Há um tempo a esta parte,
o Proformar teve a gentileza de me pedir um texto que tivesse como pano de fundo as TIC: investigação / acção / reflexão. Logo acedi em escrevê-lo, mas por motivos vários fui adiando a tarefa. Hoje, três dias antes do prazo de entrega da minha prosa (e como me é habitual) sentei-me ao computador, inquieta... abro e fecho ficheiros, procuro coisas que li, procuro coisas que escrevi, acima de tudo procuro algo que possa ser interessante para mim própria e eventualmente para quem me ler.
Vários cenários se me perfilaram: coloco dados dos estudos do DAPP
(Paiva,
2002) e (Paiva,
2003) e teço sobre eles considerações? Dou a minha visão, parcial, do estado da arte das TIC? Centro-me em possibilidades várias de reflexão sobre as TIC, ou parcial por parcial e assumindo alguma polémica, proponho-me e proponho-vos pistas de possíveis reflexões que tocam as TIC, mas estão muito para além delas?
Optei pela última opção e explico porquê: os dados dos estudos são públicos e estão disponíveis; de pouco valeria esmiuçá-los de novo (resumo dos estudos em
Anexo 1). A minha visão do estado da arte seria muito parcial pois não sou, por certo, dela assim tão conhecedora. No que toca às possibilidades de reflexão, sobre as TIC/comunidade educativa, sinto que cada vez mais correm o risco de se circularizar, viciando-se.
Não podemos ser simplistas a real integração das TIC, tantas vezes centrada quase em exclusivo nos professores, nas disciplinas no apetrechamento informático da Escola, está de facto contida num todo muitíssimo complexo, dependente de inúmeras variáveis que incluem, entre outros: professores, alunos, infra-estruturas informáticas da escola, meio sócio-económico-cultural das famílias dos alunos, outros agentes educativos, diferenças e motivações individuais e sentimentos da mais variada índole. Descrita esta convicção sinto que seria leviano dar muitos palpites Acredito que será a partir da análise das relações entre estas variáveis, em cada escola, que poderemos progredir num melhor uso das TIC por parte de alunos e professores e da restante comunidade educativa. Eu própria fui amadurecendo esta postura, pensar o todo e assumir que ele é sempre mais do que a soma das partes, tal como assumir o logro que é ‘ver’ as realidades (nossas e do mundo) com os olhos dos nossos antepassados. A este propósito não resisto a remeter-vos para um pequeno texto sobre o que postula (um autor que gosto muito) Peter Senge1 (1990) sobre esta forma de pensar o mundo, as coisas, os outros e nós próprios
(Anexo 2).
A esta altura já me encontro a trilhar o último caminho que se me perfilou. Uma linha de pensamento quiçá, mais tortuosa e/ou polémica. Proponho-me viajar dentro de mim própria como ser humano e pôr em comum convosco as luzes e as sombras, as cores e as transparências, na tentativa de, conhecendo-me melhor, melhor poder compreender os outros, e, sobretudo, a instituição Escola que mais não é que um conjunto de nós e de outros.... Pensar sobre os entraves, as barreiras, os “nãos” e as reticências para nessa medida melhor agir. A realidade, seja ela individual e/ou colectiva, é complexa. Nada é simples nem se rege por lógicas duais.
No caso particular da Escola, enquanto comunidade de ‘eus’ o perigo de tratamentos uniformes, de apostas em linhas de montagem tipo “entra aluno+TIC sai alunoTIC”, são enormes... e esta é provavelmente e minha primeira pista de reflexão, há uma dialéctica fulcral entre a inovação pedagógica e as TIC: as TIC podem inovar a escola mas a escola dificilmente poderá incorporar as TIC, se não se abrir à inovação!
Mas como inovamos? Tantas vezes por imitação. Inovar não é universalizar uma prática que se revelou frutuosa. Inova-se circunstanciando quer pessoal quer institucionalmente. Aquilo que é bom para mim e que produz óptimos resultados pode ser péssimo para um outro...
Introduzir as mudanças de acordo com as pessoas e não ‘criar a mudança’ para depois lá encaixar as pessoas... Este aspecto remete-nos para os projectos de escola, para a autonomia e para a responsabilidade dos agentes educativos, que aumenta substancialmente quando se actua deste modo, que é urgente resgatar e pelo qual vale a pena dar alta voz.
Uma segunda pista, como pensamos e pomos em prática conceitos, que creio para todos nós unânimes, de aprendizagem, colaboração, comunidades de aprendizagem.
Olhar para dentro de mim, para fora de mim, para dentro dos outros, para as coisas e situações e integrar tudo isso no meu ser, será aprender... mas, o só será verdadeiramente, se também envolver a prática do diálogo e gerar fluxo e partilha de ideias entre as pessoas. A aprendizagem torna-se assim num processo criativo para cada um e para o grupo. Deste modo, o mundo, a escola, a família e o próprio sujeito da aprendizagem não são entidades estanques e distintas que comunicam de forma pontual e descontextualizada, mas antes entidades interdependentes e dinâmicas, constituintes fundamentais de uma mesma comunidade (de aprendizagem) que situa, contextualiza e fundamenta o desenvolvimento do cidadão, permitindo ao homem co-criar e co-partilhar o seu presente e o seu futuro.
