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O LUGAR DO CORPO NA
EDUCAÇÃO
Formadora do Centro Proformar
Doutoranda da Universidade de Huelva
1. Introdução
É já um lugar comum afirmar a necessidade de formação
contínua num universo educativo em constante mudança; não é,
contudo, sequer frequente ouvir-se falar em formação no
domínio das competências relacionadas com o conhecimento de
si, pela abordagem directa do corpo. Se pensarmos num
professor, ele é, antes de tudo, o seu corpo. Garcia (2002)
chega a considerar o corpo como o instrumento principal de
trabalho do docente, atribuindo-lhe maior importância do que
ao material didáctico, à linha pedagógica, ou aos recursos e
fontes que possa utilizar.
O aluno é também um corpo comunicativo e expressivo que
aguarda há milénios o tempo e o espaço da sua representação
educativa. Risco (1991) vê o corpo do aluno como o meio
integrador de todas as aprendizagens, corroborando com Garcia
(2002) que diz ser o corpo aquele que aprende. Neste sentido,
Gervilla (2000) vai mais longe acrescentando mesmo que é
impossível educar sem a dimensão do corpo.
Resta-nos o reconhecimento de que a pós-modernidade
educativa já contempla a componente da corporeidade nos seus
princípios orientadores, uma vez que legislativamente
preconiza a educação integral e o pleno desenvolvimento da
personalidade. Teremos, no entanto, uma prática educativa que
corresponda a esses propósitos holísticos? Será que o corpo se
integra adequadamente na sala de aulas e participa no processo
de ensino/aprendizagem? Haverá oferta formativa que ajude o
professor a ser mais consciente corporalmente? Estará o
professor, segundo a expressão de Nóvoa, “bem na sua pele”?
Qual o contributo da formação de professores em Expressão
Corporal na mudança das práticas lectivas?
2. Expressão corporal na formação de professores
Com base nestas premissas e questões, partimos para um
trabalho de investigação, levado a cabo nos últimos três anos,
embora com motivações intrínsecas muito mais antigas. O
presente artigo tem, deste modo, uma sustentação que radica
nessa investigação sobre “Expressão Corporal na formação
contínua de professores do ensino secundário”. O trabalho de
campo situou-se no Algarve, no Centro de Formação de
Professores do Concelho de Loulé, onde se promoveu um curso,
com a duração de cinquenta horas e que contou com a
participação de vinte e seis docentes. A recolha de dados foi
feita a partir do curso de formação, através de uma opção
metodológica qualitativa, por se adequar preferencialmente aos
objectivos e temática abordada, sendo constituída por
relatórios e diários dos docentes. Apercebemo-nos que os vinte
e seis docentes, na sua maioria com mais de dezasseis anos de
serviço, nunca tinham tido formação relacionada com a
Expressão do Corpo. O próprio Centro de Formação, com dez anos
de existência, estava a ofertar um curso sobre Expressão
Corporal pela primeira vez. Estes dados encontraram-se em
consonância com as nossas pesquisas bibliográficas que
apontavam para a quase total ausência de formação contínua na
área do “Corpo” relativamente aos professores do secundário,
no Algarve, a nível multidisciplinar.
A fase preparatória do nosso trabalho de investigação
contou, assim, com uma etapa reflexiva onde se procedeu a uma
pesquisa bibliográfica com a finalidade de enquadrar
teoricamente a temática, para posteriormente comparar e
contrastar a fundamentação feita com os resultados da
investigação. Nesta etapa, efectuou-se uma busca dos vestígios
do corpo na História da Educação, nos últimos 4 mil anos. Essa
pesquisa alicerçou o trabalho, uma vez que comprovou
diacronicamente a valorização negativa do corpo na educação.
Concretizar as aprendizagens através da dimensão corporal,
nunca foi uma prioridade no plano educativo (Martínez, 1996).
Constatou-se igualmente que a actualidade continua a repetir
os mesmos erros do passado mais recôndito. Kant, por exemplo,
afirmava que as escolas continuam a seguir modelos
tradicionais e a estrutura da sala de aulas permanece igual ao
século XVIII. De facto, o presente ainda se rege pelos velhos
padrões cartesianos em que inevitavelmente se separava o corpo
e a alma.
É lícito perguntar, quanto mais tempo continuarão os
corpos dos alunos sentados, passivamente, num processo de
deformação, em condições ergonomicamente limitadoras? Esta
realidade é bem captada por Girard e Chalvin (2001) que
contabilizam cerca de mil horas por ano em que o aluno do
secundário permanece sentado, imobilizado, escutando o
professor ou apenas fingindo que escuta. É, de igual modo,
legítimo questionar, quanto tempo ainda permanecerão os
professores nos seus corpos inconscientes? Parece-nos
paradoxal que, ocupando a comunicação não verbal 65% da
relevância social num diálogo, segundo Knapp (1999), apenas
haja a tendência para a fixação na comunicação verbal, que
perfaz somente 35% da dimensão real numa interacção dialógica.
