Revista Bimensal 
Edição 7 - Janeiro 05
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O OPTIMISMO

 

Natália Silva, Eunice Cavaco, Madalena Barroso
Formadoras do Centro Proformar


Introdução

Todos os dias somos confrontados com notícias deprimentes e "bombásticas" com que a comunicação social invade as nossas casas, influenciando as nossas vidas. Como afirma Helena Marujo "O bom não faz história nem cativa audiências" (in: Educar para o Optimismo).

Estudos recentes (e recorrentes) elegeram-nos como um dos países mais deprimidos da União Europeia. Sabendo que este estado de espírito influencia negativamente a qualidade de vida é urgente mudar a nossa atitude pessimista e passarmos a valorizar uma perspectiva optimista desde a primeira infância.

Enquanto educadores, conscientes do impacto da nossa profissão na formação das gerações futuras, temos o dever lhes incutir uma visão optimista da vida que assente na consciência de que "mais importante do que aquilo que nos acontece é a forma como lidamos com isso".

O Optimismo é uma "filosofia de vida", pois influência a forma como avaliamos os acontecimentos. Assim um optimista vê os fracassos e dificuldades como oportunidades para aprender mais, para desenvolver capacidades, para melhorar a sua qualidade de vida. O optimista não vê barreiras mas sim desafios, sabe que existirá sempre uma saída, uma solução, "acredita no melhor, espera sempre o melhor e trabalha para o melhor".

“Se não estivermos bem, se não praticarmos uma visão positiva da vida como poderemos transmitir bem-estar e optimismo aos que nos rodeiam, como podemos passar uma mensagem positiva da vida, levando as crianças a acreditar que é bom crescer?” Helena Marujo in: Educar para o Optimismo.

Inspirar uma atitude positiva e optimista é um dos maiores desafios dos professores e educadores. Ajudar a facilitar um crescimento confiante não é tarefa fácil quando os próprios educadores vivem em desencanto.

O optimismo na formação de professores

O presente artigo pretende partilhar a experiência vivida no Curso de Formação “Educador: um Modelo de Optimismo”, organizado pelo PROFORMAR e destinado a Educadores de Infância e Professores do 1ª ciclo do Ensino Básico que se realizou entre Março e de Junho de 2004 na Escola Secundária do Monte da Caparica.

Dada a ausência quase total de formação contínua direccionada a educadores de infância, e mais especificamente na área da formação pessoal-social, procurou-se criar um espaço formativo onde fosse possível reflectir sobre estratégias facilitadoras de um crescimento optimista desde as idades mais precoces, encontrando formas que permitam uma melhor auto-regulação das emoções, das atitudes positivas e da confiança.

Nesta perspectiva, o curso de formação pretendeu disponibilizar tempos e espaços de reflexão para identificação de problemas reais que os participantes percepcionavam no seu quotidiano profissional, para depois, através do processo de consciencialização, debate, pesquisa e partilha de informação, melhorarem a sua intervenção, promovendo-se assim uma Educação de Infância alicerçada numa filosofia de vida positiva.

No essencial os objectivos da formação poderiam sintetizar-se em:
Adquirir competências pessoais e profissionais que permitissem encarar a vida de forma positiva; Sensibilização para a necessidade da definição de estratégias de intervenção positivas junto das crianças; e ajudar a minimizar o discurso pessimista na educação.

Conteúdos da acção e metodologias adoptadas

Atendendo a que esta acção se enquadrava no âmbito da Formação pessoal - social em que a Inteligência Emocional está integrada e da qual o optimismo é dimensão crucial desenhou-se uma abordagem “curricular” dividida em três grandes blocos:

1-Do Pensar ao Agir

J Inteligência ou inteligências - A importância da inteligência emocional
J Distinguir entre pensamento e sentimento
J Identificar sentimentos
J Reflectir sobre vivências
J Pensar optimista versus pensar optimista

2- Construir o discurso optimista

J Análise sobre o efeito das emoções na prática pedagógica
J Relação optimismo/prática pedagógica
J Linguagem não verbal e verbal

3-Nascemos ou fazemo-nos optimistas

J Como ajudar a crescer optimista
J Soluções criativas para ultrapassar situações práticas de medo, angustia e frustração
J Estratégias de resolução de problemas
J Optimismo - O grande motivador : No grupo, na família na comunidade
J A educação Pré-escolar vista pela lupa das emoções, criatividade e optimismo


Dada a natureza e objectivos da formação e sabendo que o sucesso da aprendizagem depende sempre do nível de compromisso de cada pessoa e da oportunidade de praticar foram privilegiados os procedimentos metodológicos de tipo interactivo, nomeadamente através de Momentos de reflexão/ identificação de problemas / Partilha de estratégias face às problemáticas mais frequentes e produção activa de estratégias de intervenção, e também de tipo demonstrativo pois as simulações são geralmente facilitadoras da expressão de sentimentos/emoções.

