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A Utilização da Internet como Recurso Educativo:
criação, selecção e organização de conteúdos no sítio
"Mil Saberes"
Imaginemo-nos numa sala de aula bem equipada com computadores ligados à Internet, em que o professor fornece um tema de pesquisa sobre o qual os alunos devem efectuar um trabalho. O mais provável é que alguns alunos façam uma pesquisa geral pelo tema, encontrem dezenas ou centenas de apontadores referenciados e passem, depois, grande parte do tempo a tentar verificar a utilidade e a importância das primeiras páginas da lista fornecida pelo pesquisador (motor de busca). Com certeza, muitas das páginas encontradas contêm termos semelhantes aos procurados, mas nada têm a ver com o pretendido. Outras têm referências breves ao tema, mas poucos ou nenhuns conteúdos relevantes para a actividade proposta. Outras ainda contêm informações importantes, mas demasiado complexas para o nível de escolaridade dos alunos. Poderá até acontecer que algumas das páginas encontradas contenham informação incorrecta! Com alguma sorte, alguns dos alunos encontram uma ou duas páginas adequadas ao seu nível de escolaridade e de literacia, analisam a informação, seleccionam a que lhes pode ser útil e transferem essa informação para a folha de trabalho.
Entre os alunos que fazem a pesquisa, haverá alguns que entretanto abriram um programa de IRC e iniciaram uma conversa com amigos ou desconhecidos, outros que iniciaram o descarregamento de uma aplicação, uma imagem, uma música, e que se distraem do objectivo da actividade proposta. Depressa se esgotou o tempo disponível para a actividade e, nesta situação, os resultados dificilmente atingem os objectivos pretendidos pelo professor.
Este panorama assusta muitos professores e inibe-os de pensar na utilização da Internet como recurso educativo. Contém muitas distracções, consome muito tempo, implica uma disciplina pessoal muito elevada, enfim, é um recurso que professores e alunos têm dificuldade em racionalizar e rentabilizar.
Nalgumas vezes, porém, a pesquisa produz os frutos esperados. Segue-se então uma nova fase, relacionada com a utilização dos conteúdos. Desde o simples e fácil copiar/colar, com pouca intervenção dos alunos em termos de análise e reflexão sobre os materiais encontrados, até à análise criteriosa da quantidade e qualidade da informação pesquisada, vai um longo caminho de avanços e recuos, de cópia e colagem, ordenação de textos mais ou menos coerentes, com maior ou menor intervenção do utilizador, obtenção de imagens, impressão do trabalho. Em suma, uma infinidade de operações que nos consomem um tempo precioso, tempo esse que, por vezes, é roubado à pesquisa, validação e selecção da informação.
Por fim, existem situações em que é necessário completar a informação obtida na Internet com dados adquiridos através de outros meios, seja na sala de aula, seja através livros utilizados e, além disso, elaborar uma página com os resultados de todo este trabalho, para apresentar como produto final. Esta actividade implica obter conhecimentos sobre a utilização de processadores de texto, programas de tratamento de imagem, editores html, regras básicas de apresentação e, por vezes, até conhecimentos sobre colocação da informação na rede. Novamente, a questão do tempo necessário é crucial para a concretização desta fase do trabalho.
Este panorama imaginário, que pode ser reproduzido fora da sala de aula, serve apenas de pretexto para reflectirmos sobre a complexidade, diversidade e quantidade de actividades que é necessário desenvolver quando se utiliza a Internet, nas diversas vertentes permitidas pelos recursos que ela nos fornece.
Pensar todas estas actividades sem uma participação activa e interventora dos professores torna impossível a sua utilização. Nesta perspectiva, o professor assume um papel fundamental de orientador, fornecendo regras de trabalho, informações básicas de utilização da informação e de adaptação dessa informação ao nível de escolaridade dos alunos. Há que adequar ainda estas actividades ao programa curricular, não esquecendo nunca os objectivos definidos pela planificação previamente elaborada. Mas também os alunos, independentemente do seu nível de escolaridade devem, cada vez mais, estar atentos à complexidade da pesquisa de conteúdos na Internet e ao rigor exigido nessa pesquisa. È fundamental que todos os agentes educativos se apercebam que a Internet, biblioteca quase inesgotável, obriga a comportamentos e conhecimentos suplementares.
