Revista Bimensal 
Edição 6 - Novembro 04
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Avaliar para formar

 

Joana Campos
Formadora do Centro Proformar


O termo avaliação tem sido associado a teste, exame, controle, nota, do ponto de vista do professor e medo, insegurança, punição, angústia, nervos, por parte do aluno.

Hoje, o conceito de avaliação aponta para superação, valorização, processo, evolução, construção de saberes e sucesso. Coloca-se a tónica na formação contínua e integrada do aluno que utiliza várias etapas para realizar um produto, tomando consciência das estratégias utilizadas e aprende a analisar dificuldades e procurar soluções úteis para resolver as situações-problema que lhe são colocadas no processo de ensino-aprendizagem. A avaliação pode e deve ter um papel relevante no desenvolvimento de aprendizagens complexas, no desenvolvimento moral e no desenvolvimento sócio-afectivo dos alunos. A avaliação pode segregar ou pode integrar. Pode melhorar a auto-estima dos alunos, pode piorá-la ou, em casos extremos, pode mesmo destruí-la. Pode orientar o percurso escolar dos alunos ou pode afastá-los de qualquer percurso.1

Este conceito de avaliação não deverá ser, apenas e só, psicométrica 2 para passar a ser alternativa onde os testes tradicionais podem deixar de fazer sentido. Para que este tipo de avaliação se concretize, é forçoso que o professor assuma o papel de regulador das aprendizagens e não de “carrasco” que penaliza o aluno com uma classificação (qualitativa ou quantitativa) atribuída a uma determinada tarefa e volta a penalizá-lo quando a adiciona com outra posterior, fazendo a média das duas, ainda que o aluno tenha progredido.

O aluno, do 1º para o 2º momento, deu mostras de ter desenvolvido uma determinada competência. Importa, pois, salientar que a 2ª classificação representa o patamar de proficiência do aluno e essa devia ser a sua classificação.

A avaliação assim encarada leva o aluno a implicar-se na aprendizagem e a tomar consciência dos seus progressos e/ou dificuldades em relação às aprendizagens que tem que adquirir. A prática reflexiva é, para o aluno, um meio de desenvolver e consolidar as competências. Uma postura e uma perspectiva reflexivas permitem adquirir experiência e conquistar autonomia face às expectativas do meio envolvente. Trata-se de uma “metacompetência” da qual dependem todas as outras (Perrenoud, 2001). Esta prática pressupõe um desenvolvimento global do pensamento crítico que é exercido sobre o conjunto dos saberes.3

O professor deve induzir os alunos ao processo reflexivo, ajudando-os a ver o que sozinhos não conseguem ainda que tenham os conhecimentos e as competências, ainda que sejam capazes de raciocinar, memorizar, compreender, deduzir, mas incapazes de pôr a funcionar um raciocínio metacognitivo. Assim, o professor deve ajudá-los a questionar-se sobre como fazer, que estratégias cognitivas utilizar, sobre como interagir com os outros e com o meio, enfim, a tomar consciência do que aprendem e como podem aprender, tentando fazê-los reflectir sobre o seu estatuto de aluno. É a metacognição que torna possível a transferência dos conhecimentos e das competências no processo de aprendizagem.4

Para lá de implicar o aluno no seu processo de aprendizagem, deve também o professor implicá-lo na co-avaliação dos seus pares, papel que até agora seria impensável ser-lhe atribuído.

Neste contexto, o ALUNO é actor, cooperador e crítico, tornando-se cidadão responsável e autónomo, que aprende a utilizar a palavra, oral e escrita, para intervir na sociedade, plena e conscientemente.

Para que isso se torne possível é necessário que aos alunos seja dado a conhecer:

  • o que se avalia, ou seja, o que se espera deles quando se lhes coloca uma situação-problema, tendo em vista os objectivos preconizados pelos programas;

  • como se avalia, ou seja, quais os critérios e parâmetros a utilizar pelo professor de modo a criar uma total transparência no processo.

Desta forma, deixa de ser pertinente marcar testes em datas pré-determinadas se tivermos em conta que cada momento de produção é um momento de avaliação, neste caso formativa e não punitiva.

Para pôr em prática esta avaliação é necessário criar instrumentos que a regulem eficazmente.

Um desses instrumentos é, sem dúvida, o portfolio que atribui protagonismo ao aluno por permitir que construa as suas próprias aprendizagens e tem as vantagens de:

- monitorizar a aprendizagem;
- proporcionar a tomada de consciência das estratégias que utilizou;
- promover uma boa relação professor/aluno;
- aumentar a auto-estima e o auto-conceito;
- estimular o pensamento reflexivo;
- permitir ao aluno avaliar as suas capacidades;
- implicá-lo na concepção e desenvolvimento de um trabalho de projecto;
- estimular o gosto pela aprendizagem.

O uso de portfolio leva o professor a fornecer um feedback em tempo útil e a equacionar mais eficazmente o percurso individual ao fazer ajustamentos e correcções, o que proporciona ao aluno uma aprendizagem significativa e estável.

No que se refere especificamente à disciplina de Português, é necessário deixar claro que haja uma distribuição equitativa na percentagem atribuída a cada competência nuclear (compreensão/expressão oral, escrita, leitura e funcionamento da língua).
O que tem acontecido é que as aulas têm decorrido sob o “signo” do oral quando o professor falava para aluno ouvir (ou não ouvir) e a avaliação só era feita através da escrita.

Vários erros se cometiam. Primeiro, o professor falava e não era dada a palavra ao aluno para que ele pudesse formalizar um discurso previamente planificado para ser textualizado correctamente. Depois, o professor apenas aferia o que o aluno repetia por escrito tudo o que lhe fora transmitido oralmente ou através da leitura e quanto mais conseguisse reproduzir o que o modelo (o professor ou o texto) dissera melhor seria a sua classificação.
Tudo isto denota uma profunda incongruência.

Tendo-se, até agora, privilegiado a leitura, é urgente desenvolver a oralidade, utilizando os géneros públicos e formais do oral e, paralelamente, desenvolver a escrita, não partindo do pressuposto que o aluno já sabe produzir uma determinada tipologia textual, mas antes pôr em prática cada etapa dessa aprendizagem para que o aluno desenvolva também essa competência.

O que se pretende é que o aluno desenvolva todas as competências. Para isso, além dos modelos que a leitura lhe fornece, é necessário que o professor leccione todos os conteúdos processuais, ou seja, trabalhe com o aluno as etapas necessárias para que ele se autonomize a planificar, textualizar e avaliar, revendo sempre que executa e reformulando várias vezes para textualizar melhor, depois de ter tomado consciência do erro.

Só este processo metacognitivo fará do aluno um cidadão de pleno direito, ao manusear a palavra oral e escrita que lhe dará o poder para poder participar activamente na sociedade em que se insere.
 

 


1 Domingos Fernandes, (?), Avaliação das Aprendizagens: Uma Agenda, muitos Desafios, Texto Editora
2 Ibidem
3 Conceição Coelho e Joana Campos, (2003), Como Abordar … o Portfolio na Sala de Aula, Areal Editores
4 Ibidem