Revista Bimensal 
Edição 16 - Outubro 06
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A árvore do prazer da escrita
 


Maria de Lurdes Trilho
Prof. de Língua Portuguesa
Mestrado em Estudos Anglo-Portugueses
Fac. Ciências Sociais e Humanas, Univ. Nova de Lisboa



Propus-me redigir este artigo ao reparar quão célere o meu pensamento voava enquanto os meus dedos faziam um enérgico sapateado sobre as teclas do computador e escreviam mais uma história para os mais novos. Travei, por momentos, tal percurso desenfreado e pensei em como tudo começou...

Ao escrever as minhas ficções para crianças e jovens, lembro-me várias vezes de quando fui criança, mas baseio-me muito mais na minha experiência de mãe e nas histórias que nós aprendemos a criar para adormecer os nossos filhos, para os entreter enquanto comem, para os distrair. Todas nós, mães, somos potenciais contadoras de histórias! Aliada à minha tarefa de mãe, existe a profissão que também tem o seu quê de contador de histórias, as palavras bonitas, as expressões em sentido figurado, a poesia dos sentimentos, os voos da criatividade, o prazer de ensinar a ler e a escrever.

É à árvore do prazer da escrita que vou colher o fruto que em largas dezenas de páginas se encontra e que se destina a ser saboreado por adultos e crianças. Os primeiros saberão espremê-lo, mastigá-lo e eliminar o caroço; quanto aos segundos, espero que se maravilhem com as fantasias, que atravessem os canais da curiosidade e os desfiladeiros da imaginação e que encontrem em tais histórias um divertimento, que as leiam com prazer e que estas os incentivem a tentar pequenos voos pela escrita, pequeninos textos sobre um rebuçado, uma flor do jardim, um lápis quase gasto, uma pedra da calçada, ou outra ideia qualquer.

«Só se consegue escrever, escrevendo» – eis o que digo vezes sem conta aos meus alunos. Podia acrescentar inúmeras frases paralelas a esta, mas prefiro afirmar que se para uns pode ser um prazer «ter um livro para ler e não o fazer», outros podem sentir prazer numas pinceladas abstractas atiradas para uma tela em branco, outros haverá que vibram com os acordes musicais criados por mãos sensíveis que penetram nos seus ouvidos... para mim, sentir a caneta a escorregar numa qualquer folha rabiscada, ou as teclas do computador a percorrerem quase sozinhas, desenfreadas, aceleradas, as curvas e rectas da minha imaginação é algo que me liberta dos ponteiros severos do relógio da vida.