Revista Bimensal 
Edição 5 - Setembro 04
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proFORM R
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Professores: 
de consumidores a produtores de conteúdos


José Moura Carvalho
Instituto Camões
jmoura.carvalho@netcabo.pt


Alguns professores já não são apenas fortuitos, ocasionais utilizadores da Web, tendo-se transformado em subtis pesquisadores de informação, escolhendo criteriosamente as suas fontes e exercendo um espírito bastante crítico sobre a informação obtida.

Outros aperceberam-se que os conteúdos generalistas podem não ser adequados ao nível de conhecimentos (ou de maturidade intelectual e/ou psicológica) dos seus alunos e buscam sítios onde existam conteúdos alinhados com os interesses e necessidades específicos de uma determinada população escolar.

Ainda outros encontraram formas de motivar os seus alunos para a pesquisa de informação e seu processamento subsequente. Estes procuram na Rede modelos de actividades interactivas que auxiliem os alunos, de uma ou outra forma, na pesquisa, processamento e apresentação de informação. 

Finalmente, há aqueles – poucos, muito poucos - que, insatisfeitos com o que existe na Rede em Português, se aventuram na produção de conteúdos, acumulando conhecimentos da sua área de docência com competências técnicas que lhes permitem construir páginas ou, mesmo, sítios na Web.

O que se advoga neste texto é a passagem, por parte dos professores, de consumidores a produtores de conteúdos educativos. Feito isto de uma forma disciplinada, estruturada, concertada, seria possível, em pouco tempo, ficar-se de posse de um acervo não despiciendo de materiais pedagógicos na Web, contribuindo-se, desta forma, para transformar a escola num «não-espaço», aberto a todos os alunos a qualquer momento e em qualquer ponto do país ou, mesmo, do globo.

A - Formação Contínua de professores em Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC)
Muita formação que se faz em TIC redunda em nada: os trabalhos finais dos formandos terminam os seus dias numa qualquer disquete, CD-ROM ou outro dispositivo de armazenamento, armazenados, por sua vez, em gavetas ou dossiês empertigados, fazendo fileira na estante. Na melhor das hipóteses, os materiais que foram elaborados com a Rede em vista ficam acessíveis num esconso de um servidor que alberga um sítio cujo objectivo é dar a conhecer, sobretudo, a actividade de quem o mantém.

Para se alterar este estado de coisas, seria necessário alterar alguns dos princípios de base que subjazem a formação de professores, nomeadamente aquela que está focalizada na construção de materiais pedagógicos a disponibilizar na Web. 

1. Formação baseada em necessidades da escola (dos alunos)
Neste momento, a formação contínua de professores pretende levar em conta, e suprir, as necessidades dos professores, do ponto de vista de conhecimentos e competências profissionais. A esmagadora maioria de Centros de Formação oferece um menu – mais ou menos estruturado, mais ou menos abrangente – de acções de formação, em modalidades diferenciadas.

Como as escolas (a maior parte das escolas) não orientam os seus Projectos Educativos de Escola (PEE) por objectivos quantificáveis (por exemplo, aumentar em x por cento o sucesso às disciplinas A, B e C; ou, levando em conta que a percentagem de abandono é de x, ter como meta baixar esse indicador em 10%, por exemplo), a formação está ligada, essencialmente, às escolhas que os professores fazem nesse mesmo menu. Enquanto os PEE não «descerem à terra», a formação nunca poderá estar ligada às necessidades reais dos diferentes estabelecimentos de ensino e, mais abrangentemente, do sistema educativo.

A primeira mudança a efectuar não é, pois, ao nível da formação contínua de professores, mas a montante desta, isto é, no sistema de avaliação e auto-avaliação das escolas.

2. Formação e Apoio Sustentado
A formação deve ser levada a cabo num período de tempo relativamente curto, durante o qual, em modalidade presencial, a distância ou mista, os formandos sejam expostos a conhecimentos e competências necessárias à sua actividade profissional, os explorem e adquiram. A apropriação destes mesmos conhecimentos e competências é um processo mais demorado e implica processos psicológicos e sociais complexos, bem como experimentação e, no caso da construção de materiais, produção apoiada.

O que não parece funcionar é o modelo vigente, em que à formação nada se segue, como se o tempo, a energia, o esforço despendidos nessa actividade nada fossem, nada significassem para quem a frequentou, para a escola onde lecciona, para o sistema educativo na sua globalidade.

Para alterar este estado de coisas, seria necessário pensar um esquema de apoio aos formandos que, nomeadamente, tivessem feito formação na área da produção de materiais educativos para colocação na Rede. Só assim parece ser possível montar um dispositivo estável, sustentado, de concepção e desenvolvimento de conteúdos educativos com qualidade, pois esta apenas se adquire com prática continuada.

B - Estruturas
Existem, neste momento, Centros de Formação Contínua de Professores (CFCP) e Centros de Competência Nónio-Século XXI (CCXXI). Os primeiros têm como missão organizar, estruturar, dinamizar a formação contínua dos professores, incluindo a que tem a ver com as TIC. Os segundos são, em termos gerais, estruturas de apoio a projectos específicos de escolas na área das TIC.

Com a indefinição sentida actualmente em torno da manutenção da actividade dos CCXXI, é necessário repensá-los, bem como o papel que os professores requisitados que aí desenvolvem actividade poderão vir a desempenhar. Deve, do meu ponto de vista, evitar-se o que aconteceu após o término do Projecto MINERVA: a «liquidação» sumária das estruturas entretanto edificadas, implicando um verdadeiro retrocesso na utilização educativa das TIC nas escolas e, obviamente, uma enorme perda de recursos financeiros e humanos.

