Cruzo-me de vez em quando com antigos companheiros de trabalho, do tempo em que trabalhava na indústria e, entre outras perguntas e respostas, lá vem a sagrada questão:
"então e agora o que é que fazes?" e eu muitas vezes gracejo dizendo que sou vendedor.
Ficam admirados: "tu, vendedor?"; não me estão a imaginar de "farda-fato e gravata" a impingir um produto estrangeiro qualquer (sim porque produtos nacionais já quase não há, compra-se tudo feito, como no tempo do dinheiro das especiarias da Índia, do ouro do Brasil, do marfim, cacau, café, açúcar e diamantes das colónias de África).
"Então o que é que vendes?" e eu respondo que vendo um produto que quanto mais o vendo mais recheado fica o meu armazém.
"Lá estás tu com indirectas, a obrigar a malta a pensar; vá, diz lá o que é que fazes...) e então explico que vendo conhecimentos e/ou interpretações nas áreas da Economia e da Matemática e, explicitando melhor, que tenho estado ligado ao Ensino e à Formação Profissional (desde 1994).
"Fica-te bem! Já lá na fábrica andaste a dar aulas e formação, não foi?.."
é o que invariavelmente me dizem, por estas ou por outras palavras.
Eu também acho que me fica bem e sinto-me bem a fazê-lo, sobretudo nesta actual relação com adultos, em que não estou propriamente a ensinar coisas novas mas a ajudar a juntar melhor as peças dispersas, a recordar conhecimentos adquiridos mas pouco usados e, no caso da transmissão de informações novas, a ajudar a encontrar o (ou os) ficheiros onde elas se devem encaixar, porque estão com aqueles relacionadas.
Na contracapa dos materiais didácticos que produzi para as "Acções S@bER+" escrevo : "Como diz o velho ditado, o saber não ocupa lugar; da mesma forma, saber mais também não ocupa mais lugar, uma vez que nem sempre significa aprender algo de novo, mas sim arrumar melhor o que já se sabe, estabelecendo novas relações entre saberes que se encontravam isolados na memória."
Afinal o que melhor há a fazer para arranjar mais espaço na mioleira é reflectir sobre as informações recebidas, relacioná-las com outras já adquiridas e sistematizá-las.
Aproveito sempre, quando estou a dar formação na área da informática, para relacionar a estrutura da informação contida no computador (que, tal como outras coisas e conceitos, foram criados à nossa imagem e semelhança) com a nossa mente. Logo no "menu iniciar" encontra-se uma "prateleira" que dá acesso directo aos ficheiros recentemente utilizados. Chamo então à reflexão, principalmente com os formandos menos novos, sobre o tipo de aprendizagem que fizemos na escola primária (assim como em todo o tipo de aprendizagem escolar) que consistia em armazenar quantidades enormes de informação; dessa informação, a que não foi sendo utilizada com relativa frequência, foi sendo esquecida; pergunto pelos rios, pelas montanhas, pelas linhas de caminho de ferro, pelo aparelho digestivo e saliento que só os conhecimentos mais usados é que estão "na ponta da língua" e aí é que a "Ritinha", (moça da minha idade) funcionária da Escola Secundária de Cacilhas-Tejo, me quis "fintar": "Mas eu sei as montanhas todas de Portugal, seguidinhas de norte a sul" e recitou-mas. Então eu, para além de felicitá-la
disse-lhe: "Mas isso, minha querida, está nos "Documentos" do "Menu Iniciar", ou seja, é treinado com muita frequência...
"Essa agora: então tu também dás aulas de informática?" pergunta-me um ou outro, dos que nunca me reconheceram como "Bytinho".
"Não pá, o que eu faço é ajudar a "desfragmentar o disco" a todas e todos os que me passam pelas mãos, quer na área da Matemática para a Vida, quer na área das Tecnologias de Informação e Comunicação, quer na da Cidadania e Empregabilidade."
"O quê?, repete lá...". Lá tenho que explicar outra vez, nomeadamente isto da "empregabilidade", que nem os computadores sabem o que é; já experimentei a escrever a palavra em vários computadores e aparece-me sempre sublinhada a vermelho.
Se eu fosse outro qualquer diria "é assim:..." e desbobinava o que tivesse a dizer e, com o
"é assim:" da entrada não restariam dúvidas sobre o que eu dissesse; mas eu sou eu e não vou atrás do
"é assim", tal como não fui atrás do "portanto" nem do "pronto", nem de outras frases e conceitos tidos como certezas.
E não me cansa explicar que o "poder", finalmente, reconhece (ou convém-lhe reconhecer) que há diversos processos de aprendizagem ao longo da vida (tão válidos como o processo formal, escolar) e que essas aprendizagens poderão dar origem ou reflectir-se em "competências".
