Revista Bimensal 
Edição 7 - Janeiro 04
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FALAR NO QUE NOS TOCA

 

Helena Fraga
Esc. Sec. Monte de Caparica



Falarei sobre o stress dos professores enquanto profissional do ofício, sem qualquer pretensão de rigor científico. As minhas palavras decorrerão do esforço que implica representar o que, pessoalmente, nos toca, com toda a subjectividade que lhe está associada. E se, no mesmo indivíduo, o sofredor não resiste ao que observa e equaciona a dor, vale bem a pena tentar.

Tal só poderá acontecer se eu colocar ao largo o “bichinho” da autocensura, muito preocupado em impôr-me as cores do socialmente correcto. Este “bichinho” é, também, um factor de stress, pois não nos deixa ser quem somos, expressar o que sentimos. Ele tem vindo a ser alimentado por uma sociedade que nos transformou em bodes expiatórios da sua própria impotência, forçando-nos a trabalhar sob a ameaça permanente de um dedo acusador que, oriundo de parte incerta, pode chegar a qualquer momento e atacar em várias direcções – sem que se perceba porquê! Depois, às vezes, o réu sucumbe sozinho por entre os gritos ofensivos da multidão, num espaço em que a defesa prima pela ausência – sem a atenção de um sorriso, uma palavra simpática de reconhecimento! Outras vezes, o réu revela-se mestre na arte do ilusionismo e, com as suas dores encobertas, faz a representação mágica de uma dignidade perdida ou sonhada.

As sucessivas reformas no sistema de ensino também não têm ajudado. As mudanças são desejáveis, se forem concebidas a partir do conhecimento, da experiência e em estreita articulação com o contexto a que se pretendem aplicar – sem generalizações forçadas e inadequadas (os diferentes níveis de ensino, as diferentes faixas etárias dos alunos, etc.). As mudanças devem obedecer a critérios de simplicidade, racionalidade e realismo e contemplar o devido acompanhamento e orientação dos professores. Por exemplo: um novo programa disciplinar deve partir das reais condicionantes de um professor numa relação complexa e dinâmica com as condicionantes próprias do seu contexto de trabalho: a situação normal de um professor normal (uma determinada escola, várias turmas e diferentes níveis de ensino).

Um indivíduo é mesmo “um mundo” e, numa sala de aula, existem vários e complicados “mundos” que não se compadecem com receitas teóricas engendradas do lado de fora, em gabinetes protegidos da dura realidade. A viabilidade e interesse de uma mudança não se provam a partir de situações modelo, produzidas artificialmente, ou a partir de condições altamente privilegiadas. Acredito que só com simplicidade, racionalidade e realismo se chegará a resultados positivos. Caso contrário, as mudanças preconizadas redundarão em mais precarização da função docente e da qualidade do ensino.

Se os professores não entenderem nem o que se pretende que façam, nem a adequação e interesse do que se pretende fazer, cresce a insatisfação, a insegurança e a angústia. Baralhados e desorientados perdem capacidade e vontade de aprender. As relações de trabalho tornam-se tensas e a comunicação enche-se de ruído gerador de desconfiança e equívocos: cada um é alvo e fonte de conflitos. (Quem poderá ganhar com isso?)

Quanto mais inseguros, mais fechados e mais amargos, mais sedentos da falha alheia. Os professores comungam da impotência da nossa sociedade (são parte dela) e, munidos, também, do tal “dedo acusador” apontam-no ao colega professor. O ambiente fica pesado e triste; esvai-se a possibilidade da desejável partilha, do verdadeiro espírito de equipa, que alegra a vida e enriquece a qualidade do trabalho, cujos frutos se colhem no presente e num futuro de pessoas mais capazes - futuro em que nos queremos rever.

Apontar o outro como o demónio que fizeram de nós; provar a nossa santidade com o pecado de quem está ao lado, interessará a alguém?

Maltratados, maltratamos, e acreditamos alcançar, individualmente, egoisticamente, o tal estatuto de grande competência, sapiência, heroísmo e humanismo que, paradoxalmente, continuam a esperar de nós - os proscritos.

Prestar atenção, tentar compreender, no meio deste emaranhado em que temos andado a viver, é uma questão de Direitos Humanos: “ Dá ideia que, por vezes, parecem mesmo só um número numa lista de computador, de quem os políticos e os sindicatos se servem para ilustrar as suas tomadas de posição.” Daniel Sampaio, XIS, 8 de Janeiro de 2005.