O problema fulcral aqui tem sido a aposta de sucessivos governos em projectos. Ora, estes são, por definição, delimitados temporalmente e estão no exacto antípoda de infra-estruturas estáveis, sobre as quais se podem operacionalizar programas de intervenção com objectivos claros, precisos, atingíveis. É óbvio que esta perspectiva não traz tantos dividendos políticos, não tem tanta visibilidade nos media, nem com ela se obtêm «resultados» tão rapidamente. Mas a médio e longo prazo (há outro prazo para a educação?), os efeitos não serão, de todo, negligenciáveis e o património (edificado e simbolicamente construído) permanecerá para lá das circunstâncias e condicionalismos que o tornou possível. 

Sugere-se, pois, que, após a extinção dos CCXXI – que parece inevitável – os CFCP passem a gerir equipas de apoio na área da utilização educativa das TIC nas diferentes escolas que congregam, equipas essas que poderiam integrar, entre outros, os elementos dos actuais CCXXI. Os saberes adquiridos, apurados durante estes últimos anos ficariam ao serviço das escolas, não se perdendo numa qualquer solução «inovadora», mirífica, salvadora, que não leve em conta o que já foi conquistado e o que ainda há por fazer.

C - Parcerias
Como promover e assegurar a qualidade dos materiais produzidos por professores dos ensinos básico e secundário? Como evitar que estes conteúdos sejam colocados na Rede com informação incorrecta? Como certificar que as decisões pedagógicas anteriores à produção são consentâneas com o conhecimento sobre a aprendizagem num dado momento?

Estas são algumas das questões que conduzem necessariamente a ligações estreitas entre Centros de Formação e Universidades. Muito do conhecimento científico de ponta está concentrado nas instituições de ensino superior. É aí que reside o nosso melhor pensamento educacional.

As ligações a estabelecer não devem, no entanto, ser de carácter hierárquico, de cima para baixo. Deve-se, sim, celebrar parcerias horizontais, em que cada um dos parceiros vale o mesmo que os outros. As Universidades prestariam um serviço de consultoria, numa perspectiva que pediria muito emprestado à noção de «critical friend». Todos sabemos a facilidade com que este tipo de parceira escorrega para uma relação de tipo feudal e, por isso, serão necessárias cautelas acrescidas, traduzidas na consignação de princípios reguladores que evitem processos de subalternização. Acautelados estes, parece-me uma solução excelente para a resolução dos problemas acima referidos.

D - Comunidades virtuais
Ligar professores a professores, ligar produtores de conteúdos a consultores científicos e pedagógicos: uma comunidade virtual que congregasse todos os que se viessem a dedicar a esta actividade seria extremamente útil, pois diluiria distâncias, potenciando o trabalho desenvolvido por cada um dos parceiros. Numa óptica mais ambiciosa, poder-se-ia ir mais além da mera constituição de fóruns de discussão e de chats. A construção de uma plataforma que incluísse ferramentas de trabalho colaborativo a distância poderia ser o primeiro objectivo desta comunidade virtual, em que cada um dos parceiros contribuiria com os seus próprios conhecimentos e competências.

E - Anéis na Rede (Webrings)
Um webring é uma comunidade de sítios na Rede ligados uns aos outros. Forma-se, assim, um «anel», dado que cada um dos sítios que o compõe contém uma ligação a um outro, e assim sucessivamente. O cibernauta que explorar um destes «anéis» chegará, eventualmente, de novo ao sítio onde iniciou a sua «viagem». Na esmagadora maioria dos casos, estes anéis são constituídos por sítios dedicados ao mesmo tipo de temática, explorando-a de pontos de vista distintos e assegurando uma sua cobertura mais ampla e aprofundada.

Os CFCP poderiam formar um destes anéis, envolvido, necessariamente, nas questões da formação contínua, mas também oferecendo conteúdos pedagógicos que se consolidassem mutuamente.

F - Sítios dos CFCP e das Escolas
Uma empresa transportadora encomendou a uma companhia de concepção e desenvolvimento de sítios na Rede a criação do seu próprio site. Desejava o Conselho de Administração (CA) dar visibilidade à empresa, fazer ver aos utentes, e ao público em geral, que se estava perante um evidente caso de sucesso, quiçá a emular por outros empresários do mesmo ramo. Cada um dos departamentos da empresa teria uma «fatia» do sítio, onde exporia a sua orgânica, as suas actividades, etc.

A empresa contratada estudou o caso e, após várias versões, verificou que em qualquer uma delas havia incluído o horário dos transportes oferecidos pela empresa. Os argumentos esgrimidos eram dois: (a) se os horários estivessem em linha, qualquer pessoa poderia a eles aceder, em qualquer parte, a qualquer altura; (b) seria facílimo (e rapidíssimo) efectuar as alterações que viessem a ser necessárias, ainda que pontuais.
O CA torceu o nariz: haveria um deslocamento da atenção sobre a própria empresa para um serviço por esta prestado. Após intensas negociações, o CA cedeu. Hoje em dia, esta zona do sítio é a mais acedida ou, para ser mais justo, a que detém cerca de 95% do tráfego do sítio em causa.

A maior parte dos sítios das escolas (e dos CFCP?) contém informação de carácter institucional: lê-se uma vez, leu-se para sempre... A oferta não só de conteúdos pedagógicos mas de serviços úteis ao conjunto de escolas associadas, a sua constituição em «anéis», a valorização dos projectos postos em marcha nas escolas, através da disseminação dos produtos e dos resultados obtidos, poderiam servir para aumentar sensivelmente o potencial educativo desses sítios.

As reflexões acima poderão vir a suscitar uma discussão ampla sobre estas matérias. Devem ser vistas como uma pequena pedra no charco, um seixo que se deseja agite um pouco a superfície de um lago aparentemente sereno mas de águas seguramente pouco transparentes.