Revista Bimensal 
Edição 1 - Nov. 03
Página

proFORM R
online

 


Um sentido possível nos percursos de formação

Jorge Serrano
 Consultor de Formação do Centro Proformar


Acreditar em que o que ocorre na sala de aula continua a ser determinante no nível da qualidade das aprendizagens dos alunos – e por conseguinte na própria qualidade de vida das próximas gerações – indicia claramente um dos aspectos mais prementes da formatividade do pessoal docente, justificando, deste modo que tal matéria seja objecto de uma abordagem específica na primeira edição da revista proFORMAR online.

Efectivamente a qualidade da intervenção quotidiana do professor será, provavelmente, o factor de maior incidência no campo do sucesso escolar dos alunos, talvez, mesmo com uma importância maior do que todos os restantes aspectos somados. Daí a relevância que este assunto consubstancia.

Como consequência do cenário em análise deverá, então inferir-se assertivamente que se é inequivocamente desejável que a generalidade dos alunos atinja níveis qualitativos de aprendizagem, então será imperativo disponibilizar aos professores dispositivos de formação que lhes permitam um contínuo aperfeiçoamento dos seus modos de ensinar.

Entre outros aspectos, o referido aperfeiçoamento deverá ser gerido em ordem a que cada docente possa desenvolver as suas competências de maneira a que:

  • Detenha um conhecimento profundamente compreensivo do objecto da sua função lectiva;

  • Saiba identificar com segurança – através da observação e da reflexão – as formas como os alunos se apropriam dos saberes;

  • Oriente a sua acção pedagógica segundo a interpretação significativa daqueles modos de aprender (opção pela pedagogia de aprendizagem);

  • Assuma expectativas positivas sobre a capacidade de aprendizagem dos seus alunos;

  • Desenvolva estratégias pertinentes de ajuda na superação das dificuldades reveladas pelos alunos.

Garantir os meios para que os docentes possam melhora adequadamente as suas competências profissionais é, pois, um dever activo das entidades formadoras, mormente dos Centros de Formação das Associações de Escolas. Por outro lado, para que o impacto da actividade formativa seja efectivo, torna-se necessário que cada docente desenvolva uma disponibilidade atitudinal conducente à concretização do seguinte:

  1. Actualização permanente dos saberes pedagógicos, científicos, didácticos e relacionais;

  2. Familiarização instrumental e pedagógica com as novas tecnologias de acesso e de tratamento da informação;

  3. Inovação das práticas de ensino a partir da análise dos efeitos que as mesmas provocam na aprendizagem dos alunos.

O exercício da actividade docente é inquestionavelmente uma função intrinsecamente complexa, eventualmente até mais hoje do que nunca. Por tal razão há que apoiar, de forma pertinente e efectiva, os professores no processo de actualização e de melhoria contínua das suas competências profissionais. Só assim estes disporão de uma capacitação adequada para desenvolver nos seus alunos as competências que, por sua vez, estes necessitam para se integrarem de forma activa, autónoma e crítica no seio de uma sociedade tão exigente quanto mutante nos domínios do sentir, do pensar e do agir.

O tempo social pressupõe conhecimento, informação e formação. Ou seja, implica que a preparação do cidadão se paute por critérios de qualidade e de integridade. Assim, cada jovem aluno terá que ser responsável por uma auto-formação que o torne, simultânea e interactivamente capaz de saber ser, de saber estar, de saber conhecer, de saber aprender, de saber fazer e de saber resolver. Apoiar as novas gerações na construção autónoma de meios pessoais susceptíveis de gerir os próprios processos de aprendizagem e de formação de modo qualitativo e integral é pois um objectivo central da escolaridade. Procedendo assim, a escola está a favorecer a emergência de autênticos alunos estratégicos que saibam, não apenas aprender, mas, fundamentalmente, como se aprende a aprender a ser, a estar, a saber e a agir.

Obviamente que para preparar e desenvolver alunos estratégicos, exige a preparação de professores estratégicos, isto é de docentes que sejam competentes a ensinar os alunos que é possível aprender a aprender de forma estratégica e de modo a que eles se tornem, em cada momento, capazes de enfrentar reflexiva e activamente os desafios complexos do presente e do futuro imediato.

A formação integral do aluno-pessoa configura, actualmente, o propósito crucial da acção educativa. Consubstancia, a preocupação que deve presidir a todos os tempos e a todos os espaços onde se desenvolva uma intervenção de cariz educacional e por razões de sobra no interior da sala de aula. Logo, o saber ser professor é cada vez menos, a capacidade de ensinar conhecimentos para se aproximar, cada vez mais, de um saber proporcionar aos alunos a apropriação de um conjunto estratégico de instrumentos atitudinais, conceptuais e procedimentais susceptíveis de os dotar das ferramentas imprescindíveis a uma realização autónoma e bem conseguida dos respectivos projectos de vida.

