Revista Bimensal 
Edição 6 - Novembro 04
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PARA COMPREENDER A IMPORTÂNCIA DOS
PORTEFÓLIOS

 

Aldina Lobo
Esc. Sec. Gama Barros



Novos jovens

Tenho andado intrigada com as atitudes e discursos de vários jovens. Talvez por já ser cota. É que tenho tanto tempo de profissão quanto de vida têm os meus alunos do secundário e alguns familiares e amigos que nasceram pela década de 80. Conto muito poucas excepções aos casos destas pessoas que, após o stress que provoca o esforço hercúleo para entrarem na universidade, mostram o calcanhar de Aquiles logo a seguir: estão anos e anos e anos para fazer ou acabar o curso. Sobre os mais novos não posso ainda dizer que vão demorar o dobro do tempo normal no superior (como apontam as estatísticas), mas todo o discurso sobre as suas prioridades no futuro mais próximo indica que a situação não pode estar a melhorar: “Pronto, já entrei!”, “A META é entrar!”, “Primeiro os amigos!”, “Está bem, vou estudar, mas não posso prescindir das noitadas com os amigos!”, “Agora tenho de tirar a carta!”, “Sem carro não posso fazer a minha vida!”, “Sem carro não posso chegar às aulas a horas!”, “Estou farto de me levantar às sete. Por amor de Deus, não vou continuar a fazer isso!”, “Não sei se vou continuar a trabalhar porque, para além das aulas, eu também tenho os meus amigos, tenho a minha namorada, gosto de fazer as minhas coisas”... Foram todas expressões proferidas recentemente por miúdos engraçados, inteligentes e com tino. Pelo menos, parece!

Revelam formas de estar e de sentir que me deixam boquiaberta, sobretudo por não encontrar paralelismo com o que vivi há cerca de vinte anos. Nós não pensávamos assim, pois não?


Mudanças sociais

Movida por esta inquietação, decidi actualizar-me na leitura de alguns textos sobre as alterações que a sociedade tem sofrido. Quando estamos envolvidos no nosso quotidiano nem sempre nos apercebemos das facilidades com que vamos sendo presenteados pelos novos descobridores, muito menos nos damos conta dos efeitos que essas pequenas (ou grandes) inovações têm nas novas gerações, ou seja, naqueles que não chegaram a sentir dificuldades nem sequer sonham que elas pudessem ter existido.

Descobri, então, que o século XX foi, até agora, o século mais rápido (“o século breve” de que fala Hobsbawm {2000}, o século das transformações, com maior acentuação a partir dos anos 60, 70. Descobri também que um dos responsáveis pelas alterações quotidianas, do cidadão comum, foi o avião de carga. Não tinha pensado nisso! Claro que já toda a gente sabe que os computadores e a Internet foram fundamentais para o efeito, assim como a moda e a fobia do consumo, a mulher e a criação de condições para a sua independência...

Pensando nos diferentes aspectos, saliento mudanças ao nível de três conceitos: tempo, dinheiro e mitos.

É óbvio que no século XXI temos menos tempo. Todos nós dizemos que não temos tempo para fazermos o que queríamos, que passamos o tempo a correr, que dormimos pouco tempo (nos EUA, passou-se de uma média de sono de 8,8 horas/dia em 1920 para 6,8 em 2001 {Tchong, 2004}), que temos saudades da tranquilidade da nossa meninice, que... Mas também vemos que agora a Zara apresenta quatro colecções por ano (em vez de duas), que conseguimos preparar um jantar completo em trinta minutos (em vez de três horas), que vamos de Lisboa ao Porto em duas horas e meia (em vez de cinco horas), que os nossos filhos ouvem música enquanto têm a televisão ligada e comunicam on-line, dizendo mesmo que estão a estudar. E o marido vê dois filmes e ouve as notícias, ao mesmo tempo, graças ao habilidoso zapping, ou conduz enquanto se põe a par das novidades escolares dos mais pequenos, intervaladas pelas chamadas telefónicas para resolver uns problemitas lá do escritório. O marido ou a mulher.

Vivendo nós mais tempo (a esperança de vida tem vindo a aumentar, como sabemos) assistimos, indubitavelmente, à compressão do tempo, como lhe chama Tchong {Tchong, 2004} – é que a duração das tarefas, das empresas, etc. é consideravelmente menor. Além disso, hoje conseguimos fazer muito mais coisas num período de tempo igual e, por isso, queremos sempre fazer mais e, por isso, o tempo foge-nos e, por isso, temos menos tempo.

