Stress, adaptação e
recuperação
A compreensão de uma situação de stress implica que se
considere não apenas o(s) factor(es) de stress e o
estado de stress, mas também o processo de adaptação, a
possibilidade de crise e o estado de recuperação.
De um modo geral, numa
situação de stress, não intervém apenas um único factor mas
sim uma pilha de factores dado que ao factor central se
acrescentam outros adicionais, uns decorrentes daquele e
alguns que lhe são independentes mas concomitantes.
Os factores de stress
constituem uma pressão que perturba o indivíduo ou sistema,
desencadeando um estado de tensão e desequilíbrio e exigindo
mudanças as quais são essenciais para que novos estados de
equilíbrio sejam alcançados (Boss, 2002).
No processo de adaptação
à situação de stress intervêm três componentes centrais:
-
os recursos – características ou
condições individuais e contextuais que favorecem a
recuperação (Burr & Klein, 1994);
-
a percepção da situação que pode
variar desde uma maior negatividade (situação experienciada
como dramática, trágica) até uma maior positividade (situação
experienciada como um desafio, uma oportunidade de
crescimento);
-
as estratégias de coping,
as quais implicam uma pró-actividade do indivíduo no sentido
de gerir e ultrapassar a situação adversa (Burr & Klein,
1994). Tais estratégias incluem comportamentos e cognições em
resposta aos factores de stress e têm subjacentes diferentes
estilos de coping: focado no problema (acções que visam
alterar a situação tornando-a menos stressante) vs
focado na emoção (o qual envolve a utilização de estratégias
cognitivas ou comportamentais que ajudam o indivíduo a lidar
com o estado de stress decorrente da situação problemática) (Lazarus
& Folkman, 1984); coping por aproximação (cognições e
comportamentos que mantêm o foco na situação stressante)
vs coping por evitamento (cognições e comportamentos
que minimizam o foco na situação) (Ebata e Moos, 1991 in
Bridges, 2003).
Os principais componentes
deste processo de adaptação – recursos, percepção e
estratégias de coping – operam num circuito
interactivo, influenciando e sendo influenciado pelos factores
de stress – central e adicionais -, e condicionando o
movimento para a crise ou para a recuperação.
A crise, decorrente de um
processo de adaptação ineficaz, corresponde a uma situação de
tensão e desequilíbrio tão grave que o indivíduo ou sistema
fica bloqueado, imobilizado e incapacitado para responder
adequadamente às mudanças que são exigidas pela situação de
stress, o que, por sua vez, influencia negativamente o
processo de adaptação e condiciona a trajectória para a
recuperação.
A recuperação traduz-se
por uma adaptação eficaz do indivíduo ou sistema que resulta
num novo estado de equilíbrio.
Stress em contexto escolar
Tal como acontece na fase adulta, o stress faz parte da
vida de crianças e adolescentes e pode ter consequências
negativas para o seu bem estar físico, socio-afectivo e
cognitivo.
É impossível eliminar completamente o stress da vida das
crianças, mas é desejável conhecer como é que elas podem lidar
eficazmente com o stress, de forma a que não se produzam
consequências negativas a nível da saúde e do bem estar. Para
que pais, professores e as próprias crianças/adolescentes
aprendam a gerir o stress é preciso conhecer os contornos
específicos que este assume na infância e adolescência.
Um acontecimento gerador de stress para a criança é um
acontecimento relevante, percebido como uma ameaça e
acompanhado por um sentimento de incapacidade de responder com
eficácia a essa ameaça.
Alguns dos stressores
específicos a estas etapas desenvolvimentais estão associados
à escola. O stress escolar, e mais concretamente o stress
associado à transição entre escolas, tem sido alvo de
múltiplos estudos desde o final da década de 80. Três domínios
da vida escolar foram identificados como possíveis focos de
preocupação para crianças e adolescentes: académico, relação
com o professor/regras da escola e relação entre pares.
A nível académico, a pressão para o sucesso e para a obtenção
de bons resultados (mais do que a valorização do esforço) é
uma realidade, principalmente a partir do 1º ciclo. A
fragmentação do currículo num grande número de disciplinas
requer elevadas competências de organização e gestão do estudo
(organizar diferentes materiais; realizar os trabalhos das
diferentes disciplinas, cumprindo diferentes calendários;
organizar o estudo para as diferentes avaliações, etc.), que
os alunos frequentemente não têm. Uma outra preocupação
relacionada é o excesso de carga de trabalho (os trabalhos de
casa, os trabalhos de grupo, as avaliações, que se multiplicam
pelo elevado número de disciplinas das crianças). Segundo um
relatório da O.C.D.E, os alunos portugueses passam em média 5
horas por semana a fazer os trabalhos de casa., o que está
acima da média europeia.
No que diz respeito ao segundo domínio, a adaptação ao
funcionamento e regras da escola e a relação com os
professores são também áreas que suscitam preocupações nos
alunos. A partir do 2º ciclo a criança é confrontada com
horários mais irregulares e com a necessidade de se adaptar a
diferentes professores que os conhecem menos bem. É neste
período que começam a emergir relações professor-aluno
potencialmente mais conflituosas, uma vez que numa altura em
que as crianças começam progressivamente a procurar maior
autonomia, os professores colocam um maior ênfase no controlo
e disciplina.