Reflexões conclusivas

Atendendo a que muitas das propostas requeriam um forte envolvimento pessoal, o nível de participação dos formandos excedeu todas as expectativas. Foi notório o esforço feito pela maioria para pôr em prática as estratégias propostas, discutidas e vivenciadas ao longo das sessões, quer no ponto de vista da formação pessoal, quer no que diz respeito à sua prática pedagógica. Esta convicção advém da nossa observação directa da participação e envolvimento dos formandos, da suas produções e dos constantes feedback positivos obtidos ao longo das sessões.

Referindo-nos ao Stress – tema desta revista gostaríamos apenas de deixar para reflexão um texto em que Daniel Goleman refere “Do ponto de vista da inteligência emocional, o optimismo é uma atitude que protege as pessoas contra deixarem-se cair na apatia, na desesperança ou na depressão face às dificuldades.”. Também Seligman (citado por Goleman) “define o optimismo em termos de como as pessoas explicam a si mesmas os seus êxitos e fracassos. Os optimistas encaram o fracasso como consequência de qualquer coisa que podem mudar de modo a terem êxito da próxima vez, enquanto os pessimistas aceitam a culpa do fracasso, atribuindo-o a uma qualquer característica inata que não está ao seu alcance modificar.” (in: Inteligência Emocional)

Para estes autores estas diferentes “formas de explicar” têm implicações profundas no modo como as pessoas respondem à vida. Defendem também que “o optimismo e a esperança – tal como a impotência e o desespero – podem ser apreendidos”. Daí a nossa aposta nesta formação!!

“O nosso cérebro é o melhor brinquedo já criado:
 nele se encontram todos os segredos, inclusive o da felicidade.”
(Charles Chaplin)

Por fim gostaríamos de partilhar o texto (uma lenda) com que iniciamos a formação, uma vez que é nossa convicção que a mudança começa em cada um e nós e que essa tarefa é da nossa única responsabilidade pois não acreditamos todos que “ensinamos o que somos (e como somos!) e não apenas o que sabemos” ?


Um Ancião recebeu, certa vez, a visita de alguns amigos:
- Gostaríamos muito que nos ensinasses aquilo que aprendeste todos estes anos – disse um deles.
- Estou velho – respondeu o Homem.
- O que conversas com Deus? Quais são as coisas importantes que devemos pedir?
O homem sorriu.
- No começo, eu tinha o fervor da juventude, que acredita no impossível. Então eu pedi que me desse forças para mudar a humanidade. Aos poucos, vi que era uma tarefa para além das minhas forças. Então comecei a pedir forças para mudar o que estava à minha volta.
- Neste caso, podemos garantir que parte do teu desejo foi atendido – disse um dos amigos – o teu exemplo serviu para ajudar muita gente.
- Ajudei muita gente com o meu exemplo; mesmo assim sabia que não era o pedido.
Só agora, no final da minha vida, é que entendi o pedido que devia ter feito logo desde o início.
- E qual é esse pedido?
- Que eu fosse capaz de me mudar a mim mesmo.

 



Bibliografia

Freedman, J. (1998) EQ and Optimismo
Goleman, D. (1996) Inteligencia Emocional ¿Por qué es más importante que el Cociente Intelectual?. Buenos Aires: Javier Vergara Editores
Goleman, D. (1998) Working with Emotional Intelligence. New York: Bantam Books.
Weisinger, H. (1998) La Inteligencia Emocional en el Trabajo. Buenos Aires: Javier Vergara Editor
Marújo, H.,Neto L., Prelouro N., (1999), Educar para o Optimismo, Lisboa: Editorial Presença
Marújo, H.,Neto L., (2001), Educação Emocional e Optimismo, Lisboa: Editorial Presença