenção nas aulas

54

Esquecer-me de trazer os materiais para a aula

2,6

Ter dificuldade em seguir as orientações do professor

54

Ter de fazer demasiados trabalhos ao mesmo tempo

2,5


Os resultados deste estudo sugerem que os acontecimentos indutores de stress relacionados com o domínio académico são os que ocorrem com maior frequência. Uma elevada percentagem das crianças relatou dificuldades em lidar com os trabalhos e actividades escolares, quer no que se refere a dificuldades de concretização, quer pelo facto de ter de lidar com várias solicitações em simultâneo.

Por outro lado, os acontecimentos que estão associados a um maior nível de perturbação pertencem ao domínio relação com o professor e regras da escola. Assim, as crianças apresentam um elevado grau de preocupação quando ocorrem incidentes relacionados com a pressão para o desvio e violência na escola, e em situações de incumprimento de regras na sala de aula e de problemas na relação com o professor.

Reacções aos Stress Escolar

A resposta ao stress é diferente de aluno para aluno dependendo de um conjunto de factores: idade, sexo, temperamento, competências cognitivas e de resolução de problemas, apoio social, entre outros factores.

De uma forma geral, a resposta ao stress envolve uma componente cognitivo-emocional e uma componente fisiológica e de sintomatologia psicossomática. Relativamente à dimensão cognitivo-emocional, podemos observar, frequentemente, nas crianças: agressividade, preocupação, tristeza, nervosismo, confusão e medo. No que diz respeito à sintomatologia psicossomática, as crianças podem-se queixar de dores de cabeça, dores de barriga, mas também sudação, taquicárdia, náuseas, tremores e tensão muscular. Estas respostas são reacções normais ao stress e não devem ser motivo de preocupação. É a intensidade e a duração deste tipo de respostas que nos deve tornar mais atentos dado que são indicadores de um nível bastante deficitário de bem estar. Nesses casos, podem surgir perturbações de ansiedade e de natureza depressiva ou perturbações do comportamento. Uma significativa diminuição do rendimento ou mudança a nível do interesse e motivação pela escola também são outros sinais de alerta.

O stress escolar não atinge da mesma forma todas as crianças. Por um lado, há escolas que se organizam de forma a proporcionarem condições promotoras de bem estar nos alunos (por exemplo, através da promoção de iniciativas que apoiem a integração dos novos alunos). Por outro lado, existem alunos sujeitos a condições ambientais mais adversas, mas que devido às suas características e recursos pessoais (por exemplo, uma boa rede de suporte social), conseguem lidar com sucesso com essas adversidades.


Redução do Stress Escolar: Diminuição das fontes de stress e promoção de competências para que o aluno lide eficazmente com o stress escolar

A
s intervenções que têm por objectivo a redução do stress escolar podem ser dirigidas ao ambiente, procurando criar condições nas escolas de forma a diminuir o stress percebido pelas crianças (nível organizacional), ou podem ser dirigidas a capacitar a criança para lidar adequadamente com os factores de stress (nível individual).

As intervenções dirigidas ao nível organizacional devem contemplar as diferentes dimensões de stress a que o aluno está sujeito: académico, regras da escola e relação com os pares.
A diminuição do stress no domínio académico pode ser promovida procurando, por exemplo, uma maior articulação entre os diferentes docentes do conselho de turma de forma a dosear de forma mais racional o trabalho que as crianças levam para casa. A aprendizagem de competências de estudo e de gestão de tempo é um outro aspecto importante e pode ser abordada na área de Estudo Acompanhado. A criação de sistemas eficazes de comunicação bilateral entre escola e família - informações acerca do projecto educativo, do projecto curricular de turma, informações e orientações para as famílias de forma a poderem ajudar os alunos em casa no que diz respeito à aprendizagem escolar é outro aspecto importante na redução do stress escolar e especificamente do stress académico.
A diminuição do stress relativo à adaptação às regras da escola pode ser conseguido de forma relativamente simples com actividades que exigem poucos recursos: visitas à escola para o aluno e para as famílias, apresentação e discussão do regulamento interno e de aspectos relativos à organização da escola e elaboração participada das regras de funcionamento na sala de aula.

A intervenção dirigida à área da relação entre pares, pode envolver desde actividades mais simples a estratégias mais elaboradas: actividades de início do ano, onde os alunos mais jovens são apresentados aos mais velhos, organização de sistemas de tutoria de forma a promover a integração social dos alunos, e maior ênfase por parte dos professores na aprendizagem cooperativa e no trabalho de equipa. É de referir que alguns estudos salientam a importância da continuidade das relações entre colegas como importante factor de protecção das consequências negativas do stress escolar. Assim, um critério que deve ser considerado na constituição de turma é a preservação das relações de amizade entre as crianças e adolescentes.

A nível individual pode ser promovida a realização de programas de gestão de stress no espaço escolar. Neste tipo de programas, a criança aprende a lidar com a sintomatologia associada ao stress através de técnicas como a relaxação ou a respiração abdominal. A um outro nível, a criança aprende a modificar a sua resposta cognitiva e afectiva, aprendendo a identificar e a reavaliar positivamente as fontes de stress e a verbalizar sentimentos associados a esses acontecimentos. De forma a poder, de uma forma activa, combater os factores de stress ou reduzir o seu impacto negativo, a criança adquire, igualmente, nestes programas, competências de resolução de problemas.

Este conjunto de linhas de acção e de intervenção no stress escolar não deve ser concretizado sem que previamente cada escola faça um diagnóstico de necessidades e a análise da situação específica do stress escolar entre os seus alunos. O combate ao stress escolar, para ser eficaz, deve partir de uma avaliação da situação particular de cada organização e ter em consideração o que são as prioridades de cada escola.
 


Bibliografia

Bridges, L. (2003). Coping as an Element of Developmental Well-Being. In Bornstein, M., Davidson, L., Keyes, C., & Moore, K., Well-Being – Positive Development Across the Life Course (154-166). London: Lawrence Erlbaum Associates, Publishers.
Boss, P. (2002). Family Stress Management – A Contextual Approach. California: Sage Publications.
Burr, W., & Klein, S. (1994). Reexamining Family Stress – New Theory and Research. London: Sage Publications.
Lazarus, R., & Folkman, S. (1984). Stress, appraisal and coping. New York: Springer.
Pereira, A. I. (2003). Projecto de Investigação:“Envolvimento Parental na Escola e Ajustamento Emocional e Académico na Infância - um estudo longitudinal com crianças do ensino básico” (não publicado). Financiado pelo Programa de Apoio a Projectos de Pesquisa no Domínio Educativo da Fundação Calouste Gulbenkian e pela Escola Superior de Educação João de Deus.