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Balanço
acerca da Dramatização da Ilha dos Amores
Carlos Amaral
Professor de Filosofia
Esc. Sec. Daniel Sampaio
Sobreda, Almada
Quando os audiovisuais
assumem a preponderância face ao livro, torna-se ainda mais
uma exigência pedagógica captar os jovens, de forma
apelativa, para o mundo da leitura. Acreditamos que com a
dramatização tal se potencia. Testámos esta hipótese,
escolhendo um texto exigente, o Capítulo IX (a Ilha dos
Amores) dos Lusíadas de Camões. Logo à partida os alunos
foram confrontados com o autor vernáculo, mas também com as
interpretações produzidas na acção de formação do Proformar
de Almada. Passou-se à criação do
argumento da peça,
com algumas personagens sugeridas a partir da leitura de
Camões e outras inventadas pelos próprios discentes. Pois
sentiram a necessidade e o prazer de serem autores.
Prosseguiu-se, caracterizando as personagens a partir
dos momentos cruciais da trama, desenvolvendo em paralelo um
guião. Por seu lado, os ensaios geraram uma dinâmica própria
para o enredo cénico, o que conduziu as personagens a
cruzaram o imaginário camoniano com o contemporâneo,
destacando-se nas cenas: o percurso náutico dos portugueses
até à Índia; o elogio de Vénus à coragem dos heróis do mar;
a relação amorosa dos marinheiros com as ninfas enquanto
prémio da façanha daqueles.
Os alunos sentiram a universalidade do texto
camoniano, concretamente na actualidade das temáticas do
amor e da sexualidade. Assim foi aliciante a exploração das
linguagens gestuais e corporais; a criação de figurinos
adequados; sequências de coreografias; diálogos
estimulantes. Tudo isto feito à medida do seu imaginário.
Em todo o processo, os jovens sentiram a felicidade
de tratarem temáticas do seu interesse genuíno. Convém no
entanto destacar que, em situações delicadas, eles próprios
estabeleceram os critérios e limites da decência, para os
figurinos, situações e linguagem.
Portanto, ganhou-se a noção de que os livros podem ser
animados, tornando-se ferramentas que levam a pensar acerca
do desenvolvimento integral do ser humano, nas valências
sociais, históricas, afectivas. Com isto, incentivaram-se
ainda valores de tolerância e interacção cultural. De facto,
ler e dramatizar (e a arte em geral) pode ser um estímulo
para iniciar uma vida reflexiva, responsável e ilustrada.
Na realização do projecto estiveram empenhados muitos
alunos que deram corpo e alma às variadas personagens das
mais simples às mais complexas. Mas tendo em consideração
que, na arte teatral existe um conjunto de técnicas que a
tornam mais apreciável, dinamizamos desde cedo em Atelier a
preparação das competências necessárias, de modo a criarmos
um espectáculo com qualidade e interesse.
A mostra pública deste produto cultural foi no dia 26
de Março de 2004. O Atelier de Expressão Dramática da Escola
Secundária Daniel Sampaio, orientado pelo professor Carlos
Amaral, actuou com a sala cheia no respectivo auditório.
Valeu a pena! Caloroso foi o acolhimento que a peça teve
junto do público. Para tal contribuiu o esforço de todos os
envolvidos, primeiramente aqueles que a montante fizeram o
trabalho de investigação, em segundo lugar, os que a jusante
implementaram: ritmo, expressividade, criatividade,
entusiasmo e rigor técnico na representação.
Apesar dos encantos e das dificuldades dum projecto
desta natureza, o capitão do leme várias vezes tremeu mas
não desistiu, conseguindo dobrar o Bojador das incertezas.
Noutras escolhas acumularam-se as tensões da criatividade,
até começarem a gerar sentido, e assim se superou o cabo das
Tormentas. Todos sentiram que o barco do projecto, de facto,
já não podia recuar. Entretanto, as reservas morais
esbateram-se, restando o véu da decência, presente com a
dignidade que deve revestir qualquer situação humana. Todos
entenderam qual é o prémio dos seres que se lançam à
aventura da descoberta. Fomos longe na exploração do
relacionamento humano, sem escamotearmos a necessidade de
aprofundar o diálogo das sensualidades. Mas valeu a pena,
porque a alma portuguesa descoberta a partir dos poetas (nos
Lusíadas de Camões, ou na Mensagem de Pessoa) nunca foi
pequena.
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