Revista Bimensal 
Edição 7 - Janeiro 05
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O LUGAR DO CORPO NA EDUCAÇÃO

 

Libânia Nazareth
Formadora do Centro Proformar
Doutoranda da Universidade de Huelva


1. Introdução

É já um lugar comum afirmar a necessidade de formação contínua num universo educativo em constante mudança; não é, contudo, sequer frequente ouvir-se falar em formação no domínio das competências relacionadas com o conhecimento de si, pela abordagem directa do corpo. Se pensarmos num professor, ele é, antes de tudo, o seu corpo. Garcia (2002) chega a considerar o corpo como o instrumento principal de trabalho do docente, atribuindo-lhe maior importância do que ao material didáctico, à linha pedagógica, ou aos recursos e fontes que possa utilizar.

O aluno é também um corpo comunicativo e expressivo que aguarda há milénios o tempo e o espaço da sua representação educativa. Risco (1991) vê o corpo do aluno como o meio integrador de todas as aprendizagens, corroborando com Garcia (2002) que diz ser o corpo aquele que aprende. Neste sentido, Gervilla (2000) vai mais longe acrescentando mesmo que é impossível educar sem a dimensão do corpo.

Resta-nos o reconhecimento de que a pós-modernidade educativa já contempla a componente da corporeidade nos seus princípios orientadores, uma vez que legislativamente preconiza a educação integral e o pleno desenvolvimento da personalidade. Teremos, no entanto, uma prática educativa que corresponda a esses propósitos holísticos? Será que o corpo se integra adequadamente na sala de aulas e participa no processo de ensino/aprendizagem? Haverá oferta formativa que ajude o professor a ser mais consciente corporalmente? Estará o professor, segundo a expressão de Nóvoa, “bem na sua pele”? Qual o contributo da formação de professores em Expressão Corporal na mudança das práticas lectivas?


2. Expressão corporal na formação de professores

Com base nestas premissas e questões, partimos para um trabalho de investigação, levado a cabo nos últimos três anos, embora com motivações intrínsecas muito mais antigas. O presente artigo tem, deste modo, uma sustentação que radica nessa investigação sobre “Expressão Corporal na formação contínua de professores do ensino secundário”. O trabalho de campo situou-se no Algarve, no Centro de Formação de Professores do Concelho de Loulé, onde se promoveu um curso, com a duração de cinquenta horas e que contou com a participação de vinte e seis docentes. A recolha de dados foi feita a partir do curso de formação, através de uma opção metodológica qualitativa, por se adequar preferencialmente aos objectivos e temática abordada, sendo constituída por relatórios e diários dos docentes. Apercebemo-nos que os vinte e seis docentes, na sua maioria com mais de dezasseis anos de serviço, nunca tinham tido formação relacionada com a Expressão do Corpo. O próprio Centro de Formação, com dez anos de existência, estava a ofertar um curso sobre Expressão Corporal pela primeira vez. Estes dados encontraram-se em consonância com as nossas pesquisas bibliográficas que apontavam para a quase total ausência de formação contínua na área do “Corpo” relativamente aos professores do secundário, no Algarve, a nível multidisciplinar.

A fase preparatória do nosso trabalho de investigação contou, assim, com uma etapa reflexiva onde se procedeu a uma pesquisa bibliográfica com a finalidade de enquadrar teoricamente a temática, para posteriormente comparar e contrastar a fundamentação feita com os resultados da investigação. Nesta etapa, efectuou-se uma busca dos vestígios do corpo na História da Educação, nos últimos 4 mil anos. Essa pesquisa alicerçou o trabalho, uma vez que comprovou diacronicamente a valorização negativa do corpo na educação. Concretizar as aprendizagens através da dimensão corporal, nunca foi uma prioridade no plano educativo (Martínez, 1996). Constatou-se igualmente que a actualidade continua a repetir os mesmos erros do passado mais recôndito. Kant, por exemplo, afirmava que as escolas continuam a seguir modelos tradicionais e a estrutura da sala de aulas permanece igual ao século XVIII. De facto, o presente ainda se rege pelos velhos padrões cartesianos em que inevitavelmente se separava o corpo e a alma.

É lícito perguntar, quanto mais tempo continuarão os corpos dos alunos sentados, passivamente, num processo de deformação, em condições ergonomicamente limitadoras? Esta realidade é bem captada por Girard e Chalvin (2001) que contabilizam cerca de mil horas por ano em que o aluno do secundário permanece sentado, imobilizado, escutando o professor ou apenas fingindo que escuta. É, de igual modo, legítimo questionar, quanto tempo ainda permanecerão os professores nos seus corpos inconscientes? Parece-nos paradoxal que, ocupando a comunicação não verbal 65% da relevância social num diálogo, segundo Knapp (1999), apenas haja a tendência para a fixação na comunicação verbal, que perfaz somente 35% da dimensão real numa interacção dialógica.