É que eu trabalho actualmente num Centro de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências, sedeado na Escola Secundária do Monte de Caparica, a paredes meias e outras meias com Centro de Formação de Professores de Almada Ocidental - PROFORMAR. Aqui desempenho as funções de Avaliador/Formador.
A tarefa primeira do CRVCC é de "bisbilhotar" o que é que, cada adulto que se apresenta, fez ao longo da sua vida e o que dessa vivência se metamorfoseou em conhecimento ou competência. Essas competências vão ser comparadas e aferidas junto do Referencial de Competências Chave, que é uma espécie de panorama de elementos caracterizadores do perfil desejado do cidadão-trabalhador da sociedade industrializada e de democracia-formal. Este Referencial assenta em três áreas de competências envolvidas por uma quarta, designadamente Linguagem e Comunicação, Tecnologias de Informação e Comunicação, Matemática para a Vida e a envolvente Cidadania e Empregabilidade.
Se o adulto se configura enquadrado num dos níveis do Referencial, é-lhe certificada uma equiparação ao 4º, 6º ou 9º ano de escolaridade que, para todos os efeitos, constitui uma equivalência académica àqueles níveis de ensino. Corresponde ao que, minimamente, o indivíduo teria sido capaz de completar com sucesso, a nível escolar se, por qualquer motivo sócio-económico-cultural (ou outro), não tivesse interrompido o processo aprendizagem formal.
Se a “bagagem” do candidato à certificação, se mostra deficiente numa ou em várias das áreas de referência, então são-lhe propostas acções de formação complementar que o aproximem do perfil padronizado.
No fundo o que se está a avaliar é se o indivíduo é um cidadão que está minimamente atento ao que se passa socialmente à sua volta, se é capaz de interpretar e/ou transmitir (oralmente e por escrito) opiniões críticas, fundamentadas, sobre diversos temas da actualidade (sem ser necessariamente um especialista mas também não o tipo de indivíduo que diz o que pensa que pensa, sem pensar no que diz). Se utiliza ou sabe utilizar as modernas tecnologias de informação e comunicação, designadamente os meios informáticos e os seus instrumentos/ programas/facilidades mais usuais; se aplica raciocínios lógicos na resolução de problemas de índole quantitativa relacionados com a sua vida económica, social ou profissional, se tem sensibilidade para a geometria dos planos e dos espaços, das suas dimensões e respectivas unidades de medida, se é receptível à aprendizagem da utilização de novas ferramentas e técnicas e à prática da pesquisa de informação.
Este processo, ao ser tratado com rigor e flexibilidade, sem paternalismos, sentimentos de caridade nem facilitismos, é um processo de justiça social e terá uma duração variável de indivíduo para indivíduo. Não deverá, no entanto, ser entendido como um "curso acelerado para a obtenção do 9º ano", como já ouvi dizer.
Neste processo enriqueço constantemente o meu stock de conhecimentos e experiências a transmitir, melhoro as metodologias, encontro novas formas e termos para me fazer entender (porque nem todos entendem pela mesma via), melhoro e diversifico os instrumentos de diagnóstico, compreendo a existência de dúvidas em questões que me pareciam indubitáveis, descubro modos de lidar com o computador tão diferentes do modo como eu opero, descubro raciocínios que, partindo de premissas diferentes levam às mesmas conclusões que as minhas e raciocínios do mesmo tipo que os meus, que chegam a conclusões diferentes, porque as premissas também o são.
Mas o que me roe por dentro, neste lidar diário com segmentos de gente tão
competente, em grande parte no desemprego, (daí nem os computadores perceberem bem o que é isso da empregabilidade) é ouvir falar da nossa falta de competitividade e da insistência em solucionar este problema através da baixa do salário real dos operários e restantes assalariados, quando a questão da competitividade assenta fundamentalmente na qualidade e formação dos empresários, na organização das empresas e no ratio capital técnico / capital humano (ou vice-versa), no estímulo dado aos operadores, no exemplo vindo de cima.
Não me esqueço no entanto de ressalvar que já nos têm passado pelo Centro, pequenos empresários de grande valor, assim como trabalhadores que nem por isso...
Sim, sinto-me bem a fazer o que faço e a contribuir para que outros se sintam melhor, e que, na medida do possível, se tornem cidadãos mais atentos e intervenientes; porque nisto do desencanto económico, político e social somos todos um misto de vítimas e culpados, não por via do voto, pois cada um tem e deverá defender o direito de continuar a ter, a liberdade de votar de acordo com a sua consciência, mas por via da intervenção cívica, que está muito arredada da nossa cultura.
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