"Creio que uma autêntica comunidade é um grupo
de indivíduos que aprenderam a comunicar entre si
com sinceridade, cujas relações são mais profundas
do que aparentam e em que se assume um compromisso
de se divertirem juntos, chorar juntos, trabalhar junto
s e de fazerem suas as situações dos demais."
Flynn, G. (1989). Toward Comunity
Numa sociedade que se pretende inclusiva não se pode viver ignorando as diferenças ou actuar como se estas não existissem. Logo, a inclusão não se confina a qualquer método de ensino, nem sequer é uma filosofia. É, na sua essência uma forma de ser e de saber viver ... juntos.
Como oposto da inclusão emergem a segregação e a exclusão, as quais sugerem um conjunto de ideias e de factos desagradáveis em que a injustiça, a pobreza e a infelicidade ocupam, por norma, um lugar de destaque. Assim, a inclusão pressupõe viver melhor e indica uma vida mais feliz. Ora, admitindo-se que todo e qualquer ser humano visa, antes de mais, ser feliz e tendo-se em consideração que tal consubstancia o mais elementar dos seus direitos resta concluir que é um dever profundamente ético que cada um de nós contribua activa e empenhadamente para a construção de uma sociedade efectiva e intrinsecamente inclusiva. Só é autenticamente feliz quem ajuda o outro a encontrar a felicidade.
Apesar de haver um consenso generalizado sobre as virtudes da inclusão a realidade social actual evidencia que das ideias às práticas há uma distância significativa: continua a haver um número impressionante de crianças, jovens e adultos em situação de verdadeira exclusão. Há pois que encarar o problema de modo frontal e agir, cada um por si, para que a realidade se aproxime dos ideais.
A escola é, por natureza, um espaço educacional onde o valor e a prática da inclusão devem merecer a atenção que efectivamente detêm. Há, pois, que procurar encontrar os caminhos para assegurar, de forma eficiente, uma educação de qualidade e de igualdade para todas as crianças e jovens independentemente das suas origens e das suas características pessoais. Erradicar do imaginário social a ideia de grupos inferiores e pugnar pela valorização e respeito pela diferença será uma estratégia a privilegiar no âmbito educativo para que as novas gerações cresçam com crença nos valores da solidariedade e da cooperação, ganhando, assim, competências relacionais susceptíveis de tornar a sociedade futura mais inclusiva e, consequentemente, mais feliz para todos.
As escolas são, portanto, um bom local para começar. A família, a comunidade e a sociedade, contudo, são agentes que terão de assumir, também, uma atitude esclarecida e convergente, neste âmbito, com a acção escolar. Será este o itinerário a trilhar para o bem de todos. A exclusão gera insatisfação. A insatisfação gera a revolta. Daqui ao confronto social é um passo: para o mal de todos! A inclusão emerge, deste modo, como uma necessidade vital e inadiável para a sociedade.
Promover uma educação escolar em que a interacção inclusiva sirva como finalidade formativa abrangente, não é, apenas, a implementação prática de um ideal de transcendente alcance humanista. É, também, uma opção que se revela melhor para todos. Tal desiderato passa muito por desenvolver nas crianças e nos jovens atitudes e condutas de ajuda mútua ante os problemas quotidianos, tanto do meio escolar como do mundo real. O progressivo assumir desta relação solidária terá, como contrapartida o diluir da turma, enquanto somatório de alunos e o fazer aparecer, no seu lugar, uma autêntica comunidade em que os seus elementos se apoiam mutuamente para que nenhum se remeta para uma condição de desânimo aprendido devido à percepção do traumático sentimento de não pertença ao grupo.
É preciso acreditar que as crianças e os jovens estão dispostos e, até desejosos, de participar na concretização destes ideais. Conquanto não seja este o motivo mais nobre para os incentivar a tal, a verdade é que eles - todos - serão, a médio prazo, os grandes beneficiados, no seu dia a dia.
A diversidade - como de resto é evidente - é a mais incontornável característica da sociedade e, por conseguinte, da população escolar. Não basta, no entanto, ser tolerante para com a diversidade. Torna-se inadiável compreender, aceitar e valorizar as razões que a definem e até explorar, no bom sentido, a riqueza cultural que lhe está subjacente. A diversidade é, pois, um recurso e não um problema. A existência de alunos com necessidades educativas especiais protagoniza um óptimo pretexto para se sentir e vivenciar os autênticos valores da solidariedade e da cooperação. Logo eles são, também, imprescindíveis para fundamentar o desenvolvimento de uma relação social assente em verdadeiros actos de
entreajuda. São, por isso, agentes reais na construção de uma sociedade mais feliz, dado que assenta numa interacção orientada pelo sublime sentimento do apoio recíproco. Deste modo, as próprias crianças e jovens com necessidades educativas especiais percepcionam que também eles são necessários para a edificação de uma comunidade solidária. Algo que de, certa forma, os realiza.
A inclusão pressupõe, então, a totalidade. Ninguém pode ficar de fora. A inclusão plena significa uma permanente atitude de dar e de receber protagonizada por todo e qualquer elemento de um dado grupo social. Assim, haverá que conceber cada criança, ou cada jovem - sem excepção - como alguém que tem, sempre, algo para dar e algo para receber. As comunidades inclusivas de escola e de aula assentam, portanto, em acções de troca e de partilha de gestos humanos. Gestos onde o sentir, o pensar e o agir são pautados pela sensação reconfortante de se saber que o eu de cada um se reforça com o acto de ajudar a tornar mais forte o eu dos outros.
Inclusão e felicidade são termos solidaria e fortemente imbricados entre si. Parece, desta forma ficar claro qual o caminho a seguir. Pés ao caminho, portanto. Sem delongas, para evitar que alguns, entretanto, se percam por outros caminhos. É que enquanto alguns se forem perdendo a inclusão está adiada, pois que sem a totalidade a inclusão não é autêntica.
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