Para além do contexto sala de aula, é de destacar a utilização da Internet enquanto actividade extra-curricular. De facto, esta tem sido a dimensão onde mais se tem desenvolvido a utilização das Tecnologias de Informação e Comunicação que, numa primeira fase, tiveram muitas dificuldades em entrar nas salas de aula. A utilização lúdica da Internet, sendo fundamental nos níveis iniciais de escolaridade, desempenha um papel extremamente importante ao longo de todo o percurso escolar, contribuindo muito para que professores e alunos dominem cada vez melhor este recurso. A utilização mais ou menos informal da Internet permite desenvolver capacidades diversas, que vão desde a capacidade de comunicação, à manipulação de recursos multimédia, ao domínio de programas específicos, e ao desenvolvimento de técnicas de resolução de problemas, entre muitas outras.
Num contexto tão amplo de utilização da Internet e da informação que nela se encontra, o professor tem que previamente fazer o seu próprio trabalho de pesquisa, conhecer alguns dos recursos úteis, orientar os seus alunos na pesquisa, acompanhar o seu percurso, controlar a utilização da informação obtida, para que os alunos não se limitem a fazer plágios e, mais importante ainda, para ter a certeza que a informação recolhida é válida e isenta de erros. Todo o trabalho prévio do professor implica, mais uma vez, um enorme consumo de tempo, uma preparação cuidada e rigorosa, e a capacidade de pesquisa e selecção da informação mais relevante.
A importância da pesquisa e a validação dos conteúdos pesquisados
A utilização da Internet em contexto educativo coloca muitas questões em diversos domínios e perspectivas, quer na perspectiva do produtor de conteúdos, quer na perspectiva do utilizador final. E um dos problemas que se coloca permanentemente é o da pesquisa de informação.
A primeira questão é saber como pesquisar. Se o pesquisador é professor, estará interessado em obter informações para a sua actividade de ensino/aprendizagem, ou para enriquecimento pessoal e profissional? A informação é para ele, ou para os alunos? Se a pesquisa é para os alunos, de que tipo de alunos se trata? Há que ter em conta a faixa etária e o grau de escolaridade em que se encontram.
Uma segunda questão tem a ver com a validação da informação. O professor preocupa-se em verificar a validade das informações que obteve nas suas pesquisas? Verificou se o autor das páginas que consulta está identificado e se as páginas são pessoais ou institucionais? Verificou ainda se o(s) autor(es) definem objectivos e público-alvo para as suas páginas? Pode ter a certeza que os conteúdos disponibilizados numa dada página são originais, ou reprodução de outra(s) páginas?
E os alunos têm a noção de que fazer uma pesquisa na Internet implica cruzar informação, verificar a sua validade, saber se as fontes são credíveis?
Qualquer motor de busca nos fornece, em muito pouco tempo, uma lista infindável de páginas relacionadas (ou não) com o tema a pesquisar. No entanto, a grande maioria da informação encontrada não serve os propósitos de quem pesquisa. É pois imperioso que os utilizadores aprendam não só a utilizar correctamente os pesquisadores, seleccionando com todo o rigor um conjunto de palavras chave que lhes permitam encontrar rapidamente a informação mais pertinente, como é imperioso que aprendam a cruzar essa mesma informação, não se limitando a tirá-la de uma ou duas páginas mas sim comparando-a de entre as diversas fontes. Por outro lado, é necessário, cada vez mais, a existência de sítios especializados em informação de carácter educativo, onde a pesquisa seja não só facilitada mas também onde se garanta a qualidade dos conteúdos propostos.
Estas questões revelam claramente todo o trabalho prévio de planificação e orientação que professores e alunos devem levar a cabo a fim de conseguirem utilizar adequadamente este recurso. A Internet, fonte particularmente rica em conteúdos educativos, exige uma utilização muito cuidada, quase especializada, na pesquisa e selecção de informação.
A produção de conteúdos
A par da vertente de pesquisa propriamente dita, temos a noção de que é extremamente aliciante e profícua a produção de conteúdos com interesse para educadores e educandos.
Se imaginarmos a quantidade de material de qualidade que diariamente é produzido nas escolas de todo o mundo, nomeadamente por professores e alunos, veremos o desperdício de recursos que poderiam estar publicados na Internet, ao invés de guardados ou esquecidos numa qualquer gaveta, depois de utilizados.
Daí que seja necessário incentivar os professores a publicarem o resultado do trabalho efectuado na preparação das aulas, muitas das vezes com conteúdos inovadores, assim como é imperiosa a publicação dos testes e fichas de avaliação (com as respectivas orientações de resposta!). Simultaneamente, os alunos também devem ser motivados a colocar na Internet os trabalhos apresentados na aula, eventualmente depois de corrigidos pelo professor.