Um terceiro domínio do
stress escolar diz respeito à relação entre pares. O receio de
não ser aceite pelos colegas, o medo de causar desagrado por
causa da aparência física e de ser rejeitado pelos pares é
motivo de preocupação para os alunos, principalmente a partir
da adolescência. No mesmo sentido, os episódios de violência e
de agressão entre pares (bullying) nas escolas são um
foco de preocupação para muitos alunos. Os alunos mais jovens
e os alunos com necessidades educativas especiais são
especialmente vulneráveis a este tipo de episódios.
Um estudo português
recente (Pereira, 2003) analisou o stress nestes três
domínios numa amostra de 300 alunos que na mudança do 1º para
o 2º ciclo do ensino básico, transitaram também de escola.
Estes alunos pertenciam a 59 escolas da rede ensino público e
da rede de ensino particular e cooperativo.
Quadro 1: Acontecimentos mais frequentes (%) e acontecimentos
associados a níveis mais elevados de stress (Média) em alunos
do 5º ano de escolaridade
Acontecimentos mais frequentes
|
% |
Acontecimentos indutores de níveis mais elevados de stress
(escala de 1 a 4) |
M |
|
Fazerem-me perguntas na aula, quando não sei a resposta. |
89 |
Ser
pressionado para fumar, beber álcool, ou utilizar drogas |
3,7 |
|
Ter
saudades dos meus amigos da escola do 1º ciclo. |
85 |
Ter
notas baixas na minha ficha de avaliação do fim do
trimestre |
3,4 |
|
Ter
dificuldades com os trabalhos de casa |
81 |
Roubarem-me alguma coisa |
3,4 |
|
Fazer
um trabalho que é demasiado difícil |
80 |
Ter
medo de armas ou violência na escola |
3,3 |
|
Chamarem-me nomes |
79 |
Não
conseguir fazer bem um teste |
3,1 |
|
Esquecer-me de trazer os materiais para a aula |
75 |
Perder o meu trabalho da escola |
3,1 |
|
Ter
dificuldade em dizer o que está certo na aula |
70 |
Entregar um trabalho fora do prazo |
2,7 |
|
Ter
de fazer demasiados trabalhos ao mesmo tempo |
70 |
Ser
castigado por um professor |
2,7 |
|
Ter
dificuldade em trabalhar sozinho |
68 |
Ter
saudades dos meus amigos da escola do 1º ciclo |
2,7 |
|
Ser
incomodado por rapazes/raparigas mais velhos |
60 |
Ser
tratado injustamente por um professor |
2,6 |
|
Ser
pressionado pelos pais para ser bom aluno |
59 |
Mandarem-me falar com alguém da direcção da escola |
2,6 |
|
Envolver-me em discussões com os meus amigos |
58 |
Estar
com rapazes/raparigas que causam problemas |
2,6 |
|
Ter
notas baixas na minha ficha de avaliação do fim do
trimestre |
58 |
Ter
dificuldade em prestar atenção nas aulas |
2,6 |
|
Ter
dificuldade em prestar atenção nas aulas |
54 |
Esquecer-me de trazer os materiais para a aula |
2,6 |
|
Ter
dificuldade em seguir as orientações do professor |
54 |
Ter
de fazer demasiados trabalhos ao mesmo tempo |
2,5 |
Os resultados deste estudo sugerem que os
acontecimentos indutores de stress relacionados com o domínio
académico são os que ocorrem com maior frequência. Uma elevada
percentagem das crianças relatou dificuldades em lidar com os
trabalhos e actividades escolares, quer no que se refere a
dificuldades de concretização, quer pelo facto de ter de lidar
com várias solicitações em simultâneo.
Por outro lado, os
acontecimentos que estão associados a um maior nível de
perturbação pertencem ao domínio relação com o professor e
regras da escola. Assim, as crianças apresentam um elevado
grau de preocupação quando ocorrem incidentes relacionados com
a pressão para o desvio e violência na escola, e em situações
de incumprimento de regras na sala de aula e de problemas na
relação com o professor.
Reacções aos Stress Escolar
A resposta ao stress é diferente de aluno para aluno
dependendo de um conjunto de factores: idade, sexo,
temperamento, competências cognitivas e de resolução de
problemas, apoio social, entre outros factores.
De uma forma geral, a
resposta ao stress envolve uma componente cognitivo-emocional
e uma componente fisiológica e de sintomatologia
psicossomática. Relativamente à dimensão cognitivo-emocional,
podemos observar, frequentemente, nas crianças: agressividade,
preocupação, tristeza, nervosismo, confusão e medo. No que diz
respeito à sintomatologia psicossomática, as crianças podem-se
queixar de dores de cabeça, dores de barriga, mas também
sudação, taquicárdia, náuseas, tremores e tensão muscular.