Joga-se aqui a transição tão em voga – e muito justificadamente – de o ensino passar da centração em conhecimentos para se centrar no desenvolvimento de competências. Contudo – frise-se de modo muito contundente – de que não há competências sem conhecimentos, ou seja – e dito de uma outra maneira – de que ninguém será capaz de aplicar aquilo que não possui. Consequentemente a aquisição de conhecimentos continuará a ser um requisito essencial da formação dos alunos. Só assim a decorrente aplicação terá sentido e será exequível. Aliás estes processos de aquisição e de aplicação prefiguram a essência do significado pedagógico do termo competência e, como tal devem constituir-se como elementos indissociáveis no desenvolvimento de um ensino orientado para responder e corresponder às expectativas e necessidades dos alunos de hoje.

Pragmaticamente o desenvolver competências significará de algum modo ajudar os alunos a aprender a fazer o que eles precisam de fazer mas que ainda não sabem fazer. Conquanto se afigure ser um processo eminentemente centrado na acção não se reduz, todavia a esse âmbito, já que pressupõe – como uma análise mais reflexiva facilmente porá em evidência – a exploração simultânea de aspectos de natureza atitudinal e conceptual.

Didacticamente, o desenvolvimento de competências envolve a necessidade de privilegiar estratégias pedagógicas de incidência acentuada na proposição e resolução de situações problemáticas significativas e de complexidade crescente. Paralelamente, o saber avaliar competências implica, necessariamente, estratégias minimamente adequadas a este tipo de aprendizagem e onde as tradicionais provas de lápis e de papel terão uma utilidade tão falaciosa quanto redutora.

Os percursos de formação do pessoal docente deverão, tão depressa quanto possível seguir, assim, por trilhos que conduzam de forma securizante ao aperfeiçoamento da capacidade profissional de gerir a sua intervenção pedagógica sob o primado do desenvolvimento de competências. O termo competência encerra uma semântica holística, a qual, como já se indiciou, não se confina à natureza conceptual. Logo uma forma prática de os professores reforçarem a sua experiência profissional neste campo é desenvolverem, progressivamente, actividade de gestão curricular nas chamadas áreas curriculares não disciplinares – paralelamente à leccionação da sua área disciplinar – pois que, dessa forma, ganharão, através do saber feito, autonomia pedagógica e didáctica nos modos de apoiar a formação integral dos seus alunos, contribuindo, por conseguinte, de modo estratégico para a criação, nos mesmos, de condições para o exercício competente da cidadania, fim primeiro e último da educação formal.

Repensar alguns percurso de formação parece ser, portanto, a conclusão a retirar da análise das ideias antes expendidas. Consequentemente, os dispositivos e conteúdos de formação terão, igualmente que ser objecto de reformulação para que a coerência entre os objectivos e os resultados possam ser respeitados e alvo de consecução coerente. Finalmente há que ter em conta que os próprios formadores deverão também, reorientar as suas estratégias formativas de forma a que a mencionada coerência não seja prejudicada.

Percursos de formação com projecto a fim de apoiar a implementação reforçada de uma acção pedagógica com projecto na sala de aula. Só deste modo será assegurada a emergência de alunos com projecto, condição basilar para que estes consigam desfrutar de algo que, naturalmente, todo o ser humano busca no seu dia a dia: ser feliz!  


sentido  
Que sentido para a formação contínua?

Maria José Serrano
Assessora da Directora do Centro Proformar


Em nosso entender a formação contínua consubstancia um conjunto de acções formativas que, realizadas, em paralelo, ao exercício da profissionalidade docente, visa, por um lado, a actualização de conhecimentos e, por outro, criar e gerir dispositivos de apoio a projectos de resolução de problemas educacionais, mediante a inovação das práticas pedagógicas, até, então, instaladas. 

São várias as entidades que, actualmente, no nosso País organizam e asseguram programas de formação contínua de pessoal docente, indo, nomeadamente, das instituições de ensino superior, às associações sindicais e profissionais de professores, passando pelos Centros de Formação de Professores de Associações de Escolas.

São, estes últimos, pelo facto de que, estando situados nos contextos sócio-educativos em que exercem a sua actividade, constituem os meios estrategicamente vocacionados para a inovação apoiada das culturas organizacionais e pedagógicas das escolas associadas, numa perspectiva de, assim, responder, contextualizadamente, às necessidades percepcionadas pelos docentes envolvidos.

Prefigura-se ser, então, claro que a formação contínua protagoniza um elemento fulcralmente estratégico na inovação pedagógica. Como, paralelamente, se terá que admitir que, para tal, não servirá qualquer formação, mas sim aquela que, assertivamente, indicie propósitos de inovar a cultura organizacional das escolas e mudar as práticas pedagógicas em sala de aula.

Neste contexto, será indispensável que as Instituições de formação contínua, nomeadamente, os Centros de Formação da Associação de Escolas, organizem e disponibilizem dispositivos formativos, que assegurem, de modo inequívoco, a apropriação dos diversos saberes que, de modo integrado, viabilizem a emergência de novas práticas que os novos tempos impõem às escolas e aos profissionais de educação.