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AVALIAÇÃO
DAS ESCOLAS:
actualidade
e perspectivas
Prof. da
Esc. Sec. Anselmo de Andrade
Investigador e Formador da área da Avaliação
1. Actualidade
do tema
A avaliação das organizações escolares (incluindo as de
ensino superior) é um tema recente.
Aliás, o próprio tema da avaliação educacional em geral
também não é muito mais antigo. Num artigo publicado em 2001 e
escrito ”por quem foi espectador e actor em muitos momentos nos
quais o problema da avaliação foi debatido” afirmava-se: “Em
Portugal, há 30 anos o termo avaliação aplicado à educação era
praticamente desconhecido e portanto quase não era usado. Hoje,
não só é conhecido como tem provocado grandes debates - e
certamente continuará a estimulá-los.”1 (Freitas, 2001)
Na primeira metade da década de 90 os “grandes debates”
centraram-se sobretudo na avaliação das aprendizagens. Nesse
período foram realizadas algumas investigações e publicados
alguns estudos sobre avaliação de escolas, mas tiveram reduzido
eco em termos de política educativa e debate público.
Embora se reconheça que algumas medidas importantes de
política educativa não têm tradução específica em termos
legislativos2, considera-se que três momentos de evolução da
legislação educacional podem ilustrar o crescente interesse pela
temática da avaliação de escolas:
-
na Lei de Bases do Sistema
Educativo de 1986 essa expressão (ou equivalente) não foi
utilizada. Em contrapartida, um artigo inteiro ocupava-se da
“avaliação do sistema educativo”(Lei nº 46/86, art. 49º);
-
oito anos mais tarde foi publicada
uma lei sobre a avaliação do ensino superior (Lei nº 38/94 de
21NOV) que tinha por objecto cada uma das instituições de ensino
superior;
-
em Dezembro de 2002 foi aprovada
uma lei sobre a avaliação do sistema de avaliação da educação e
do ensino não superior que é, no essencial, uma lei de avaliação
das escolas (apesar de essa expressão aí figurar apenas uma
vez).
Um
indicador do interesse pela temática pode encontrar-se no facto
de várias estruturas do Ministério da Educação terem levado a
cabo vários projectos nesse âmbito, sobretudo depois de 1995.
Isso consta de um relatório oficial sobre o “estado da arte da
avaliação educacional” em Portugal3, o qual dedica uma página e
meia ao tema “avaliação das escolas”, mencionando:
-
Projectos de Auditoria e Avaliação
das Escolas (desenvolvidos pela IGE);
-
Observação da Qualidade da Escola:
um projecto de auto-avaliação e desenvolvimento da instituição
escolar (iniciativa do PEPT - Programa de Educação para Todos);
-
Projecto Qualidade XXI (iniciativa
do Instituto de Inovação Educacional).
O Relatório menciona ainda alguns Projectos
internacionais em que Portugal participou:
-
QUALS – Mechanisms for Quality
Assurance and Evaluation of Schools;
-
MOCEQEP – Projecto Modelo de
Certificação de Qualidade das Escolas Profissionais
Projecto Piloto Europeu sobre Avaliação da Qualidade na Educação
Escolar;
-
ESI – Projecto Internacional
Capacidade de Mudança e Adaptação numa Perspectiva de Melhoria
da Eficácia das Escolas;
-
Self-Evaluation In School
Development (que envolveu, nomeadamente, um estudo de caso numa
EB2,3).
Poderíamos
encontrar outros factos indiciadores de que o tema é de grande
actualidade:
-
A agenda da política educativa de muitos países (europeus e
não só) inclui esse tema como uma das suas prioridades;
-
A comunicação social dedica largo espaço / tempo a essas
questões.
-
A investigação educacional tem-se dedicado cada vez mais a
esse tema, como é atestado pelo aumento do número de publicações
nesta área.
-
Instituições especializadas, algumas de iniciativa privada e
de criação relativamente recente, fazem da avaliação de escolas
o centro da sua actividade ou atribuem-lhe um lugar
significativo.
A estes factos poderíamos acrescentar outros, porventura com
menor visibilidade:
-
Os Projectos Educativos e outros documentos orientadores de
várias escolas portuguesas dedicam ao tema atenção
significativa;
-
Esse tema surge cada vez com maior frequência em iniciativas
de formação contínua de professores, seja sob a forma de
jornadas, seja sob a forma de cursos e outras modalidades de
formação.
-
Muitos professores realizam actividades directamente nessa
área ou são influenciados na sua actividade profissional
quotidiana pelos processos e produtos da avaliação das escolas;
-
Vários membros de diversas comunidades educativas (pais,
autarcas, etc.) dedicam à avaliação das escolas uma parte cada
vez maior do tempo que ocupam com questões educativas.
2. Avaliação de escolas: o que é?
A avaliação de escolas pode ser definida como a recolha
sistemática de informações sobre a estrutura e funcionamento de
uma organização escolar com a finalidade de formular juízos que
podem conduzir à tomada de decisões e a acções subsequentes.
Considera-se que pode ser realizada segundo uma de duas modalidades “simples”:
externa ou interna, consoante a
actividade de avaliação seja exclusiva ou predominantemente
realizada por agentes externos (mais ou menos especializados) ou
por membros da própria organização escolar. Há ainda a
considerar uma modalidade mista que consiste na combinação de
componentes dessas duas modalidades. Este procedimento apresenta
a vantagem de combinar diversos tipos de intervenientes (e
diferentes instrumentos de recolha de dados) permitindo – pelo
menos, em parte - suprimir as insuficiências de cada uma das
modalidades simples. Actualmente usa-se a expressão auto-avaliação4 para designar uma forma de
avaliação interna em
que ocorre a participação activa dos vários membros da
comunidade educativa.