Como estamos a efectivar na escola os conteúdos e os contextos que permitem proporcionar as condições e o ambiente para a aquisição de saberes e competências, bem como o crescimento pessoal, a reflexão, a abertura de horizontes, em suma “o aprender a conhecer, o aprender a fazer, o aprender a viver juntos e o aprender a ser” (Delors, 1996, pag. 77)2?
A esta altura estareis por certo a pensar que nada disto faz sentido e, pior, nada tem a ver com TIC. Pelo contrário, afirmar-vos-ei que tudo tem a ver com tudo... e a revolução das TIC só será provavelmente uma evolução, lenta, mas desejada. Doutro modo ela é artifício, é obrigação e rege-se, por uma agenda, calendário, manual... de forma surda e cega como tantas vezes cada um de nós se rege neste ou naquele aspecto do seu funcionamento consigo e com o mundo...
Não comecei por ser eu a dizê-lo, ouvi-o de outro, mas rapidamente me fascinei pelo conceito: a grande beleza das TIC é permitir aos homens e mulheres estar mais perto, à distância de um clique, é cortar, colar, construir... com rapidez, é ler, ver, viajar para fora e para dentro de si, rápida e confortavelmente... e acima de tudo poder partilhar mais depressa, tempo, palavras, dinheiro, atenção, trabalho...
Um computador é tão melhor quanto eu experimento estas possibilidades de maior e mais estreita relação com os outros e com o mundo. Doutro modo é, tão só, mais um artefacto que uso, porque todos usam, porque tem se ser, porque é obrigatório senão não subo no emprego, porque perco estatuto...
A terceira proposta de reflexão vai neste sentido: como transmitir este sentir à escola, aos alunos, aos pais? Não usar o computador para o falso e moderno álibi da excelência... mas pelas reais possibilidades de relação com as pessoas, coisas e mundo, que a máquina permite. Esta, como outras tantas coisas, só se passa quando se vive e sente. Dito de uma forma prosaica, passa-se pelo exemplo... E o exemplo não está de certeza na maneira como dependo do portátil, do notepad, da Internet, como ostento bytes, mas na humanidade com que vivo cada coisa seja ela computador ou não.
Estamos continuamente a pedir mais à Escola, mais aos professores, mais aos funcionários, mais aos alunos, mais a nós próprios. Seria o caso de começarmos a pedir à Escola e a nós outra coisa para além de mais, pedir diferente... Um diferente que pode conter alguns mais. Em educação, pedir diferente em lugar de só pedir mais é dispormo-nos a apontar, para nós e para os nossos alunos e/ou educandos, caminhos ao invés de soluções.
Termino com uma analogia comparando o futuro das TIC em Educação com as férias (não assim tão distantes). As férias são tipicamente momentos de mudança. Mesmo que seja só um fim-de-semana, um dia... Imaginemos que vamos viajar. O simples facto de querermos ir, implica preparação, decisão, bagagem (sejam malas ou um casaco para se arrefecer), escolha de itinerários, de destinos, marcação de datas, e por aí fora... Isto leva tempo. Tipicamente as férias são também desejadas pelos próprios, bem com projectadas de acordo com as necessidades, gostos e possibilidades de quem vai viajar. Por isso não há destinos universais, mas sim férias mais ou menos estonteantes, férias possíveis ou ainda férias projectadas. Também as TIC na Escola precisam de ser preparadas e planeadas...
Comecemos dentro de nós... que coisas me recuso a ‘ver’, que medos, que constrangimentos me impedem de com os meus alunos desbravar um caminho novo e diferente?
Se ousar partilhar o que sinto descobrirei que o meu sentir é igual ao de tantos e mais coisa menos coisa todos temos medo de errar, de ficar expostos ao ridículo, de não controlar a situação...
Se não ousarmos crescer não saberemos oferecer a outros, reais oportunidades de crescimento.
Notas
[1]
Peter
Senge é director do Centro de Aprendizagem Organizacional do
MIT (Massachusetts Institute of Technology) e
publicou em 1990 o best seller intitulado “The
Fifth discipline: the Art and Practice of Learning
Organization”. Posteriormente publicou, em co-autoria, entre outros:
“The Dance of Change” e “Schools that Learn”, onde
adapta o seu conceito de “learning organization” às
escolas. Os dois primeiros títulos encontram-se também em
versões de português do Brasil e o último existe em versão
espanhola.
[2]
Delors, J. et al., 1996. Educação um Tesouro a
Descobrir. Edições ASA, Portugal