Ramos (2001) chega à conclusão que o stress acabou por vingar o corpo, esse corpo que pensa e sente a impotência e a alienação que suportou ao longo da História da Educação e ainda suporta...

Num dos diários recolhidos no trabalho de investigação, reconhecemos esse grito de alerta na voz de uma aluna, que reconhecia as aulas como uma prisão, onde os colegas se sentiam desprezados e reprimidos. Em discurso directo acrescentava, expressando-se deste modo: O meu corpo chega a ficar dormente, quase não consigo respirar...

Quanto aos professores, os relatórios realizados demonstraram também factores de mal-estar:

  • Por vezes via em certos alunos, quase um inimigo que estava ali para me contrariar, para dar cabo da minha saúde (Relatório1);

  • Começo a entrar em pânico e a controlar cada vez menos os alunos (...) Sentia-me triste e sempre aterrorizada sem saber o que fazer perante aqueles alunos (Relatório 9);

  • Porque nota-se que frequentemente os professores se sentem tensos e esgotados, não encontrando resposta em nada. De um modo geral, sentem-se cada vez mais cansados e a lutar contra tudo e contra todos “esgotamentos e mais esgotamentos” (Relatório 11);

  • A motivação é por vezes mínima e o feed-back dos conteúdos leccionados é tão frustrante que nos leva a duvidar das nossas próprias capacidades. (Relatório 22)

De facto, ao se tratar os dados através da análise de conteúdos, constatou-se que o mais relevante na subcategoria o “professor/profissional”, inserido nas “referências anteriores à Acção de Formação,” foi o indicador de mal-estar docente, com uma percentagem significativa na interpretação dos resultados.

A auscultação permanente das necessidades dos docentes participantes no curso, levou-nos ao objectivo que se tornou prioritário de minimizarmos os níveis de mal-estar apresentados. Assim, trabalhámos técnicas comunicativas e expressivas destinadas a tornar os docentes mais competentes na promoção do seu bem-estar. Os relatórios dos professores vieram confirmar os dados salientados por Jesus (1998), onde se percepcionava a classe docente portuguesa como a que atingia, a nível europeu, os índices mais elevados de mal-estar. Jesus sugere, como proposta de superação dessa problemática, o investimento nas qualidades pessoais do professor na formação inicial e contínua, onde se promova o autoconhecimento e autoconfiança. O autor, estudioso do stress na classe docente, tem promovido cursos de formação, a fim de pôr em prática estratégias que contribuam para o bem-estar docente, nomeadamente através das técnicas de relaxamento.

Recorde-se que Paolantonio (1999), a partir do termo em latim “relaxatio” que significa “soltar”, “libertar”, recorre à linguagem jurídica, onde a palavra “relaxamento” designa “libertar o prisioneiro” e em direito canónico a “remissão total das penas”.

Será que a repressão histórica que o corpo transporta no universo educativo não justifica investir formativamente na libertação e redenção da aprisionante inconsciência corporal? Será que não temos que rever o lugar do corpo na relação educativa? Como afirma Nóvoa (1995) é fundamental contribuir para que os professores se sintam “bem na sua pele”. Só assim o professor poderá romper as barreiras que impedem o ser integral de se expressar e comunicar, tornando o processo de ensino/aprendizagem mais significativo e digno do novo milénio que agora irrompe.


3. Reflexões conclusivas

Na etapa final de verificação de conclusões no trabalho de investigação, detectámos o contributo da Expressão Corporal na formação de professores e nas respectivas práticas lectivas.

Os resultados obtidos provaram que os contributos do curso de formação em Expressão Corporal manifestaram-se em vários níveis:

  • Um investimento positivo dos professores nas potencialidades dos alunos, a que Nóvoa (1992) chama “adesão”.

  • A primazia do agir em vez do reagir na sala de aulas, optando o professor pela escolha de novas maneiras de actuar. Este aspecto, relacionado com novas maneiras de agir, é denominado por Nóvoa por “Acção”.

  • A consciência de si como pessoa e como profissional, decorrendo daí um maior bem-estar, que apetrecha o docente para a inovação e para a mudança. Nóvoa refere-se a este aspecto como “Autoconsciência.”

