Revista Bimensal 
Edição 5 - Setembro 04
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O SITE DE ESCOLA1

 

Dulce Maria Franco
Universidade Lusófona de
Humanidades e Tecnologias


O site de escola surge, na maior parte dos casos, como um portfólio da escola (Franco, 2002), ou seja, como repositório das produções e realizações da escola consideradas, por ela ou por quem nela está por detrás do site, como merecedoras de serem publicadas e divulgadas entre o público extraordinariamente vasto da Internet.

Perante a intensa publicação na Internet, fenómeno actualmente generalizado e que não se restringe ao domínio da educação, investigadores de diferentes domínios do saber têm considerado o site como seu objecto de estudo. Informáticos, educadores, sociólogos e psicólogos, para referir apenas os mais evidentes, debruçam-se sobre o site de diferentes perspectivas consoante o enquadramento teórico em que se fundamentam. Entre as interrogações mais comuns, partilhadas pelos especialistas de diferentes áreas científicas, constam a qualidade do site, o seu papel na aprendizagem de tópicos curriculares e na promoção do trabalho colaborativo, o seu significado para quem o constrói e para quem o consulta (Franco, 2002) a sua eficácia como difusor da Informação Recentemente as atenções voltaram-se para os processos de construção e sustentação do próprio site e para o e-learning suas possibilidades e limitações. 

Atendendo à curiosidade da comunidade científica pelo site como objecto de estudo, ao interesse demonstrado pelas escolas em ter um site publicado na Internet e à complexidade de alguns sites de escola actualmente disponíveis, revelando o envolvimento de alguém numa tarefa complexa que obriga ao elevado consumo de um dos “bens” mais caros aos professores – o tempo – torna-se pertinente questionar as motivações de quem se envolve nesta tarefa, as suas percepções relativamente ao papel do site e relativamente à imagem que a escola transmite através do seu site. Com base nos estudos centrados no papel educativo do site, em particular os que abordam: a sua avaliação, as suas características parte-se do pressuposto que a análise do site de escola revela a própria instituição como sendo uma janela aberta para o mundo digital e para a própria escola, ao reproduzir o sentir de uma comunidade, as práticas seguidas pelos seus membros, professores e alunos, e ao revelar as suas concepções acerca da educação, do papel da escola e do papel educativo das TIC (Franco, 2002).

A Publicação na Internet

A publicação e distribuição de material educacional na World Wide Web assim como de todo o tipo de conteúdos, tem provocado um interesse crescente, da parte dos editores em todo o mundo, em utilizar esta rede como local privilegiado de publicação das suas obras.

A escola não tem sido alheia a este crescente interesse, atendendo ao número elevado de organizações educacionais e de escolas que têm criado sites com o propósito de divulgar os seus trabalhos, o que tem originado um aumento considerável de conteúdos publicados de natureza educativa (Mernit, 1996). 

Portugal tem acompanhado com um certo atraso este movimento de publicação na Internet. 

Esta reduzida presença online portuguesa é justificada por Cadima (1999) ao afirmar que, em Portugal, o ciberespaço ainda não tomou o lugar à televisão generalista, tal como tem acontecido em outros países. Apesar de tudo, a presença em português tem vindo a crescer, atendendo não só ao aumento no número de sites portugueses como também devido à participação brasileira que é significativa. Torna-se cada vez mais provável encontrar presenças em português através dos motores de busca mais utilizados. 

A vastíssima publicação online observada nos EUA, levou os responsáveis dos distritos escolares americanos, os bibliotecários de universidades e alguns professores a publicarem guiões de orientação, destinados à comunidade escolar, para a publicação de documentos online e sua análise. Estes guiões referem-se a vários aspectos, tais como o tipo de ligações a efectuar, a utilidade do conteúdo e sua legitimidade, a autoria e a actualidade dos temas abordados. Numerosos autores como Schrock, (1998) publicaram critérios de avaliação de sites com o objectivo de promover a sua qualidade.

A diversidade dos critérios propostos revela a preocupação de investigadores, professores e demais educadores na importância de que se reveste a avaliação dos imensos recursos oferecidos na Rede Mundial. 

O Site de Escola. O Que Representa?