A finalidade da avaliação da organização escolar pode ser a
melhoria da escola, a prestação de contas ou a produção de conhecimento novo. Alguns sociólogos acrescentam a estas,
finalidades de poder ou de manutenção de controlo sobre o
sistema educativo e as suas unidades. Porém, a prestação de
contas é o modo como essas finalidades são atingidas.
Esta distinção de finalidades articula-se com os efeitos
práticos da avaliação das escolas que é um tópico menos pacífico
que os anteriores. De facto, a opinião pública, os decisores
políticos e os especialistas dividem-se quanto a isso. Uns
defendem que ela deve ter consequências significativamente fortes, outros preferem efeitos
moderados. Uns acham que a
avaliação das escolas tem de ser essencialmente sumativa,
incidindo sobre produtos e certificando socialmente a qualidade
do serviço prestado por uma organização escolar. Outros, lutam
para que ela seja formativa, centrada nos processos e induzindo
melhoria nos mesmos, com vista ao reforço da motivação dos
diferentes intervenientes no processo educativo.
Assim, para alguns, as escolas cujos alunos tenham resultados
inferiores aos padrões determinados superiormente (os famosos
standards dos países anglo-saxónicos) devem ser penalizadas,
podendo mesmo ser encerradas em certos casos. Os professores,
por sua vez, devem – consoante os resultados da avaliação -
receber prémios pecuniários ou sofrer penalizações no seu
vencimento ou na sua progressão na carreira.
Para outros, porém, a avaliação das escolas serve para que estas
aprendam a melhorar a sua organização e modos de funcionamento,
serve para os professores receberem informações precisas sobre
qual o sentido em que devem realizar o seu desenvolvimento
profissional. Essa avaliação seria assim a base de planos de
melhoria da escola.
3. Sentido da avaliação de escolas
Dado o seu carácter fortemente técnico, não é este o local
adequado para analisarmos os procedimentos, os instrumentos, os
intervenientes, os produtos, os destinatários da avaliação de
escolas5. Nem sequer é o momento para se falar dos
rankings de
escolas secundárias, uma solução de facilidade para um problema
complexo como é o da qualidade da educação ministrada pelas
escolas. Gostaríamos antes de referir uma investigação em curso
sobre qual poderá ser o sentido do desenvolvimento da avaliação
das escolas.
Vários sociólogos da educação consideram que o reforço da
avaliação das organizações escolares é uma forma de adaptação do
Estado à complexidade dos sistemas educativos contemporâneos,
consistindo essencialmente num controlo acrescido sobre os
agentes educativos, por processos técnicos sofisticados aos
quais se atribui uma pretensa neutralidade axiológica. É a tese
do Estado Avaliador6.
Paralelamente a investigação em avaliação educacional tem vindo
a sublinhar a importância da participação dos diversos actores
educativos nos processos de avaliação7. Tem até induzido algumas
inovações que claramente promovem essa participação acrescida,
além de esclarecerem as modalidades que a possibilitam8.
Qual destas perspectivas permite explicar melhor as mudanças
ocorridas ao nível da institucionalização da avaliação das
organizações escolares? Estão os professores e outros actores
educativos irremediavelmente condenados a um controlo acrescido
pelos tentáculos de um Estado Avaliador? Ou, pelo contrário, a auto-avaliação das escolas abriu um novo espaço público que,
tendo em conta os interesses em jogo e o espaço de liberdade de
actuação entreaberto pelo processo de construção da autonomia da
escola poderá ser factor de uma nova profissionalidade docente e
de desenvolvimento de uma cidadania activa? Não será a avaliação
de escolas igualmente um desafio para os cidadãos?
Por mais fortes que possam ser os argumentos pessimistas em
torno desta temática e os respectivos cenários de catástrofe
presente ou anunciada, preferimos não rejeitar, como hipótese de
trabalho, a possibilidade de estarmos perante a construção de um
novo espaço de intervenção social visando a promoção de uma
democracia realmente participativa e plural.
1)
Freitas, C. M. V. de (2001). "Contributo para a história da
avaliação educacional em Portugal: os anos 70." Revista Portuguesa de Educação 14(1),
pp. 95-130.
2)
É o caso do projecto Avaliação Integrada das Escolas,
levado a cabo pela Inspecção Geral da Educação (IGE) que
envolveu muitos recursos humanos e incidiu sobre muitas escolas,
entre 2000 e 2002.
3)AA.VV.
(2000). Relatório O Estado da Arte da Avaliação Educacional. Portugal. Lisboa, DAPP/Ministério da Educação.
4) Alaiz,
V., Góis, E. e Gonçalves, C. (2003). Auto-avaliação de Escolas. Porto, Edições ASA; EURYDICE (2004).
Evaluation of Schools providing Compulsory Education in Europe. Bruxelles: EURYDICE.
Cf. Internet,
http://www.eurydice.org/Documents/EvalS/en/FrameSet.htm
5) Cf. Alaiz et al (2003).
6) Lima, L. e A. J. Afonso (2002). Reformas da Educação
Pública. Democratização, Modernização, Neoliberalismo.
Porto, Edições Afrontamento.
7) Guba, E. G. e Y. S. Lincoln (1989). Fourth generation
evaluation. Newbury Park,CA: Sage Publications.
Fetterman, D. M., S. J. Kaftarian et al., Eds. (1996). Empowerment
evaluation: Knowledge and tools for self-assessment and
accountability. Thousand Oaks, CA: Sage.
8) MacBeath, J. (1999). Schools Must Speak for
Themselves. The Case for School Self-evaluation. London:
Routledge.
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