Ramos (2001) chega à conclusão que o stress acabou por
vingar o corpo, esse corpo que pensa e sente a impotência e a
alienação que suportou ao longo da História da Educação e
ainda suporta...
Num dos diários recolhidos no trabalho de investigação,
reconhecemos esse grito de alerta na voz de uma aluna, que
reconhecia as aulas como uma prisão, onde os colegas se
sentiam desprezados e reprimidos. Em discurso directo
acrescentava, expressando-se deste modo: O meu corpo chega a
ficar dormente, quase não consigo respirar...
Quanto aos professores, os relatórios realizados
demonstraram também factores de mal-estar:
-
Por vezes via em certos alunos,
quase um inimigo que estava ali para me contrariar, para dar
cabo da minha saúde (Relatório1);
-
Começo a entrar em pânico e a
controlar cada vez menos os alunos (...) Sentia-me triste e
sempre aterrorizada sem saber o que fazer perante aqueles
alunos (Relatório 9);
-
Porque nota-se que
frequentemente os professores se sentem tensos e esgotados,
não encontrando resposta em nada. De um modo geral, sentem-se
cada vez mais cansados e a lutar contra tudo e contra todos
“esgotamentos e mais esgotamentos” (Relatório 11);
-
A motivação é por vezes mínima e
o feed-back dos conteúdos leccionados é tão frustrante
que nos leva a duvidar das nossas próprias capacidades.
(Relatório 22)
De facto, ao se tratar os
dados através da análise de conteúdos, constatou-se que o mais
relevante na subcategoria o “professor/profissional”, inserido
nas “referências anteriores à Acção de Formação,” foi o
indicador de mal-estar docente, com uma percentagem
significativa na interpretação dos resultados.
A auscultação permanente das necessidades dos docentes
participantes no curso, levou-nos ao objectivo que se tornou
prioritário de minimizarmos os níveis de mal-estar
apresentados. Assim, trabalhámos técnicas comunicativas e
expressivas destinadas a tornar os docentes mais competentes
na promoção do seu bem-estar. Os relatórios dos professores
vieram confirmar os dados salientados por Jesus (1998), onde
se percepcionava a classe docente portuguesa como a que
atingia, a nível europeu, os índices mais elevados de
mal-estar. Jesus sugere, como proposta de superação dessa
problemática, o investimento nas qualidades pessoais do
professor na formação inicial e contínua, onde se promova o
autoconhecimento e autoconfiança. O autor, estudioso do stress
na classe docente, tem promovido cursos de formação, a fim de
pôr em prática estratégias que contribuam para o bem-estar
docente, nomeadamente através das técnicas de relaxamento.
Recorde-se que Paolantonio (1999), a partir do termo em
latim “relaxatio” que significa “soltar”, “libertar”, recorre
à linguagem jurídica, onde a palavra “relaxamento” designa
“libertar o prisioneiro” e em direito canónico a “remissão
total das penas”.
Será que a repressão histórica que o corpo transporta
no universo educativo não justifica investir formativamente na
libertação e redenção da aprisionante inconsciência corporal?
Será que não temos que rever o lugar do corpo na relação
educativa? Como afirma Nóvoa (1995) é fundamental contribuir
para que os professores se sintam “bem na sua pele”. Só assim
o professor poderá romper as barreiras que impedem o ser
integral de se expressar e comunicar, tornando o processo de
ensino/aprendizagem mais significativo e digno do novo milénio
que agora irrompe.
3. Reflexões conclusivas
Na etapa final de verificação de conclusões no trabalho
de investigação, detectámos o contributo da Expressão Corporal
na formação de professores e nas respectivas práticas
lectivas.
Os resultados obtidos provaram que os contributos do
curso de formação em Expressão Corporal manifestaram-se em
vários níveis:
-
Um investimento positivo dos
professores nas potencialidades dos alunos, a que Nóvoa (1992)
chama “adesão”.
-
A primazia do agir em vez do
reagir na sala de aulas, optando o professor pela escolha de
novas maneiras de actuar. Este aspecto, relacionado com novas
maneiras de agir, é denominado por Nóvoa por “Acção”.
-
A consciência de si como pessoa
e como profissional, decorrendo daí um maior bem-estar, que
apetrecha o docente para a inovação e para a mudança. Nóvoa
refere-se a este aspecto como “Autoconsciência.”
