Revista Bimensal 
Edição 5 - Setembro 04
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proFORM R
online

 




Os alunos, a Internet e a Escola: 
c
ontextos organizacionais, estratégias de utilização


Sofia Viseu
sviseu@fpce.ul.pt
Faculdade de Psicologia e de Ciências
da Educação, Universidade de Lisboa


Como é que os alunos utilizam a Internet na escola? E o que explica as modalidades de utilização? Estas são algumas das questões centrais de uma investigação realizada no âmbito de um Mestrado em Ciências da Educação, na área de especialização em Administração Educacional, recentemente publicado.

O trabalho incidiu sobre os contextos onde a Internet está disponível na escola, os centros de recursos educativos (CRE), e as acções estratégicas dos alunos em torno das utilizações. Assim, a investigação procura dar conta de alguma originalidade nas abordagens do estudo da utilização da Internet em contexto escolar.

Aqui ficam, muito sinteticamente, algumas das referências que orientaram o estudo e dos resultados obtidos, nomeadamente no que se refere à utilização da Internet por parte dos alunos, esperando assim contribuir para a reflexão e a acção dos leitores da revista Proformar Online.


1. O estudo do contexto social da utilização da Internet na escola
O quadro teórico que guiou a investigação teve por base duas dimensões de análise: a dimensão social e política e a dimensão educativa. A primeira é contextualizada num quadro social mais vasto legitima a introdução das tecnologias da informação e comunicação (TIC), situa-se no estudo das políticas locais ao nível de cada escola quanto à finalidade da utilização da Internet. A segunda foi construída à luz das características da Internet e da sua função no trabalho escolar e pedagógico de alunos e professores.

1.1. A dimensão política e social da utilização da Internet na escola
Não pretendendo demorar-me neste tópico no que diz respeito às motivações políticas de nível nacional sobre a introdução da Internet nas escolas. Importa apenas lembrar que em Portugal esse processo teve o seu início decisivo com o lançamento de um programa de âmbito nacional em 1994 denominado Internet nas Escolas, sob a cancela do Ministério da Ciência e da Tecnologia, que visava dotar todas as escolas do ensino público e privado do 5º ao 12º ano de escolaridade numa primeira fase, e ao 1º Ciclo numa segunda fase, de um computador multimédia com ligação à Internet em todas as bibliotecas escolares.
E o facto da Internet ter sido preferencialmente ligada nas bibliotecas escolares, que assumem também a designação centros de recursos educativos (CREs), é assinalável. De facto, estes locais foram privilegiados no estudo, não só por naturalmente serem os espaços onde existe a ligação à Internet, mas também e sobretudo, por serem espaços que desafiam a organização pedagógica tradicional da sala de aula, assumindo-se assim como contextos educativos potencialmente inovadores em relação à tradicional unidade de acção, tempo e espaço (Canário, 1993). 

No entanto, e apesar do seu potencial inovador, as práticas escolares assumem características diferenciadas em cada estabelecimento de ensino, assim como a organização e gestão dos CREs, sendo daí possível vislumbrar as políticas da escola no que diz respeito à utilização da Internet. E estas políticas ganham maior visibilidade quando se analisam, quer do ponto de vista da sua intenção quer do ponto de vista da sua execução, as modalidades e normas de utilização da Internet estabelecidas para os utilizadores. 

1.2. A dimensão educativa da utilização da Internet na escola
Tem sido amplamente discutido o papel da Internet na escola tanto à sua contribuição para a melhoria do ensino e da vida escolar. As posições por vezes extremam-se e assumem-se como contraditórias: os tecnófilos são acusados de apenas encontrarem maravilhas e potencialidades da utilização da Internet pelos tecnofóbicos que, por sua vez, são apontados como demasiado cépticos quanto à utilização das TIC. Existe ainda uma terceira corrente que pouca ou nenhuma importância atribui a este novo recurso, considerando que, de certa forma, a história da inovação em educação é feita de poucos sucessos, para não falar em fracassos.

Ora aqui nem se trata de defender nenhuma destas posições; se é certo que a descrição de cenários em que o aluno assume um papel mais activo na aprendizagem, em que a colaboração com colegas e a avaliação da informação se tornam aspectos caracterizadores de uma nova lógica pedagógica é cada vez mais comum, também é certo que nem todas as escolas possuem um número de ligações suficiente face à população escolar, que alunos e alunas utilizam as TIC de forma diferenciada, que a quantidade de informação disponível levam a fenómenos de sobrecarga cognitiva ou de perdido no espaço...

O que é mais significativo neste debate vem de uma outra corrente de opiniões, que enfatiza um dos factores mais determinantes no debate em torno da utilização da Internet na escola: a mudança e da inovação. Não pretendendo também aqui demorar-me, convém tecer alguns comentários que ajudam a clarificar a natureza do estudo em curso.