Desta forma, estamos seguros que os conteúdos educativos disponíveis se multiplicarão rapidamente, contribuindo assim para uma maior e melhor Internet.
Como educadores, todos nós já passámos pela sensação de procurar informações que julgávamos existirem na Internet e cuja qualidade nos deixou muito desiludidos. Não restam muitas dúvidas que a melhor forma de contribuirmos para melhorar a utilização da rede mundial, como um recurso educativo com cada vez maior qualidade, consiste em contribuirmos também com a nossa quota-parte de conteúdos que possam servir as necessidades e os interesses de outros utilizadores.
Quanto aos alunos, para além da utilidade da produção de conteúdos próprios resultantes das tarefas de estudo e aprendizagem, existe também um lado lúdico no processo de disponibilização desses produtos a outros possíveis utilizadores. Existindo materiais de qualidade, é possível, em todos os níveis de escolaridade, envolver professores e alunos no processo de produção de páginas onde se mostram os resultados do seu esforço. Esta produção, por seu turno, pode não só servir de resultado de um processo de aprendizagem, como também funcionar como motivação extra para a procura e aquisição de informação. Caberá aos professores seleccionarem a metodologia mais adequada aos objectivos que definiram, e envolverem os seus alunos num esforço colectivo de enriquecimento desse suporte extremamente dinâmico que pode ser Internet.
O “Mil Saberes” como fonte de recursos
Numa primeira fase as nossas preocupações, enquanto autores do projecto “Mil Saberes”
(http://www.educom.pt/proj/milsaberes), consistiram em satisfazer o que nos pareciam as necessidades mais prementes de professores e alunos, relacionadas com selecção e recensão de conteúdos existentes. Pretendíamos fornecer um catálogo de páginas com uma qualidade que justificasse a sua consulta e cujo conteúdo pudesse ajudar a complementar e aprofundar o processo de ensino/aprendizagem. Em síntese, pretendíamos servir como uma equipa de pesquisa regular de páginas na Internet, seleccionando as mais interessantes e úteis para as actividades de ensino/aprendizagem. Pretendíamos também poupar a todos os interessados em obter informação credível o consumo de muitas horas de pesquisa.
Tratava-se de um projecto ambicioso e difícil, uma vez que os problemas acima enunciados, de consumo de tempo e de filtragem dos conteúdos existentes na Internet, também atingiam os próprios autores do projecto. Abranger várias áreas curriculares e disponibilizar aos utilizadores do “Mil Saberes” uma informação credível, de forma clara e sucinta, implicou um enorme esforço de aprendizagem, grande disciplina pessoal e uma capacidade de síntese que pudesse atrair o interesse e satisfazer as necessidades de todos os utilizadores finais.
O cariz dinâmico da Internet constituiu e constitui um dos nossos principais problemas. Uma vez que a nossa pesquisa pretende avaliar e seleccionar os sítios propostos no ‘Catálogo’, existe uma grande dificuldade em manter esse mesmo ‘Catálogo’ actualizado, além de corrermos frequentemente o risco de os sítios ficarem indisponíveis por mudança de endereço ou por pura e simplesmente desaparecerem. Por outro lado, muitos sítios deixam de ser actualizados e perdem interesse. Estas situações implicam um esforço enorme de actualização das ligações, de verificação de conteúdos e de substituição dos apontadores propostos nas diversas áreas.
Na perspectiva do produção de conteúdos, o Mil Saberes também procurou ir mais além, abrindo espaços para a apresentação de produções próprias e de colaboradores que se disponibilizassem a participar no projecto. No entanto, dado o papel privilegiado que se deu à pesquisa e selecção de sítios com interesse educativo, esta tem sido uma área menos desenvolvida e a precisar de ser repensada e muito enriquecida.
Após a consolidação do “Mil Saberes” como suporte para as tarefas de pesquisa e selecção de informação na Internet, estamos neste momento numa fase de elaboração e apresentação de conteúdos, centrados em duas grandes áreas que têm como objectivo desenvolver uma relação mais interactiva com os utilizadores do nosso sítio. Uma das áreas são os exercícios de diversas áreas curriculares, que pretendemos funcionem como instrumentos de treino e verificação dos conhecimentos dos alunos que nos visitam. A outra área, ainda em fase de arranque, é dedicada aos alunos o 1º Ciclo do Ensino Básico, para os quais é necessário desenvolver nos próximos anos uma grande quantidade de recursos específicos. Pretende-se incentivar estes alunos a uma utilização gradual e profícua da Internet, despertando-os para a sua utilidade e para a importância de uma utilização orientada, a par da componente lúdica, indispensável nesta faixa etária.