Estas respostas são reacções normais ao stress e não
devem ser motivo de preocupação. É a intensidade e a duração
deste tipo de respostas que nos deve tornar mais atentos dado
que são indicadores de um nível bastante deficitário de bem
estar. Nesses casos, podem surgir perturbações de ansiedade e
de natureza depressiva ou perturbações do comportamento. Uma
significativa diminuição do rendimento ou mudança a nível do
interesse e motivação pela escola também são outros sinais de
alerta.
O stress escolar
não atinge da mesma forma todas as crianças. Por um lado, há
escolas que se organizam de forma a proporcionarem condições
promotoras de bem estar nos alunos (por exemplo, através da
promoção de iniciativas que apoiem a integração dos novos
alunos). Por outro lado, existem alunos sujeitos a condições
ambientais mais adversas, mas que devido às suas
características e recursos pessoais (por exemplo, uma boa rede
de suporte social), conseguem lidar com sucesso com essas
adversidades.
Redução do Stress Escolar:
Diminuição das fontes de stress e promoção de competências
para que o aluno lide eficazmente com o stress escolar
As intervenções que têm por objectivo a redução do stress
escolar podem ser dirigidas ao ambiente, procurando criar
condições nas escolas de forma a diminuir o stress percebido
pelas crianças (nível organizacional), ou podem ser dirigidas
a capacitar a criança para lidar adequadamente com os factores
de stress (nível individual).
As intervenções dirigidas
ao nível organizacional devem contemplar as diferentes
dimensões de stress a que o aluno está sujeito: académico,
regras da escola e relação com os pares.
A diminuição do stress no domínio académico pode ser promovida
procurando, por exemplo, uma maior articulação entre os
diferentes docentes do conselho de turma de forma a dosear de
forma mais racional o trabalho que as crianças levam para
casa. A aprendizagem de competências de estudo e de gestão de
tempo é um outro aspecto importante e pode ser abordada na
área de Estudo Acompanhado. A criação de sistemas eficazes de
comunicação bilateral entre escola e família - informações
acerca do projecto educativo, do projecto curricular de turma,
informações e orientações para as famílias de forma a poderem
ajudar os alunos em casa no que diz respeito à aprendizagem
escolar é outro aspecto importante na redução do stress
escolar e especificamente do stress académico.
A diminuição do stress relativo à adaptação às regras da
escola pode ser conseguido de forma relativamente simples com
actividades que exigem poucos recursos: visitas à escola para
o aluno e para as famílias, apresentação e discussão do
regulamento interno e de aspectos relativos à organização da
escola e elaboração participada das regras de funcionamento na
sala de aula.
A intervenção dirigida à
área da relação entre pares, pode envolver desde actividades
mais simples a estratégias mais elaboradas: actividades de
início do ano, onde os alunos mais jovens são apresentados aos
mais velhos, organização de sistemas de tutoria de forma a
promover a integração social dos alunos, e maior ênfase por
parte dos professores na aprendizagem cooperativa e no
trabalho de equipa. É de referir que alguns estudos salientam
a importância da continuidade das relações entre colegas como
importante factor de protecção das consequências negativas do
stress escolar. Assim, um critério que deve ser considerado na
constituição de turma é a preservação das relações de amizade
entre as crianças e adolescentes.
A nível individual pode
ser promovida a realização de programas de gestão de stress no
espaço escolar. Neste tipo de programas, a criança aprende a
lidar com a sintomatologia associada ao stress através de
técnicas como a relaxação ou a respiração abdominal. A um
outro nível, a criança aprende a modificar a sua resposta
cognitiva e afectiva, aprendendo a identificar e a reavaliar
positivamente as fontes de stress e a verbalizar sentimentos
associados a esses acontecimentos. De forma a poder, de uma
forma activa, combater os factores de stress ou reduzir
o seu impacto negativo, a criança adquire, igualmente, nestes
programas, competências de resolução de problemas.
Este conjunto de linhas
de acção e de intervenção no stress escolar não deve
ser concretizado sem que previamente cada escola faça um
diagnóstico de necessidades e a análise da situação específica
do stress escolar entre os seus alunos. O combate ao stress
escolar, para ser eficaz, deve partir de uma avaliação da
situação particular de cada organização e ter em consideração
o que são as prioridades de cada escola.
Bibliografia
Bridges, L. (2003).
Coping as an Element of Developmental Well-Being. In Bornstein,
M., Davidson, L., Keyes, C., & Moore, K., Well-Being –
Positive Development Across the Life Course (154-166). London:
Lawrence Erlbaum Associates, Publishers.
Boss, P. (2002). Family Stress Management – A Contextual
Approach. California: Sage Publications.
Burr, W., & Klein, S. (1994). Reexamining Family Stress – New
Theory and Research. London: Sage Publications.
Lazarus, R., & Folkman, S. (1984). Stress, appraisal and
coping. New York: Springer.
Pereira, A. I. (2003). Projecto de Investigação:“Envolvimento
Parental na Escola e Ajustamento Emocional e Académico na
Infância - um estudo longitudinal com crianças do ensino
básico” (não publicado). Financiado pelo Programa de Apoio a
Projectos de Pesquisa no Domínio Educativo da Fundação
Calouste Gulbenkian e pela Escola Superior de Educação João de
Deus.