No século XXI temos mais dinheiro. Claro que dizemos que ele não estica e que os bolsos estão sempre vazios. Mas como conseguiríamos comprar tantas camisolas, calças, casacos, livros, CD’s por ano se assim não fosse? Como conseguiriam as famílias manter três e quatro carros, que servirão para deslocações diárias e unipessoais, inclusive para os adolescentes que acabaram de tirar a carta e que ainda não têm forma de subsistência? E as segundas habitações na praia ou no campo? E as visitas cada vez mais frequentes ao estrangeiro? Não há precedentes de tanta mobilidade (humana e de mercadorias) por períodos longos ou curtos, ao nível da emigração, dos intercâmbios ou dos passeios de lazer por um mês, uma semana ou um fim-de-semana apenas. Os aviões não páram.
Nunca como hoje tanta gente gasta regularmente tanto dinheiro e nunca como hoje se morre tanto de fome no mundo. “No fim do século XX, apesar das extraordinárias catástrofes que caracterizam o século, a maioria dos povos vive melhor” {Hobsbawm, 2000, p.77}.

Faltam-nos os mitos. No século XXI, os mitos são diferentes. Quando digo mitos refiro-me aos heróis, aos modelos, àquilo e àqueles que, compreendidos ou não, são respeitados, são imitados, contribuem para a construção do nosso ser, dos nossos valores, da nossa conduta. Enfim, refiro-me àqueles que, de algum modo, lideram. A observação que deles fazemos alterou-se. Diz Lipovetsky que “ao regime de imitação global e fechada, próprio das idades de tradição, substitui-se o da imitação individual e parcial” {Lipovetsky, 1989, p.366}, não só de pessoas como também de objectos ou marcas. Significa isto que, perante um menor convívio com os pais e os avós, perante um maior contacto com professores, tutores, cantores… “imita-se isto e não aquilo, de um copia-se isto, de outro copia-se aquilo, os nossos empréstimos já não têm origem fixa, vamos buscá-los a inúmeras fontes” (ibidem). Depois, há um trabalho de combinação. Tudo se mistura num patchwork próprio de cada um. Adoptamos o que mais chama a atenção, o que dá mais espectáculo, o que se destaca do amontoado de informação com que somos permanentemente agredidos. Daí a importância da publicidade. Tornámo-nos, por isso, num constante centro de decisões. Tornámo-nos abertos à opção e, consequentemente, tornámo-nos mais conhecedores, mais abertos à expressão da opinião, mais críticos. Esta postura liga-se também à relação de forças existente na sociedade: há menor disponibilidade para os cidadãos obedecerem às Leis do Estado, aos governantes, como refere Hobsbawm {Hobsbawm, 2000}.

A par de uma maior abertura à informação e à possibilidade de participação democrática, assiste-se ao desinteresse dos jovens pela política e pela organização das sociedades, “propondo novos ideais, novos estilos de vida fundados na realização íntima, no divertimento, no consumo, no amor” {Lipovetsky, 1989, p.298}. Quando parecia termos mais condições para uma intervenção activa em sociedade, ficamos mais individualistas, mais egoístas – “torna-se cada vez mais difícil interessar as pessoas por objectivos colectivos”{Hobsbawm, 2000, p.91}.

Em suma, “vivemos na idade da coabitação pacífica dos contrários” {Lipovetsky, 1989, p.371}. Vivemos, de facto, numa era de extremos, de contradições de tempo, de riqueza, de valores. Situação que sentimos alarmante quando sabemos de casos, verídicos, como o que conheci há pouco: uma mulher tão inteligente que, com 24 anos, já fez o estágio do seu curso de Medicina, tão sensível que, por convicção, se tornou vegetariana com pena dos animais que se abatem para alimentar o ser humano, tão contraditória que pondera seriamente a hipótese de abortar, pois tenciona casar com o namorado desde há quatro anos (e progenitor do embrião) apenas em 2006! Estamos em Setembro de 2004.


Educação adequada

Temos, então, nós, adultos maduros, que pensar nos efeitos das nossas acções, dos nossos investimentos no tipo de sociedade que, inevitavelmente, ajudamos a construir. Será que estamos a formar os futuros líderes para o mundo em que queremos viver quando nos arrastarmos pela terceira idade? Estaremos a ser simpáticos, justos e formativos com os jovens de hoje, obrigando-os a esforçarem-se a antecipar a grande meta da conclusão da licenciatura para a entrada na faculdade? Poderão os prolongamentos na conclusão do curso estar relacionados com a dificuldade das saídas profissionais? Será que não estamos a conseguir ensiná-los a fazer as melhores opções? A ajudá-los a distinguir o essencial do acessório? A serem coerentes com os valores que defendem?

Inevitavelmente, temos de encontrar resposta para as questões seguintes: que mundo queremos para daqui a cinquenta anos? Que educação devemos dar às nossas crianças e jovens agora, para que o conduzam mais tarde? Infelizmente, não tenho resposta para estas perguntas, mas partilho convosco as minhas leituras e reflexões.

