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CIDADANIA,
VALORES E IDENTIDADE
(A
PRETEXTO DE UM PROJECTO COMENIUS DE PARCERIA DE ESCOLAS
EUROPEIAS)
Fernando Cunha RebeloCoordenador do
Projecto Comenius*
Esc. Sec. Daniel Sampaio - Sobreda
O valor da cidadania numa Cidadania
de Valores
No Ano
Europeu da Educação para a Cidadania (ou, se preferirmos da
Cidadania através da educação), parece à primeira vista
muito oportuno, mas quem sabe se não igualmente redundante,
abordar este tema. Isto porque, no plano do discurso, a
importância da Educação para a Cidadania atinge por vezes um
desinteressante (e até paralisante) unanimismo. Como tal,
juntar mais um escrito “politicamente correcto” a tantos
outros pode não passar de um exercício sem qualquer utilidade.
O que dizer, então?
Tendo alguma dificuldade em determinar o âmbito do conceito
de cidadania, dado o modo como atravessa múltiplos sistemas
conceptuais (ético, social, político, psicológico), todos
nós porém percepcionamos situações em que o seu deficit nos
faz sentir, de uma forma inequívoca e até por vezes brutal, o
que significa no nosso dia-a-dia.
Partindo
de um nível político-social em que se considera cidadão
aquele que pode exercer um conjunto de direitos e está obrigado
a uma série de deveres no seio de uma comunidade, impõe-se a
questão de como fazer aderir o aprendiz de cidadão a esse
sistema, para que seja ao mesmo tempo diligente no cumprimento
dos seus deveres e reinvindicativo no momento de fazer valer os
seus direitos.
Convém
lembrar ainda que num indivíduo moralmente maduro essa adesão,
essa postura activa, a um tempo de auto-restrição perante os
direitos dos outros mas igualmente de defesa intransigente dos
seus próprios direitos (e até dos dos outros), se faz
voluntária e conscientemente. O exercício da cidadania radica,
na minha convicção, no sistema individual de valores, que são
o cerne da identidade de cada um. Assim sendo, não existe uma
verdadeira cidadania, madura e autónoma, se o comportamento de
cada indivíduo não se basear fundamentalmente nos seus
próprios valores. Daqui concluo que uma Educação para a
Cidadania é, em grande parte, uma Educação para os Valores.
Indo ainda mais longe, tendo em conta que esses mesmos valores
são parte muito importante da identidade de cada um, podemos
afirmar que a “Educação para os Valores” é, num sentido
mais amplo, apenas “Educação”, entendida como processo,
transversal e pluridisciplinar, promotor do desenvolvimento e da
construção da identidade. Quantas vezes não atribuímos quase
imediatamente atitudes que evidenciam esse tal deficit de
cidadania a uma pura e simples “falta de educação”?
Provavelmente
não vale a pena referir a substância desses grandes valores
existenciais, pois à volta deles há, como já foi dito, um
grande consenso discursivo na nossa sociedade – causas como a
preservação ambiental, a tolerância perante a diversidade, a
justiça, a solidariedade, a saúde, etc. constituem temas
recorrentes de todas as nossas boas-vontades: já orientaram e
continuam a orientar um sem-número de acções educativas.
Contudo, quantos educadores não se sentiram frustrados perante
projectos que se revelarem apenas como uma mera retórica de
cidadania que não produziu qualquer efeito junto dos alunos?
Em
alguns encontros de pais e encarregados de educação em que
participei muitos me perguntaram como é que podiam transmitir
os seus valores aos filhos. Como poderiam educar para o mérito
quando o ambiente à sua volta, tendo em conta especialmente o
peso dos meios de comunicação social, sugere o êxito fácil,
apela ao consumo do imediato? Como educariam os filhos para a
tolerância étnico-cultural em sociedades que se começam a “proteger”
contra o que percepcionam como ameaças à sua própria
identidade (e integridade), nomeadamente associadas a fenómenos
de imigração ou situações de multiculturalidade?
Julgo
que ninguém terá uma solução milagrosa (e nem sei se
optimista) para esta questão – estas tensões atravessam a
nossa sociedade e mesmo para os “cidadãos mais maduros”
constituem muitas vezes dilemas difíceis de solucionar. Talvez
a resposta esteja numa tentativa de equilíbrio, ainda que
precário; talvez esteja em práticas de pequenos passos – mas
sem dúvida que radica no exemplo e na vivência quotidiana:
não vale a pena veicular junto dos alunos valores que não
orientem de uma forma evidente práticas correntes na escola, na
sala de aula ou na vida do próprio educador. O melhor a que
podemos aspirar, sem esse cenário credibilizador, é a
percepção por parte dos alunos da imposição de uma mera
submissão a normas alheias e arbitrárias - objectivo que,
ainda que de grande necessidade para o funcionamento das nossas
instituições, fica muito aquém do espírito de liberdade
crítica e de consciência cívica que pretendemos ajudar a
desenvolver nos nossos jovens.
E esta última constatação, introduz sem dúvida mais uma dimensão no já amplo conceito de cidadania – especialmente quando falamos de profissionais da educação - a deontológica.
Cidadania
Europeia ou Cidadania
na Europa?
Esgotada
a utopia do império, esfriada a euforia revolucionária,
Portugal virou-se já há quase vinte anos para esse espaço a
que geograficamente sempre pertenceu, mas de quem muitas vezes
se sentiu enteado: a Europa. Orgulhosos de pertencer finalmente
a essa “civilização” feita de reminiscências do Eça,
começámos a sentirmo-nos europeus, passámos a querer o que
querem os europeus, a festejar o que festejam os europeus e até
nos começámos a encontrar e a trabalhar com “eles”.