Segundo Nóvoa os três aspectos referidos incluem-se nos processos “identitários” dos professores. Se de facto, como se comprovou pela pesquisa bibliográfica, o ensino secundário em Portugal está numa fase nuclear de procura de identidade assim como a formação contínua de professores, então valeria a pena procurar caminhos que devolvessem respostas “identitárias”. A Expressão Corporal pode ser um caminho profundamente válido nessa reconstrução de identidades.

Uma das conclusões a que se chegou pelos resultados obtidos relacionou-se com a síntese entre o aspecto pessoal e profissional do professor. Comprovou-se que ao se promover o aspecto pessoal o aspecto profissional aprimora-se e transforma-se. Tanto nos relatórios analisados quanto nos diários de aula, a conclusão mais significativa foi a subcategoria “alterações no professor” (relatórios), e “intervenção educativa para a mudança” (diários). A partir destes dados confirma-se de novo que o contributo prestado pela formação em Expressão Corporal é significativa, pelo potencial de mudança que encerra e pelas alterações operadas nos participantes em termos pessoais e profissionais.

Os dados recolhidos no trabalho de investigação provam que o ensino não se esgota nas dimensões técnicas, mas apela ao que de mais pessoal e mais expressivo existe em cada professor.

A expressividade dos alunos foi igualmente observada pelos professores e, em termos conclusivos, as reacções dos alunos revelaram-se positivas e promotoras de uma melhoria em termos pessoais. Por consequência, verificou-se um aumento do nível de aproveitamento, tendo o índice de motivação subido significativamente. Nessa alteração do rendimento dos alunos e na maior participação/ colaboração nas aulas, contou o bem-estar promovido pelos professores, nomeadamente na promoção de técnicas de bem-estar (como o relaxamento), na utilização de actividades expressivas corporalmente, relativas aos conteúdos (dramatizações), e na partilha de emoções.

Os alunos estavam muito agitados (...). Já tinha pedido para se concentrarem de um modo afável mas como não surtiu efeito pedi-lhes que fechassem os olhos em silêncio e que inspirassem calmamente pelo nariz e que expirassem pela boca. (...) No início acharam muito engraçado e houve alguns comentários mas depois decidiram tentar e surtiu efeito, não em todos mas a maior parte deles acalmaram. (Diário V)

Chegavam ao pormenor de representar, com os braços e as pernas, as próprias moléculas que são libertadas por uns e consumidas por outros. (Diário V)

O aluno que na semana passada tivera um comportamento menos aceitável fez revelações íntimas que me tocaram profundamente. (Diário C)

Tornou-se igualmente visível que os “dilemas relacionais” dos professores, relativos à indisciplina se resolviam com a introdução de estratégias expressivas e com atitudes decorrentes de um maior bem-estar do próprio professor.

A Acção de formação sobre Expressão Corporal veio munir o professor de ferramentas capazes de promover ou de redimir o corpo, o seu próprio corpo e o corpo do aluno.
 
Ficam estas propostas de reflexão, para que se possa continuar a investigar o papel que o corpo desempenhou ao longo de milhares de anos de História educacional, e valorizar os contributos que a Expressão Corporal pode desempenhar na redenção desse corpo comunicativo e expressivo, que busca inevitavelmente o equilíbrio e o bem-estar. Fica a consciência de que se a humanidade não conseguiu libertar o corpo da condição de inferioridade, ainda é tempo de mudar o rumo da História...

Há muito trabalho a realizar no âmbito educativo...
 


Bibliografia

GARCIA, R.(2002): O corpo que fala dentro e fora da escola. Rio de Janeiro, DP&A Editora.
GERVILLA, E. (2000): Valores del cuerpo educando. Barcelona, Herder.
GIRARD, V. y CHALVIN, M. (2001): Um corpo para compreender e aprender. S. Paulo, Edições Loyola.
JESUS, S.(1998): Bem-estar dos professores. Porto, Porto Editora.
KNAPP, M. (1999): La comunicación no verbal. Barcelona, Paidós.
MARTÍNEZ, J. (1996): Puedo jugar yo? Granada, Proyecto Sur Ediciones.
NÓVOA, A. (1992): Vidas de professores. Porto, Porto Editora.
NÓVOA, A. (1995): Profissão professor. Porto, Porto Editora.
PAOLANTONIO, M. (1999) Relajación Creativa: técnicas y experiencias. Santiago de Compostela, Universidad de Santiago.
RAMOS, M. (2001): Desafiar o desafio. Lisboa, Editora RH.
RISCO, J. (1991): La educación corporal. Barcelona, Paidotribo.