Se estabelecermos uma analogia, como fez Oliveira (1999), entre a noção de sítio definida na teoria de arquitectura como sendo o único lugar singular que permite um reconhecimento e uma apropriação específica que exige um trabalho de composição, caracterização e qualificação e a noção de site, então o site é um lugar singular na WWW facilmente reconhecível pela sua composição, características e qualidades.

O site de escola será o local online da escola onde se pode compreender como a comunidade educativa toma consciência da sua identidade, como integra a história do estabelecimento de ensino, como perfilha a ideia do seu desenvolvimento futuro, como actua e potencia os recursos existentes, como entra em interacção com o meio e como se adapta às solicitações internas e externas. Para isso, a concepção do site de escola exige cuidados específicos que o diferenciam de outros sites no domínio da educação. A literatura actual é muito pobre relativamente a este assunto. Contudo, no âmbito das discussões acerca da avaliação de sites começam a surgir propostas de avaliação de sites de escola. Através da análise dessas grelhas de avaliação é possível deduzir algumas características propostas por estudiosos no assunto.

Paralelamente, a publicação na WWW constitui uma experiência educacional única porque, ao dispor de uma audiência, os alunos estão mais empenhados na consecução das suas tarefas e nos produtos que delas resultam, e também porque o processo que envolve a concepção, criação e publicação envolve uma multiplicidade de actividades susceptíveis de promover competências relevantes no âmbito dos currículos actuais e das exigências para a criação da designada sociedade de informação.

Ao contribuir para o site de escola os alunos podem tornar-se produtores de conteúdos, validados pelos professores e por especialistas de instituições parceiras da escola, ao mesmo tempo que vão aprendendo a analisar criticamente e a seleccionar a informação a que têm acesso através da pesquisa que efectuam. Se experimentarem todo o processo que envolve a publicação na WWW os alunos vivenciam um conjunto de situações caracterizadas por serem autênticas.

O site de escola torna-se, assim, um projecto de colaboração entre professores e alunos, uma fonte rica de situações de aprendizagem e um recurso de conteúdos relevante para a comunidade de utilizadores da WWW. 

Fruto, possivelmente, da tradição entre os autores que usam o multimédia/hipermédia como expressão em criar metáforas que servem de contexto aos seus programas, são numerosas as metáforas utilizadas para descrever o site. Krol e Ferguson (1995), por exemplo, evidenciam a presença que se marca ao publicar uma página na Web ao referir que publicar um site corresponde a ter um cartaz pessoal no ciberespaço. Schrock (1998) sublinha o carácter revelador do site de escola ao considerá-lo como uma montra das actividades da escola, motivando os seus membros para nelas participarem. 

O site é a realidade da escola que comunica com o mundo real (Franco, 2002).
Partindo deste pressuposto, o site constitui um objecto de estudo relevante para a compreensão da escola, ao incluir conteúdos tais como: o projecto educativo da escola, seus objectivos, actividades e eventos; conteúdos resultantes dos trabalhos e projectos dos alunos e professores; materiais e recursos utilizados nas aulas; actividades extracurriculares; abordagens curriculares praticadas na escola; informações sobre horários, programas, cursos opcionais, reuniões e outros aspectos relacionados com o funcionamento quotidiano da escola; meios de contacto, colaboração e partilha para os membros da comunidade escolar e para os visitantes interessados em participar, propostas de utilização das TIC nas actividades curriculares. Contudo, não é apenas através do conteúdo publicado que a escola se revela. O modo como este se apresenta estruturado de acordo com uma tipologia de nódulos adequada, denotando domínio sobre o hipertexto, o design escolhido e a concretização técnica do site são susceptíveis de esclarecer quem está por detrás dele e como se organiza. 

A qualidade de um site de escola define-se segundo um conjunto de critérios, fundamentalmente de ordem técnica e estética, que são comuns a todos os sites e, também, segundo critérios específicos que se relacionam, basicamente, com a natureza e organização dos conteúdos e sua actualização, e com a manutenção e sustentação do próprio site.

Apesar da ausência de investigações sobre o site de escola e seu papel no seio da comunidade escolar, observa-se um número crescente de artigos e de publicações, muitas delas disponíveis na WWW, onde se propõem e discutem critérios de qualidade para o site de escola. Pressupõe-se que, da conjugação dos diferentes tipos de critérios (Franco, 2002), se clarifiquem características essenciais que devem figurar em qualquer site de escola que se pretenda efectivo, ou seja, que corresponda às expectativas e necessidades da audiência a que se destina, promovendo uma utilização sustentada do site por essa mesma audiência e outras que se lhe venham juntar.