Roger Schank {Schank, 2002}, investigador em inteligência artificial, diz que, se continuarmos a entender a escola como um local onde se aprende a dar respostas mais do que a fazer perguntas, dentro de cinquenta anos, ela estará completamente atrofiada por falta de interesse. E prossegue afirmando que será assustador manter a noção de que a educação equivale à doutrinação pelo Estado. Para ele, há dois conceitos importantes e em evolução: educação e inteligência. Enquanto que educação (no sentido da formação académica) tem significado "acumulação de informação" e inteligência se tem referido à capacidade de demonstração do que se acumulou, dentro de algumas dezenas de anos, educação significará "explorar mundos de interesse" e inteligência servirá para orientar a exploração desses mundos, de modo a responder às perguntas que se lhe colocam e a encontrar outras. Apesar disto, o autor considera que, no seu sentido mais profundo, tem havido sempre, em educação, mais a noção de fazer do que saber. Ou seja, a noção de acção, do indivíduo enquanto agente activo, reflexivo, é fundamental.

Fazendo uma síntese clara da prioridade actual: “no fim do último século o conhecimento começou a tornar-se na moeda mais valiosa, tal como a terra numa economia feudal e o capital numa economia industrial” {Gopnik, 2002, p.73}, uma outra investigadora, Alison Gopnik, professora de Psicologia, parece seguir uma linha análoga, uma vez que afirma que “tal como os cientistas, as crianças parecem ser óptimas a descobrir novos factos causais” {Gopnik, 2002, p.67}. Não obstante, acrescenta que o conhecimento causal é um dos exemplos mais gritantes da diferença entre o que aprendemos e o que experimentamos. Por isso, para esta psicóloga, a grande conquista de uma teoria da aprendizagem será provar que os mais brilhantes cientistas e as mais vulgares crianças estão envolvidos na mesma luta.

Temos, pois, de investir no conhecimento. Porém, não no que se limita ao conhecimento livresco {de que já em 1981 Portugal era acusado pela OCDE, 1984}, mas à sua aplicação, ao seu uso enquanto motor de novas descobertas e enquanto estímulo da curiosidade. Só assim se conseguirão obter respostas. Só assim se conseguirão obter resultados. Esta tem também sido a tónica de vários outros responsáveis pela evolução da educação, de que destaco a Comissão Internacional sobre Educação, da UNESCO, com o seu olhar sobre o século XXI: “a educação deve transmitir de forma maciça e eficaz, cada vez mais saberes e saber-fazer evolutivos, adaptados à civilização cognitiva, pois são as bases das competências do futuro” {UNESCO, 1996, p.77}.

Como forma de ultrapassar tensões existentes no fim do século passado (a tensão entre o global e o local, o universal e o singular, a tradição e a modernidade, as soluções a curto e a longo prazo, a competição e a igualdade de oportunidades, o desenvolvimento do conhecimento e as capacidades de assimilação do Homem, o espiritual e o material), a Comissão sugere a orientação da política educativa com base em quatro pilares: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver em comum e aprender a ser (idem). Pegando nestes pilares, Roberto Carneiro {Carneiro, 2003} cruza-os com seis eixos transversais que constituem aprendizagens teleológicas fundamentais como cidadania, informação e conhecimento, construir sabedoria... para se chegar a questões de processamento, de partilha, de direitos e deveres, de solidariedade, etc.

Em síntese, o que me parece é que a escola não se pode divorciar da sociedade, funcionando como um mundo à parte – se entra em concorrência com o mundo exterior não levará a melhor, já que é muito mais monótona, anquilosada, conotada com um espaço de dor, de obrigação, não de prazer – o que ela tem é de saber acompanhar a sua evolução, não para a imitar, mas para a completar, naquilo em que a educação natural dos jovens está a falhar. Então, se chegarmos à conclusão de que as condutas dos adolescentes não são de todo desejáveis, é nossa obrigação reorientar a sua formação. Admito, por isso, que as reformas se sucedam em períodos mais curtos, desde que cheguem a ser devidamente aplicadas e desde que se dê algum tempo para avaliar os seus efeitos.


Premências

Centremo-mos, então, no saber-fazer. A este nível, podemos organizar as necessidades de interacção social à volta de três temas: fontes, informações e opções. As primeiras são agora mais dispersas, as segundas existem em maior quantidade e as terceiras têm de ser fundamentadas para serem credíveis.

