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Ler e
Escrever: práticas do tempo
Helena
Lourenço
Professora de
Língua Portuguesa
3º Ciclo EB e Ens. Sec.
Mestranda da Univ. Évora
“Ler” e “escrever”,
mais do que dois simples verbos, são, sem dúvida, as mais
importantes práticas do contexto educativo.
Nos nossos dias, assiste-se a uma problemática muito
grande em torno destas duas actividades. Pensa-se que o
forte incremento e consolidação das novas tecnologias de
informação na sociedade actual tenha vindo a relegá-las para
segundo plano; à escrita complexa e bem redigida sucede a
escrita abreviada dos sms e das conversações on-line (já
para não mencionarmos os inúmeros erros ortográficos que as
povoam).
Contudo, não podemos culpabilizar apenas o computador
e/ou o telemóvel pelo facto de cada vez mais alunos não se
sentirem estimulados para a leitura e para a escrita. As
oficinas de escrita, não só em contexto escolar como também
extra-curricular, têm tentado alterar esta tendência menos
positiva.
Há pouco tempo, tive a oportunidade de realizar um
oficina de escrita em contexto extra-escolar e obtive
resultados muito positivos.
Com um pequeno grupo de jovens, não muito estimulado
para a leitura e redacção de textos, trabalhei alguns
excertos do Diário de Anne Frank e, durante uma tarde
primaveril, pude verificar um grupo interessado, criativo e
com vontade em escrever.
É claro que esta prática também consegue bons
resultados na sala de aula. Os alunos tentam, de alguma
forma, superar os problemas de ortografia, de sintaxe, de
falta de criatividade, sendo convidados a desenvolver uma
atitude crítica através da consciencialização acerca da
forma como comunicam e do que comunicam. Não esqueçamos
porém que o trabalho a realizar é mais rigoroso e pontuado
pela avaliação.
Assim sendo, a oficina de escrita constitui, de
acordo com os programas de Língua Portuguesa, “um espaço
curricular em que a aprendizagem e sistematização de
conhecimentos sobre a língua e os seus usos se inscrevem
como componentes privilegiadas”. No entanto, este espaço não
é suficiente para atenuar os problemas de leitura e de
escrita com que hoje nos debatemos.
LER é uma prática do tempo, um momento em que cada aluno
é convidado ao prazer da descoberta não só de si próprio,
mas também do mundo; trata-se de uma viagem pelas palavras,
pelas frases, pelas emoções e aventuras daqueles que as
imaginaram e as representaram através da escrita. Ler
permite formar um pensamento criativo, crítico, fomentando
hábitos de natureza intelectual e social.
ESCREVER é uma técnica do tempo, uma vez que
possibilita a transmissão de ideias, sentimentos, valores e
pensamentos muitas vezes decorrentes das leituras que vamos
fazendo ao longo das nossas vidas. Enquanto veículo
intemporal de cultura, perpetua as grandezas humanas,
imortaliza-as, pois reflecte, analisa e critica o próprio
pensamento.
A tarefa de escrever conduz a uma reflexão sobre os mais
variados assuntos e expõe os motivos inerentes às escolhas
de cada indivíduo. Por ser um processo moroso, exige um
conhecimento prévio, tanto a nível lexical como a nível
gramatical, de uma determinada língua. Se um aluno não se
dedicar à leitura certamente que encontrará alguns
obstáculos na redacção de textos.
Nesta relação, que é de grande cumplicidade entre a
leitura e a escrita, o livro ganha o papel de objecto
mediador entre leitor-autor e vice-versa, fomentando uma
interacção activa entre estes intervenientes.
Para escrever é necessário ler e num processo
criativo como é o da escrita deve-se ter em conta os
sentimentos e juízos de valor, isto é, deve-se incutir ao
aluno o desejo em exprimir aquilo que sente, que vê ou até
mesmo a sua singular posição face a algo. Assim sendo,
enquanto técnica a desenvolver a escrita implica a
compreensão de que existe todo um conjunto de estratégias
metacognitivas a fomentar e a aperfeiçoar de forma contínua,
uma vez que se trata de um processo de representação.
Porque é que os alunos continuam a desprezar campos
tão imprescindíveis das suas formações (mais precisamente os
que estão relacionados com os mecanismos de criação e
recriação)? A resposta é cada vez mais difícil e mais
complexa do que possamos imaginar.
LER e ESCREVER não são importantes apenas dentro do contexto
educativo. São para dentro e fora da escola, para toda a
vida, e sabemos que nem sempre é fácil e proveitoso explicar
o papel destas práticas e técnicas pedagógicas a todos os
alunos com que nos cruzamos.
Contudo, devemos continuar a incentivá-los, a incutir
o “bichinho” da leitura e da escrita como práticas do tempo
que são e que devem ser perpetuadas. Por esta razão é sempre
bom relembrarmos as palavras de Sebastião da Gama em Diário:
“O que interessa mais que tudo é ensinar a ler. (…) Ler,
despindo cada palavra, cada frase, auscultando cada entoação
de voz para perceber até ao fundo a beleza ou o tamanho do
que se lê.”
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