Revista Bimensal 
Edição 15 - Junho 06
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Balanço acerca da Dramatização da Ilha dos Amores

 

Carlos Amaral
Professor de Filosofia
Esc. Sec. Daniel Sampaio
Sobreda, Almada


Quando os audiovisuais assumem a preponderância face ao livro, torna-se ainda mais uma exigência pedagógica captar os jovens, de forma apelativa, para o mundo da leitura. Acreditamos que com a dramatização tal se potencia. Testámos esta hipótese, escolhendo um texto exigente, o Capítulo IX (a Ilha dos Amores) dos Lusíadas de Camões. Logo à partida os alunos foram confrontados com o autor vernáculo, mas também com as interpretações produzidas na acção de formação do Proformar de Almada. Passou-se à criação do argumento da peça, com algumas personagens sugeridas a partir da leitura de Camões e outras inventadas pelos próprios discentes. Pois sentiram a necessidade e o prazer de serem autores.

Prosseguiu-se, caracterizando as personagens a partir dos momentos cruciais da trama, desenvolvendo em paralelo um guião. Por seu lado, os ensaios geraram uma dinâmica própria para o enredo cénico, o que conduziu as personagens a cruzaram o imaginário camoniano com o contemporâneo, destacando-se nas cenas: o percurso náutico dos portugueses até à Índia; o elogio de Vénus à coragem dos heróis do mar; a relação amorosa dos marinheiros com as ninfas enquanto prémio da façanha daqueles.

Os alunos sentiram a universalidade do texto camoniano, concretamente na actualidade das temáticas do amor e da sexualidade. Assim foi aliciante a exploração das linguagens gestuais e corporais; a criação de figurinos adequados; sequências de coreografias; diálogos estimulantes. Tudo isto feito à medida do seu imaginário.

Em todo o processo, os jovens sentiram a felicidade de tratarem temáticas do seu interesse genuíno. Convém no entanto destacar que, em situações delicadas, eles próprios estabeleceram os critérios e limites da decência, para os figurinos, situações e linguagem.
Portanto, ganhou-se a noção de que os livros podem ser animados, tornando-se ferramentas que levam a pensar acerca do desenvolvimento integral do ser humano, nas valências sociais, históricas, afectivas. Com isto, incentivaram-se ainda valores de tolerância e interacção cultural. De facto, ler e dramatizar (e a arte em geral) pode ser um estímulo para iniciar uma vida reflexiva, responsável e ilustrada.

Na realização do projecto estiveram empenhados muitos alunos que deram corpo e alma às variadas personagens das mais simples às mais complexas. Mas tendo em consideração que, na arte teatral existe um conjunto de técnicas que a tornam mais apreciável, dinamizamos desde cedo em Atelier a preparação das competências necessárias, de modo a criarmos um espectáculo com qualidade e interesse.

A mostra pública deste produto cultural foi no dia 26 de Março de 2004. O Atelier de Expressão Dramática da Escola Secundária Daniel Sampaio, orientado pelo professor Carlos Amaral, actuou com a sala cheia no respectivo auditório. Valeu a pena! Caloroso foi o acolhimento que a peça teve junto do público. Para tal contribuiu o esforço de todos os envolvidos, primeiramente aqueles que a montante fizeram o trabalho de investigação, em segundo lugar, os que a jusante implementaram: ritmo, expressividade, criatividade, entusiasmo e rigor técnico na representação.

Apesar dos encantos e das dificuldades dum projecto desta natureza, o capitão do leme várias vezes tremeu mas não desistiu, conseguindo dobrar o Bojador das incertezas. Noutras escolhas acumularam-se as tensões da criatividade, até começarem a gerar sentido, e assim se superou o cabo das Tormentas. Todos sentiram que o barco do projecto, de facto, já não podia recuar. Entretanto, as reservas morais esbateram-se, restando o véu da decência, presente com a dignidade que deve revestir qualquer situação humana. Todos entenderam qual é o prémio dos seres que se lançam à aventura da descoberta. Fomos longe na exploração do relacionamento humano, sem escamotearmos a necessidade de aprofundar o diálogo das sensualidades. Mas valeu a pena, porque a alma portuguesa descoberta a partir dos poetas (nos Lusíadas de Camões, ou na Mensagem de Pessoa) nunca foi pequena.