O primeiro comentário está associado ao carácter contingente da gestão: a dificuldade em planear a mudança advém do facto de não existir uma “forma ideal para a gestão”, nem “nenhuma receita universal ou solução milagrosa pronta a usar que possa garantir o êxito em todos os casos” (Friedberg, 1993, p. 331). 

O segundo comentário contraria a visão de que há “escolas resistentes à mudança”, sendo importante frisar que as organizações não existem por si; o que existe são pessoas, e por isso o que está em causa, para quem se preocupa com estes fenómenos, é a compreensão da mudança pela “interpretação e na análise da experiência das pessoas na escola” (Greenfield & Ribbins, 1993, p. 20).

Pela mesma ordem de ideias, a inovação das práticas educativas que se espera atingir com a utilização das TIC, poderá ser ainda uma incógnita. Se colocamos o enfoque no estudo sobre a compreensão dos fenómenos organizacionais nas percepções e acções dos indivíduos em contexto, o desenvolvimento de uma inovação passa pela mudança dessas percepções e acções e, sobretudo, na capacidade dos indivíduos em aprender, em conjunto, a lidar com a mudança como componente natural do seu trabalho (Fullan, 1995).

Nesse sentido, a expectativa criada em torno da mudança que se poderá operar com a utilização da Internet está condicionada pelas acções que localmente forem desenvolvidas pelos actores educativos, e por isso, o estudo da utilização da Internet na escola passa também pelo estudo dos contextos sociais em que essa utilização ocorre.

Assim, o olhar teórico escolhido para o estudo parte do princípio que cada actor educativo realiza um cálculo estratégico de oportunidades e constrangimentos em relação ao contexto em que opera. O que se procura então é descrever e compreender o cálculo realizado pelos alunos quando recorrerem à Internet no contexto escolar. Será baseado numa lógica de integração, utilizando a Internet como uma obrigação social ou escolar? Será baseado numa lógica estratégica, servindo-se da Internet em função dos seus objectivos pessoais? Ou será ainda uma lógica de subjectividade, de conciliação entre seus interesses pessoais e o trabalho escolar? (Dubet, 1993). 

2. Breve descrição da metodologia seguida
A investigação assumiu uma abordagem geral de carácter qualitativo, tendo sido escolhida como estratégia o estudo de caso múltiplo. Esta opção metodológica considerou-se a mais adequada, no sentido em que permite simultaneamente a compreensão interna dos fenómenos nos seus contextos, representadas num estudo de caso, e adquirir uma certa exterioridade sobre os fenómenos estudados, exigida pelo acto da comparação. 

Foram envolvidas três escolas da Área Metropolitana de Lisboa e o trabalho empírico decorreu entre Novembro de 1999 e Junho de 2000, tendo sido mobilizadas as seguintes técnicas de recolha de dados: 

  • Observação das situações de utilização da Internet por parte dos alunos, considerando a falta de dados empíricos destes fenómenos (Caftori & Paprzycki, 1998).

  • Inquérito por questionário a todos os alunos utilizadores da Internet no sentido de caracterizar as modalidades e perfis de utilização (que alunos utilizam a Internet, que actividades desenvolvem, em que tempos e com que objectivos,...) 

  • Recolha documental de projectos educativos, projectos ou plano de actividades dos CREs, o regulamento ou normas do seu funcionamento,... 

  • Entrevistas dirigidas a três grupos de interlocutores privilegiados: as equipas de professores responsáveis pelos CREs, alunos e professores utilizadores da Internet no CRE, com objectivo de compreender as suas concepções sobre as modalidades de utilização da Internet observadas e como concebem a sua utilização pedagógica. 


3. Principais resultados

3.1. Como utilizam os alunos a internet na escola?
De acordo com os dados obtidos foi possível concluir que um pequeno número de alunos utiliza a Internet em relação ao global dos alunos da escola (o valor não atingiu os 10% nos três casos). Acresce-se ainda que, desse reduzido número de alunos, uma pequena percentagem utiliza a Internet com fins escolares, tal como é possível observar no quadro 1. 


Quadro 1- Finalidades na utilização da Internet por escola

 

Utilização Escolar

Utilização não escolar

 

Com intenção prévia na utilização

Sem intenção prévia na utilização

Com intenção prévia na utilização

Sem intenção prévia na utilização

Escola verde

7,7%

0%

80,2%

12,1%

Escola Azul

9,0%

0,7%

81,3%

9,0%

Escola Branca

25,9%

0,9%

63,4%

9,8%


3.2. O que explica estas modalidades de utilização?
Um dos elementos mais expressivos que emergiu nos discursos dos alunos entrevistados consistiu no balanço estratégico que produzem em torno das vantagens e desvantagens que encontram para a utilização escolar da Internet. A natureza das dimensões que envolvem esse balanço constitui um importante elemento explicativo sobre as modalidades de utilização observadas.

Nesse balanço estratégico emergiram quatro dimensões sobre as quais os alunos reflectem quanto às vantagens e desvantagens que encontram: os modos de gestão dos CRE, as características da Internet, o trabalho dos professores e, finalmente, a relação estabelecida com o trabalho escolar. 