Pois foi
num desses encontros de trabalho, numa bela povoação do norte
de Itália, à beira de um lago com os Alpes ao fundo, que num
gelado Janeiro de 2003 nos reunimos, cerca de cinquenta
professores de diversos países da Europa, para discutir o tema
em causa e constituir parcerias com vista à apresentação de
candidaturas ao programa Socrates-Comenius.
Não
sendo um completo estreante nessas andanças, já levava algum
trabalho de casa feito. Estava ainda assim preparado, como me
avisava a experiência, para a flexibilidade e capacidade de
adaptação que essas situações sempre exigem. Ultrapassadas
num tempo recorde as dificuldades linguísticas, as mútuas
perplexidades, tornando-se possível rascunhar um texto fundador
do projecto e preencher os eternos formulários para a
burocracia de Bruxelas, cedo pude sentir a adesão dos meus
colegas europeus ao tema da cidadania. De outra coisa me apercebi desde o início – a rejeição
generalizada e peremptória do conceito “Cidadania Europeia”.
Se por um lado nos sentíamos cúmplices na função educativa e
na adesão incondicional a esses valores universais já
mencionados, a dita “Cidadania Europeia” apontava, por outro
lado, para uma identidade (ou entidade) política que ninguém
queria adoptar como sua. Constatei que todos éramos “outros”
e que, mesmo sem os nossos deslumbramentos de contornos
queirosianos, “eles” viam os “outros” como comunidades
distintas, exigindo espaço para uma diversidade
que nenhum outro formulário conjunto para Bruxelas conseguia
uniformizar.
Sendo um
facto que muitos destes projectos partem de um logro inicial –
a existência de uma inequívoca identidade europeia
(burocrática?) – eles abrem-nos, no entanto, um enorme e
riquíssimo leque de possibilidades. Cada encontro, cada
discussão, nos fazem reflectir sobre os nossos próprios
valores, quer como seres humanos, quer como comunidade-escola ou
comunidade-Portugal, chegando à conclusão de que, se somos
europeus em muitas coisas, também somos latinos noutras, sem
deixarmos de nos sentirmos mais “vizinhos” dos espanhóis,
mais próximos dos africanos e dos brasileiros, ou de
reconhecermos (embora algumas vezes a contragosto) a nossa
herança moura.
E assim, lá ficou definido o âmbito do nosso projecto Comenius
- não como uma identidade, mas como um sítio comum (http://www.asg.marl.de/comenius/index.php):
“Educação para a Cidadania na Europa” .
Os valores
nos diferentes níveis identitários: indivíduo, família,
bairro, país, Europa – da teoria à prática do projecto
Tentando
conciliar duas propostas para o projecto – os suecos queriam
abordar os diversos níveis de identidade, os catalães (nessa
altura já ninguém lhes chamava espanhóis) queriam discutir os
valores de per si – chegámos a uma síntese,
escolhendo alguns valores consensualmente importantes na
educação dos nossos jovens (amizade, respeito pelo outro,
liberdade, honestidade, tolerância) e decidindo abordá-los em
cada um dos três anos do projecto em níveis identitários cada
vez mais abrangentes (Eu, família, escola, bairro/cidade,
país, Europa).
Desta matriz inicial, foram sendo concebidas e
calendarizadas imensas actividades que têm vindo, ao longo dos
últimos dois anos a fornecer conteúdos para o nosso o espaço
virtual comum e promover realizações em cada uma das escolas
– umas com mais êxito, outras com diferentes graus de
adesão, conforme os países. Fomos descobrindo, um pouco à
frente dos alunos, muita coisa que nos unia, muita outra que nos
fazia sentir, uma vez mais, completamente “outros”. A
título de exemplo, posso referir que a sugestão da discussão
simultânea de um filme – As regras da Casa (Cidder
House Rules, no original) – sugerida por alemães e suecos
como um ponto de partida para abordar o valor da “amizade”,
entre os estudantes portugueses suscitou, em vez disso, uma
reflexão sobre o tema do aborto: o valor “liberdade da mulher”
versus o valor “direito à vida do feto” (dilema ainda tão
actual na nossa comunidade).
Mas,
como era previsível, foram os encontros, especialmente desde
que pudemos levar alunos connosco, o espaço (este real e
físico) privilegiado para troca de experiências e
aprendizagens mais ricas. Tivemos oportunidade de confirmar que,
não sendo predominante na pequena amostra da nossa comunidade-Portugal o valor da “pontualidade” (que para o
pessoal mais do Norte está associado ao valor “respeito pelo
outro”), rapidamente a pontualidade passou a funcionar como
regra, não porque esse valor em si tivesse sido adoptado, mas
tão somente como mais uma revelação da nossa capacidade de
adaptação e do desejo de agradar. E quando nos tocou sermos
visitados pelos nossos colegas, julgo que conseguimos estar à
altura da nossa famosa hospitalidade. Contudo, se nos sentimos
felizes com os seus elogios à nossa abertura e empatia com os
alunos, algo que puderam experimentar durante actividades
lectivas que realizámos em conjunto, foi no entanto um pouco
embaraçoso explicar-lhes o conceito de “furo”, quando nos
perguntaram, sem malícia, porque estavam tantos alunos no bar
durante o horário lectivo (costume ou problema que outros
acabaram por resolver por nós este ano...).
À laia
de epílogo, mas ainda sem o distanciamento necessário para uma
avaliação formal, pois o projecto termina no final deste ano
lectivo, só posso por agora desejar que os alunos que nele têm
participado venham a aprender o melhor dos suecos, alemães,
italianos e catalães que nos têm acompanhado neste percurso e
que se possam sentir bons cidadãos portugueses na Europa e cada
vez melhores cidadãos do mundo.
*"Como
desenvolver a autonomia cooperativa, uma forma de construir a
cidadania na Europa"
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