Pelo que vimos, a sociedade hoje está muito mais dispersa, i.e, por um lado, as fontes de informação são muito mais ricas, muito mais diversificadas, muito mais diferentes entre si, graças às permanentes descobertas do ser humano, por outro lado, a informação obtida nessas fontes, assim como as próprias fontes, são muito mais efémeras, existem e rapidamente deixam de existir, dando lugar a outras – como se vivêssemos num mundo descartável. Além disso, as alterações são demasiado rápidas para que a nossa memória as segure. Isto significa que, para além de obviamente devermos reter ou memorizar conhecimentos, factos, que nos ajudarão a ter pontos de referência, a raciocinar, temos de usar os nossos conhecimentos na organização da informação que recolhemos. Como o mundo que está ao nosso alcance é agora muito maior, se aprendermos a nos organizarmos, rapidamente conseguimos ir ao local certo buscar a informação pertinente. Poupamos tempo. Podemos fazer mais coisas.

Diferente, mas intimamente relacionado com o tema da dispersão, é a questão da quantidade de informação, mesmo que ela provenha de uma só fonte. Não há dúvida de que hoje se produz muito mais informação. Uma vez mais, a nossa memória e os nossos interesses não conseguem armazenar tudo. Assim, um outro aspecto que se afigura pertinente desenvolver nos jovens é o da selecção. Temos de aprender a seleccionar a informação, a distinguir o que é importante do que é acessório, o que é prioritário do que é secundário. Não nos esqueçamos de que, se não formos exigentes, as pequenas pesquisas que solicitamos aos nossos alunos são impressões integrais de textos encontrados na Internet, que nem sequer chegam a ser lidos por quem os assina e entrega ao professor! E o que é que ele aprende com isso? Apenas a procurar informação, não a conhecê-la nem a tratá-la.

E este trabalho de selecção pode fazer-se ao acaso? É evidente que não. É fundamental encontrar argumentos para justificarmos as nossas opções. É fundamental aprendermos a usar a reflexão de forma lógica, convicta e coerente. Se queremos usar a publicidade (ou o nosso poder de persuasão) para convencer os demais das vantagens das nossas ideias, temos de ser coerentes ao nível do conteúdo, temos de ser rigorosos e exigentes nas nossas análises, temos de ter a curiosidade suficientemente apurada para procurarmos teses e antíteses de modo a construirmos a nossa síntese. Como vai aquela médica convencer-me de que devo ter pena de um leitão se ela mata um embrião?


O papel da avaliação

Ora, organização, selecção e reflexão são os aspectos mais desenvolvidos, por quem constrói um portefólio. É evidente que não constituem as preocupações únicas necessárias ao desenvolvimento do adolescente em formação. Porém, hoje em dia, são prementes. E os nossos políticos sabem-no. Leia-se, por exemplo, o Currículo Nacional {Abrantes, 2001}, mormente a sua sexta competência geral.

Assim, não é possível que nós, professores, continuemos a pôr em prática uma avaliação análoga àquela de que fomos objecto. Não é possível continuarmos a basearmo-nos exclusivamente nos testes para dizermos qual a nota que o nosso aluno merece. Ou fazermos a média dos testes, subindo ou descendo um valor de acordo com o facto de ele se comportar bem ou mal nas aulas. Claro que a nota não pode ser esquecida, mas, na realidade, este nem é o aspecto essencial da avaliação. Importante, importante é começarmos a formar cidadãos conscientes dos seus direitos e deveres, munidos de conhecimento e de instrumentos que os ajudem a desempenhar (de imediato e mais tarde), de forma digna e crítica, o seu papel cívico e profissional.

O portefólio é um elemento indispensável no processo educativo dos alunos, pois permite coligir de forma selectiva e comentada todo o tipo de informação e de documentos usados na sua aprendizagem, deixando transparecer o percurso que fez e criando no aluno uma maior autonomia. Também os professores e os encarregados de educação interessados poderão aperceber-se dessa evolução.

Se é verdade que a ênfase aqui está colocada no saber-fazer, é evidente que esta aprendizagem se faz com base no conhecimento, no conhecimento geral e no conhecimento específico de cada disciplina. E muitas vezes, inesperadamente, apercebemo-nos de características dos alunos que se situam claramente na área do ser. Quem aplica portefólios todos os anos encontra algo surpreendente que o ajuda a intervir na formação pessoal dos jovens.

Há diferentes formas de elaborar um portefólio, porém, a que me parece mais eficaz e que, por isso, aplico desde 2000, a diferentes níveis de ensino, encontra-se pormenorizadamente explicada em www.cadernosnet.pt/cadernos/portefolio.swf, sítio, também apoiado pela PROFORMAR, e que contém ainda múltiplas grelhas e fichas informativas que podem ser descarregadas e refeitas; é para isso que lá estão. A quem estiver interessado, peço que não use aquelas linhas ou instrumentos tal como surgem, mas que os leia e adapte à turma com quem os vai trabalhar. Só assim são válidas as experiências de outrem.

Bom trabalho!