  • modos de gestão dos CRE – para a generalidade dos alunos, as características dos CRE surgem antes como um factor decisivo para justificar as modalidades de utilização observadas, nomeadamente ao descreverem estes como espaços pouco propícios ao desenvolvimento de trabalho escolar recorrendo à Internet. Por um lado, apontam a qualidade deficitária das ligações e a falta de manutenção especializada dos equipamentos informáticos; de facto cerca de 41% dos alunos afirma ter tido dificuldades durante a sua utilização. As regras de utilização estabelecidas pelos CREs também emergiram como inibidoras da utilização escolar nomeadamente pelo limite de tempo estabelecido para cada utilização: “fazer a pesquisa, ler a informação seleccionar a informação... (...) não é em 30 minutos que se faz”. E esta limitação acaba por produzir um efeito perverso: “não vou desperdiçar o pouco tempo que tenho aqui na escola para procurar coisas para a escola. Vou usar é para encontrar aquilo que eu quero, do meu interesse pessoal, sem estar relacionado com a escola”. Finalmente os alunos referiram a falta de apoio e o estímulo efectivo nestes espaços para a utilização escolar da Internet, nomeadamente ao nível da formação do pessoal que lá trabalha. 

  • as características da Internet – se os alunos apontaram um conjunto de vantagens na utilização escolar da Internet, nomeadamente na quantidade e qualidade da informação, logo acrescentam que isso também poderá ser uma desvantagem porque “é preciso é ter a paciência de estar a ler tudo. Muitas vezes como é em inglês, enfim...”

  • o papel dos professores – os alunos referiram ainda o afastamento dos docentes no que se refere à utilização da Internet; apenas entre 3% e 5% dos professores aconselharam uma pesquisa na Internet durante o período de observação. De acordo com a opinião dos alunos este afastamento explica-se quer pelo desconhecimento dos professores sobre a Internet, quer pelo receio de perder o controlo da informação, quer ainda porque existe pouca vontade em alterar métodos de trabalho instituídos: “O professor (...) tem o seu trabalho, dá-se bem com o seu método, está habituado ao seu método, e se calhar a sua ideia é que se deu resultado até agora, porque é que não há-de resultar mais uns aninhos?”

  • a relação estabelecida com o trabalho escolar - finalmente, os modos de utilização da Internet foram explicados pelos alunos de acordo com a sua própria perspectiva do seu papel enquanto alunos. Por um lado, utilizam a Internet na procura de melhorar os seus desempenhos escolares, tirando partido da maior autonomia que adquirem e sublinhando a vantagem de diversificar a sua experiência escolar. Por outro lado, recorrem à Internet para realizar o que já fazem com maior rapidez (o caso de copiar conteúdos é o exemplar neste domínio) ou para tornar a sua vida escolar mais interessante (realizando actividades de interesse pessoal). 


4. Algumas pistas para reflexão
A organização e gestão dos contextos privilegiados para o estudo da utilização da Internet, os CRE, e as características da Internet não explicam, por si só, as modalidades de utilização observadas, nomeadamente no que se refere à falta de mobilização pedagógica em torno da Internet. Apesar da relevância que os alunos atribuem a estas duas dimensões, importa sublinhar o sentido estratégico dos actores em cada contexto particular para compreender a utilização deste recurso potencialmente educativo, o que implica uma certa relativização quanto às efectivas possibilidades de mudança decorrentes da utilização da Internet. 


5. Referências bibliográficas
Caftori, N. & Paprzycki, M. (1998). The desing, evaluation and usage of educational software. On-line: http://www.webcom/journal/caftori.html (09-06-98).
Canário, R., Barroso, C., Oliveira, F. & Pessoa, A. (1994). Mediatecas escolares- génese e desenvolvimento de uma inovação. Lisboa: Instituto de Inovação Educacional.
Dubet, F. (1996). Sociologia da experiência. Lisboa: Instituto Piaget.
Estrela, A. (1990). Teoria e prática de observação de classes- uma estratégia de formação de professores. Porto: Porto Editora.
Friedberg, E. (1993). O poder e a regra- dinâmicas de acção organizada. Lisboa: Instituto Piaget.
Fullan, M. (1995). Change Forces- probing the depths of education reform. London: The Falmer Press.
Greenfield, T. & Ribbins P. (1993). Greenfield on educational administration. London: Routledge.
Schofield, J. (1997). Computers and classroom social processes- a review of the literature. Social Science Computer Review, vol. 15, n.º 1, pp. 27-39.
Selwyn, N. (1997). The continuing weakness of educational computing research. British Journal of Educational Technology, vol. 28, n.º 4, pp. 305-307.
West-Burnham, J. (1994). Management in educational organizations. Tony Bush & John West-Burnham, (ed). The principles of educational management. Essex: Longman, pp. 9-32.
Yin, R. (1998). Case study research- desing and methods. Newbury Park: Sage Publications.