Além destas duas componentes, o projecto tem tentado desenvolver outras vertentes, relacionadas com a educação, de modo a assegurar tanto a alunos como a professores uma informação vasta e variada.
Assim, a par do Catálogo de apontadores seleccionados e da secção de
Exercícios, o “Mil Saberes” mantém uma relação diária das
Notícias sobre educação, publicadas nas edições on-line publicadas nos principais jornais portugueses (com ligações aos textos originais); uma listagem, com recensão, de produtos educacionais publicados em suporte
CD-Rom, em Portugal e em língua portuguesa; uma Agenda onde são anunciados os diversos eventos destinados à comunidade educativa, nomeadamente colóquios, seminários e congressos; uma secção onde é disponibilizada, em texto integral, a
Legislação mais relevante e de utilidade para professores, alunos e encarregados de educação; listagem, com ligações, às mais diversas instituições relacionadas com educação, tais como
Escolas de todos os níveis de ensino, Universidades
e Organismos oficiais.
Paralelamente às informações e conteúdos apresentados de uma forma mais ou menos estática (embora com actualização permanente), a interactividade, enquanto espaço de partilha de opinião e troca de experiências entre os diversos utilizadores tem tido, no “Mil Saberes”, um espaço privilegiado. Neste sentido existe um Fórum permanente onde poderão ser debatidos vários assuntos relacionados com o contexto educativo, quer nacional quer internacional e um espaço de Sondagem, onde, de forma meramente indicativa da opinião dos visitantes, é permitido votar sobre determinadas questões relacionadas com a actualidade da política educativa. Existe ainda um Motor de pesquisa interno, transversal a todo o sítio, onde é possível encontrar, de forma directa, informação sobre os temas pretendidos.
A importância da qualificação da Internet enquanto recurso educativo
Em jeito de conclusão poderemos afirmar que a importância crescente da Internet como ferramenta educativa impõe cuidados acrescidos na sua utilização.
Esses cuidados, em consonância com o que afirmámos anteriormente, estão essencialmente relacionados com a qualidade dos conteúdos, os quais, por existirem em cada vez maior quantidade, por vezes provenientes de fontes duvidosas, obrigam os utilizadores a uma selecção atenta e rigorosa.
Por este motivo é essencial que a par da consciência das potencialidades da Internet, enquanto recurso educativo, estejamos preparados para retirar o maior proveito desta enorme biblioteca, seleccionando os melhores conteúdos, no mais curto espaço de tempo.
A existência de sítios especializados, como o “Mil Saberes”, que seleccionam e validam a informação, é um passo essencial no caminho da qualificação dos recursos disponíveis.
Outro passo poderá ser dado com a publicação de conteúdos educativos por parte dos professores, verdadeiros especialistas nas mais diversas áreas do saber, motivando os seus alunos no mesmo sentido, ou seja, no sentido da publicação dos melhores trabalhos produzidos no âmbito do desenvolvimento das suas actividades curriculares.
No entanto, estes desígnios só serão possíveis com o necessário apoio logístico e financeiro por parte das autoridades competentes, nomeadamente organismos estatais, associações profissionais e outras instituições relacionadas com a educação.
A Educom/APTE, enquanto associação vocacionada para as questões da telemática educativa tem, desde a primeira hora, incentivado e apoiado este projecto, garantindo todas as condições para o desenvolvimento, alojamento e divulgação do Mil Saberes.
De salientar também o inestimável apoio financeiro concedido ao longo de 5 anos pelo Programa Nónio Séc. XXI, do Ministério da Educação, contribuindo para que o “Mil Saberes” tenha cumprido grande parte dos objectivos enunciados, garantindo um acesso fácil e gratuito a conteúdos que valorizem as aprendizagens dos estudantes e a valorização e qualificação dos conhecimentos dos professores.
Apesar disso, temos consciência do longo caminho a percorrer, o qual só poderá ser alcançado com um grau de participação, cada vez maior, de todos os intervenientes no processo educativo. A qualificação da Internet enquanto recurso educativo deve ser um projecto colectivo, para o qual os autores do “Mil Saberes” pretendem contribuir com a sua modesta participação.
Rui Páscoa (rp@educom.pt)
Escola Básica Integrada da Charneca de Caparica
Fernando Reis (fr@educom.pt)
Escola Secundária Elias Garcia
Lígia Luís (lmnl@educom.pt)
Escola Secundária Daniel Sampaio
http://www.educom.pt/milsaberes/
milsaberes@educom.pt
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