A construção e manutenção das páginas que constituem um site processa-se, segundo diferentes autores, nas seis etapas seguintes: (1) planificação dos conteúdos; (2) escrita do texto num processador de texto ou editor HTML; (3) visualização das páginas offline; (4) colocação das páginas na Web; (5) acesso periódico às páginas para avaliar acerca da qualidade de funcionamento e actualização e (6) manutenção actualizada, conduzindo à renovação dos conteúdos e dos serviços oferecidos.

Ao pretender-se que o site de escola tenha uma audiência regular, podendo constituir-se como o suporte de uma comunidade, diferentes factores têm de ser tomados em conta de forma a encorajar o retorno do visitante, do qual se destacam: conteúdo de qualidade, informação disponível útil, serviços adequados às exigências do visitante, elevado nível de interacção, viabilizando trocas de informação e partilha de interesses, design atraente e apelativo que proporcione uma navegação fácil, entre outros factores.
A criação de um site de escola deve estar a cargo dos seus membros (professores, alunos, encarregados de educação, funcionários e outros interessados em participar) e ter como responsáveis directos os órgãos da direcção da escola, ou uma equipa de coordenação por ela designada que procede à concepção, construção, publicação, manutenção e sustentação do site. 

A manutenção do site implica que a equipa responsável proceda a uma readaptação constante relativa às condições de funcionamento da própria rede, aos processos de produção desenvolvidos pela escola e aos contactos ou colaborações dos utilizadores. Todos os elementos da escola podem e devem colaborar nesta actividade e é através da equipa coordenadora que isso se pode concretizar ao seleccionar e determinar as informações que vão figurar no site (Franco, 2002). 

Na sociedade actual, a Escola ocupa um lugar privilegiado no processo de formação de cidadãos aptos para a sociedade de informação e o site de Escola, o local no ciberespaço da Escola contribui para essa formação ao proporcionar os meios para disseminar a informação e também para a ela ter acesso. Produzir informação, por um lado, e seleccionar e processar informação por outro, constituem actividades que preparam o aluno com o espírito crítico necessário para enfrentar as múltiplas exigências de um mundo em que a quantidade de informação disponível cresce exponencialmente.

De um estudo efectuado sobre sites de escolas portuguesas (Franco, 2002) verificou-se que a imagem transmitida pelos sites de escola analisados é uma imagem ainda limitada que não traduz a complexidade e a dimensão das realizações em cada uma das escolas.
O site de escola constitui algo que se espera vir a desempenhar um papel importante não só para a escola que o publica como também para a comunidade da Internet que beneficiará dos conteúdos publicados assim como das iniciativas de discussão, reflexão e partilha propostos por cada escola.

Contudo, uma imagem mais significativa da realidade escolar tem sido transmitida, nestes dois últimos anos, através dos sites de escolas portuguesas.



Referências Bibliográficas 
Cadima, R. (1999). Desafios dos novos media, a nova ordem política e comunicacional. Lisboa: Editorial Notícias.
Franco, D.(2002). O Site como Portfólio da Escola. Ideias e Práticas de Professores. Dissertação de Mestrado não publicada. Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Lisboa. 
Krol, E., e Ferguson, P. (1995). The whole Internet for Windows 95: user's guide and catalog. Sebastopol: O'Reilly.
Mernit, S.(1996). Publishing on the WWW: what's happening today and what may happen in the future. [White Papers]. Extraído em 2 de Fevereiro de 2001 de: http://www.ed.gov/Technology/Futures/mernit.html.
Nielsen, J. (1997). Be succint! - writing for the Web. Extraído em Outubro de 2000 de http://www.useit.com/alertbox/9703b.html.
Oliveira, F. (1999). WWW arquitectura. In J. Alves, P. Campos, e P. Brito (Orgs.). O Futuro da Internet - Estado da Arte e tendências de evolução (pp. 219-228). Lisboa: Colecção Desafios, Centro Atlântico.


1. Adaptação do artigo que se encontra publicado na Revista Lusófona de Educação, 2003, 2,99-117