Segundo Nóvoa os três
aspectos referidos incluem-se nos processos “identitários” dos
professores. Se de facto, como se comprovou pela pesquisa
bibliográfica, o ensino secundário em Portugal está numa fase
nuclear de procura de identidade assim como a formação
contínua de professores, então valeria a pena procurar
caminhos que devolvessem respostas “identitárias”. A Expressão
Corporal pode ser um caminho profundamente válido nessa
reconstrução de identidades.
Uma das conclusões a que se chegou pelos resultados
obtidos relacionou-se com a síntese entre o aspecto pessoal e
profissional do professor. Comprovou-se que ao se promover o
aspecto pessoal o aspecto profissional aprimora-se e
transforma-se. Tanto nos relatórios analisados quanto nos
diários de aula, a conclusão mais significativa foi a
subcategoria “alterações no professor” (relatórios), e
“intervenção educativa para a mudança” (diários). A partir
destes dados confirma-se de novo que o contributo prestado
pela formação em Expressão Corporal é significativa, pelo
potencial de mudança que encerra e pelas alterações operadas
nos participantes em termos pessoais e profissionais.
Os dados recolhidos no trabalho de investigação provam
que o ensino não se esgota nas dimensões técnicas, mas apela
ao que de mais pessoal e mais expressivo existe em cada
professor.
A expressividade dos alunos foi igualmente observada
pelos professores e, em termos conclusivos, as reacções dos
alunos revelaram-se positivas e promotoras de uma melhoria em
termos pessoais. Por consequência, verificou-se um aumento do
nível de aproveitamento, tendo o índice de motivação subido
significativamente. Nessa alteração do rendimento dos alunos e
na maior participação/ colaboração nas aulas, contou o
bem-estar promovido pelos professores, nomeadamente na
promoção de técnicas de bem-estar (como o relaxamento), na
utilização de actividades expressivas corporalmente, relativas
aos conteúdos (dramatizações), e na partilha de emoções.
Os alunos estavam muito agitados (...). Já tinha pedido
para se concentrarem de um modo afável mas como não surtiu
efeito pedi-lhes que fechassem os olhos em silêncio e que
inspirassem calmamente pelo nariz e que expirassem pela boca.
(...) No início acharam muito engraçado e houve alguns
comentários mas depois decidiram tentar e surtiu efeito, não
em todos mas a maior parte deles acalmaram. (Diário V)
Chegavam ao pormenor de representar, com os braços e as
pernas, as próprias moléculas que são libertadas por uns e
consumidas por outros. (Diário V)
O aluno que na semana passada tivera um comportamento menos
aceitável fez revelações íntimas que me tocaram profundamente.
(Diário C)
Tornou-se igualmente visível que os “dilemas
relacionais” dos professores, relativos à indisciplina se
resolviam com a introdução de estratégias expressivas e com
atitudes decorrentes de um maior bem-estar do próprio
professor.
A Acção de formação sobre Expressão Corporal veio munir
o professor de ferramentas capazes de promover ou de redimir o
corpo, o seu próprio corpo e o corpo do aluno.
Ficam estas propostas de reflexão, para que se possa
continuar a investigar o papel que o corpo desempenhou ao
longo de milhares de anos de História educacional, e valorizar
os contributos que a Expressão Corporal pode desempenhar na
redenção desse corpo comunicativo e expressivo, que busca
inevitavelmente o equilíbrio e o bem-estar. Fica a consciência
de que se a humanidade não conseguiu libertar o corpo da
condição de inferioridade, ainda é tempo de mudar o rumo da
História...
Há muito trabalho a realizar no âmbito educativo...
Bibliografia
GARCIA, R.(2002): O corpo que
fala dentro e fora da escola. Rio de Janeiro, DP&A Editora.
GERVILLA, E. (2000): Valores del cuerpo educando. Barcelona,
Herder.
GIRARD, V. y CHALVIN, M. (2001): Um corpo para compreender e
aprender. S. Paulo, Edições Loyola.
JESUS, S.(1998): Bem-estar dos professores. Porto, Porto
Editora.
KNAPP, M. (1999): La comunicación no verbal. Barcelona, Paidós.
MARTÍNEZ, J. (1996): Puedo jugar yo? Granada, Proyecto Sur
Ediciones.
NÓVOA, A. (1992): Vidas de professores. Porto, Porto Editora.
NÓVOA, A. (1995): Profissão professor. Porto, Porto Editora.
PAOLANTONIO, M. (1999) Relajación Creativa: técnicas y
experiencias. Santiago de Compostela, Universidad de Santiago.
RAMOS, M. (2001): Desafiar o desafio. Lisboa, Editora RH.
RISCO, J. (1991): La educación corporal. Barcelona, Paidotribo.
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