Revista Bimensal 
Edição 16 - Outubro 06
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Ler e Escrever: práticas do tempo


 

Helena  Lourenço
Professora de Língua Portuguesa
3º Ciclo EB e Ens. Sec.
Mestranda da Univ. Évora



Ler” e “escrever”, mais do que dois simples verbos, são, sem dúvida, as mais importantes práticas do contexto educativo.

Nos nossos dias, assiste-se a uma problemática muito grande em torno destas duas actividades. Pensa-se que o forte incremento e consolidação das novas tecnologias de informação na sociedade actual tenha vindo a relegá-las para segundo plano; à escrita complexa e bem redigida sucede a escrita abreviada dos sms e das conversações on-line (já para não mencionarmos os inúmeros erros ortográficos que as povoam).

Contudo, não podemos culpabilizar apenas o computador e/ou o telemóvel pelo facto de cada vez mais alunos não se sentirem estimulados para a leitura e para a escrita. As oficinas de escrita, não só em contexto escolar como também extra-curricular, têm tentado alterar esta tendência menos positiva.

Há pouco tempo, tive a oportunidade de realizar um oficina de escrita em contexto extra-escolar e obtive resultados muito positivos.

Com um pequeno grupo de jovens, não muito estimulado para a leitura e redacção de textos, trabalhei alguns excertos do Diário de Anne Frank e, durante uma tarde primaveril, pude verificar um grupo interessado, criativo e com vontade em escrever.

É claro que esta prática também consegue bons resultados na sala de aula. Os alunos tentam, de alguma forma, superar os problemas de ortografia, de sintaxe, de falta de criatividade, sendo convidados a desenvolver uma atitude crítica através da consciencialização acerca da forma como comunicam e do que comunicam. Não esqueçamos porém que o trabalho a realizar é mais rigoroso e pontuado pela avaliação.

Assim sendo, a oficina de escrita constitui, de acordo com os programas de Língua Portuguesa, “um espaço curricular em que a aprendizagem e sistematização de conhecimentos sobre a língua e os seus usos se inscrevem como componentes privilegiadas”. No entanto, este espaço não é suficiente para atenuar os problemas de leitura e de escrita com que hoje nos debatemos.

LER
é uma prática do tempo, um momento em que cada aluno é convidado ao prazer da descoberta não só de si próprio, mas também do mundo; trata-se de uma viagem pelas palavras, pelas frases, pelas emoções e aventuras daqueles que as imaginaram e as representaram através da escrita. Ler permite formar um pensamento criativo, crítico, fomentando hábitos de natureza intelectual e social.

ESCREVER é uma técnica do tempo, uma vez que possibilita a transmissão de ideias, sentimentos, valores e pensamentos muitas vezes decorrentes das leituras que vamos fazendo ao longo das nossas vidas. Enquanto veículo intemporal de cultura, perpetua as grandezas humanas, imortaliza-as, pois reflecte, analisa e critica o próprio pensamento.
A tarefa de escrever conduz a uma reflexão sobre os mais variados assuntos e expõe os motivos inerentes às escolhas de cada indivíduo. Por ser um processo moroso, exige um conhecimento prévio, tanto a nível lexical como a nível gramatical, de uma determinada língua. Se um aluno não se dedicar à leitura certamente que encontrará alguns obstáculos na redacção de textos.

Nesta relação, que é de grande cumplicidade entre a leitura e a escrita, o livro ganha o papel de objecto mediador entre leitor-autor e vice-versa, fomentando uma interacção activa entre estes intervenientes.

Para escrever é necessário ler e num processo criativo como é o da escrita deve-se ter em conta os sentimentos e juízos de valor, isto é, deve-se incutir ao aluno o desejo em exprimir aquilo que sente, que vê ou até mesmo a sua singular posição face a algo. Assim sendo, enquanto técnica a desenvolver a escrita implica a compreensão de que existe todo um conjunto de estratégias metacognitivas a fomentar e a aperfeiçoar de forma contínua, uma vez que se trata de um processo de representação.

Porque é que os alunos continuam a desprezar campos tão imprescindíveis das suas formações (mais precisamente os que estão relacionados com os mecanismos de criação e recriação)? A resposta é cada vez mais difícil e mais complexa do que possamos imaginar.
LER e ESCREVER não são importantes apenas dentro do contexto educativo. São para dentro e fora da escola, para toda a vida, e sabemos que nem sempre é fácil e proveitoso explicar o papel destas práticas e técnicas pedagógicas a todos os alunos com que nos cruzamos.

Contudo, devemos continuar a incentivá-los, a incutir o “bichinho” da leitura e da escrita como práticas do tempo que são e que devem ser perpetuadas. Por esta razão é sempre bom relembrarmos as palavras de Sebastião da Gama em Diário: “O que interessa mais que tudo é ensinar a ler. (…) Ler, despindo cada palavra, cada frase, auscultando cada entoação de voz para perceber até ao fundo a beleza ou o tamanho do que se lê.”