|
FALAR NO
QUE NOS TOCA
Esc. Sec. Monte
de Caparica
Falarei sobre o stress
dos professores enquanto profissional do ofício, sem qualquer
pretensão de rigor científico. As minhas palavras decorrerão
do esforço que implica representar o que, pessoalmente, nos
toca, com toda a subjectividade que lhe está associada. E se,
no mesmo indivíduo, o sofredor não resiste ao que observa e
equaciona a dor, vale bem a pena tentar.
Tal só poderá acontecer se eu colocar ao largo o
“bichinho” da autocensura, muito preocupado em impôr-me as
cores do socialmente correcto. Este “bichinho” é, também, um
factor de stress, pois não nos deixa ser quem somos, expressar
o que sentimos. Ele tem vindo a ser alimentado por uma
sociedade que nos transformou em bodes expiatórios da sua
própria impotência, forçando-nos a trabalhar sob a ameaça
permanente de um dedo acusador que, oriundo de parte incerta,
pode chegar a qualquer momento e atacar em várias direcções –
sem que se perceba porquê! Depois, às vezes, o réu sucumbe
sozinho por entre os gritos ofensivos da multidão, num espaço
em que a defesa prima pela ausência – sem a atenção de um
sorriso, uma palavra simpática de reconhecimento! Outras
vezes, o réu revela-se mestre na arte do ilusionismo e, com as
suas dores encobertas, faz a representação mágica de uma
dignidade perdida ou sonhada.
As sucessivas reformas no sistema de ensino também não
têm ajudado. As mudanças são desejáveis, se forem concebidas a
partir do conhecimento, da experiência e em estreita
articulação com o contexto a que se pretendem aplicar – sem
generalizações forçadas e inadequadas (os diferentes níveis de
ensino, as diferentes faixas etárias dos alunos, etc.). As
mudanças devem obedecer a critérios de simplicidade,
racionalidade e realismo e contemplar o devido acompanhamento
e orientação dos professores. Por exemplo: um novo programa
disciplinar deve partir das reais condicionantes de um
professor numa relação complexa e dinâmica com as
condicionantes próprias do seu contexto de trabalho: a
situação normal de um professor normal (uma determinada
escola, várias turmas e diferentes níveis de ensino).
Um indivíduo é mesmo “um mundo” e, numa sala de aula,
existem vários e complicados “mundos” que não se compadecem
com receitas teóricas engendradas do lado de fora, em
gabinetes protegidos da dura realidade. A viabilidade e
interesse de uma mudança não se provam a partir de situações
modelo, produzidas artificialmente, ou a partir de condições
altamente privilegiadas. Acredito que só com simplicidade,
racionalidade e realismo se chegará a resultados positivos.
Caso contrário, as mudanças preconizadas redundarão em mais
precarização da função docente e da qualidade do ensino.
Se os professores não entenderem nem o que se pretende
que façam, nem a adequação e interesse do que se pretende
fazer, cresce a insatisfação, a insegurança e a angústia.
Baralhados e desorientados perdem capacidade e vontade de
aprender. As relações de trabalho tornam-se tensas e a
comunicação enche-se de ruído gerador de desconfiança e
equívocos: cada um é alvo e fonte de conflitos. (Quem poderá
ganhar com isso?)
Quanto mais inseguros, mais fechados e mais amargos,
mais sedentos da falha alheia. Os professores comungam da
impotência da nossa sociedade (são parte dela) e, munidos,
também, do tal “dedo acusador” apontam-no ao colega professor.
O ambiente fica pesado e triste; esvai-se a possibilidade da
desejável partilha, do verdadeiro espírito de equipa, que
alegra a vida e enriquece a qualidade do trabalho, cujos
frutos se colhem no presente e num futuro de pessoas mais
capazes - futuro em que nos queremos rever.
Apontar o outro como o demónio que fizeram de nós;
provar a nossa santidade com o pecado de quem está ao lado,
interessará a alguém?
Maltratados, maltratamos, e acreditamos alcançar,
individualmente, egoisticamente, o tal estatuto de grande
competência, sapiência, heroísmo e humanismo que,
paradoxalmente, continuam a esperar de nós - os proscritos.
Prestar atenção, tentar compreender, no meio deste
emaranhado em que temos andado a viver, é uma questão de
Direitos Humanos: “ Dá ideia que, por vezes, parecem mesmo só
um número numa lista de computador, de quem os políticos e os
sindicatos se servem para ilustrar as suas tomadas de
posição.” Daniel Sampaio, XIS, 8 de Janeiro de 2005.
|
|