"A
nossa sociedade e os nossos sistemas escolares
estão numa encruzilhada. Há dois caminhos: o da
inclusão e o da exclusão"
Susan
Stainback e William StainbacK (1999)
Introdução
A educação inclusiva consubstancia uma das temáticas
mais prementes da actualidade educativa, dizendo respeito,
mais ou menos directamente, a todos quantos de algum modo, estão
ligados ao fenómeno da educação: alunos, professores, famílias
e decisores políticos. Trata-se, para além do mais, de uma
matéria em que muito já foi dito, emergindo, contudo, a dúvida
de que tudo o que seria necessário dizer já teria sido, ou não,
dito. Pessoalmente achamos que não, até porque se assim não
fosse, este escrito não faria, claro, sentido nenhum.
No plano escrito - como é o caso vertente - lida-se
com palavras e não com acções. Sabe-se, perfeitamente, quão
necessário é o agir, principalmente, no campo da inclusão
educativa, uma vez que se trata de uma temática
essencialmente procedimental e, não tanto, de natureza
especulativa. Contudo, não se ignora, paralelamente, que uma
acção sistematizada e eficiente depende, em larga medida,
daquilo que se concebe e pensa sobre o objecto dessa acção.
Por essa razão se entende que vale a pena, ainda, jogar no
campo das ideias por se percepcionar que, entre nós,
coexistem várias interpretações conceptuais da expressão educação
inclusiva, as quais potenciam práticas educativas
igualmente diversificadas, com resultados e efeitos também
diferenciados os quais, consequentemente, não se situarão,
todos à mesma distância dos objectivos desejados.
Pelo que pode estar em jogo face à diversidade conceptual em
apreço, afigura-se necessário e premente aprofundar o debate
sobre o sentido e a semântica pedagógicos da educação
inclusiva, a fim de que as práticas correspondentes traduzam,
com fidelidade e clareza, as concepções em que se
fundamentem. Por conseguinte, a reflexão que se segue visa em
primeiro lugar apresentar e legitimar uma determinada ideia de
educação inclusiva e, em segundo lugar, indiciar as práticas
escolares e pedagógicas que no actual contexto educativo se
julgam adequadas à concretização daquele ideal.
A explicitação do conceito de educação inclusiva
A implementação prática da educação inclusiva
parece implicar, antes de mais, o desejo de evitar qualquer
situação de exclusão. Admitindo-se, entretanto que o termo
exclusão pressupõe a inexistência da percepção do
sentimento de pertença, por parte do indivíduo em
relação ao seu grupo social de referência e/ou de aceitação
por parte do grupo em relação ao indivíduo, julga-se lógico
inferir-se que a situação de exclusão é um cenário
potencial em relação a toda e qualquer pessoa. Isto é,
qualquer um de nós pode protagonizar, em qualquer momento da
sua existência, uma situação real de exclusão, ao
sentir-se na condição de não pertença ao seu grupo,
ou na situação de não aceitação por parte deste.
Centrando, agora, esta questão no contexto
estritamente escolar, pensa-se que será legítimo conceber-se
que todo e qualquer aluno - independentemente, portanto das
suas potencialidades e limitações - está sujeito a
processos de exclusão e que, portanto, esta situação não
está unicamente vinculada aos alunos com necessidades
educativas especiais. A situação de inclusão emerge,
portanto, como uma necessidade intrinsecamente pessoal, logo
individual e não como uma necessidade especial, ou
seja, apenas reservada a alguns.
Dentro desta linha de pensamento, a educação
especial não poderá ser entendida como algo sinónimo de
educação inclusiva, uma vez que esta abrange a
totalidade dos alunos de qualquer comunidade escolar, ao passo
que aquela apenas se reporta a uma parte daqueles,
concretamente, aos que são portadores de necessidades
educativas especiais, permanentes ou temporárias.
Dedutivamente se poderá, por conseguinte, aceitar que o termo
integração estará com mais propriedade associado ao
de educação especial do que o termo inclusão. Assim,
a educação especial deverá ser entendida como um conjunto
de serviços vocacionados para apoiar o processo educativo de
um determinado número de alunos e não como um recurso
responsável pela inclusão de todos os alunos de uma dada
escola. É óbvio que a educação especial funciona como um
dispositivo facilitador da inclusão mas que só por si - pela
sua natureza - não poderá garantir a criação e existência
de ambientes escolares inclusivos, até porque estes implicam
alunos - aliás, a maioria - que não são destinatários da
sua intervenção.
Retomando-se a ideia de que a educação inclusiva
traduz uma preocupação com todo e qualquer aluno, julga-se,
por consequência inevitável que este ideal seja, não obra
deste ou daquele serviço escolar, mas sim, o resultado da acção
esclarecida e convergente de toda a comunidade educativa:
alunos, professores (incluindo-se, aqui, naturalmente, os
profissionais de educação especial) e famílias.
Consequentemente, no plano da educação inclusiva, a educação
especial é uma parte, sendo que a comunidade educativa
representa o todo.
Importa, ainda, ter aqui em atenção, o seguinte:
-
Muitos
dos alunos com necessidades educativas especiais
encontram-se, já numa situação escolar que se pode
considerar minimamente inclusiva;
-
Um
número bastante mais significativo de alunos sem necessidades
educativas especiais encontra-se em situação
efectiva de exclusão educacional (em condição de
insucesso, ou de abandono escolares).
Tais
factos - cujo impacto social é, já, preocupante e, se nada
for alterado, será, num futuro próximo, altamente
conflituoso - parecem comprovar a tese aqui preconizada de que
a inclusão ou a exclusão escolares são, pois um processo em
aberto para todo e qualquer aluno e como tal deve ser
encarado, não só a nível conceptual, como, também a nível
de acção, implicando, numa e noutra dimensões, a totalidade
dos agentes de cada comunidade educativa.
Então como agir para a criação de comunidades educativas
inclusivas?
Foi já referido que as situações de insucesso e de
abandono escolar são factores indiciadores de marginalização
e de exclusão. Por conseguinte, torna-se determinante tomar
medidas, a nível de escola, quer de natureza organizativa
quer de natureza pedagógica que previnam, tanto quanto possível,
as referidas situações. Em abono da verdade poder-se-á
admitir que a melhor forma de assegurar a inclusão escolar é,
precisamente, desenvolver um tipo de gestão curricular que
assegure uma educação de qualidade para todos,
entendendo-se esta como a formação integral de cada
aluno-pessoa sob os valores do respeito, da confiança, da
solidariedade e da cooperação recíprocos. No fundo, a educação
inclusiva não é senão o mais nobre projecto educativo que
toda e qualquer comunidade educativa pode conceber e
concretizar.
Sendo um projecto de comunidade é, por inerência,
indispensável que o mesmo seja assumido, atitudinal e
activamente pelos seus agentes nucleares: professores, alunos
e famílias. Do ponto de vista atitudinal é crucial que
aqueles agentes educativos demonstrem uma crença afectiva e
efectiva nos princípios da inclusão, considerando-a como um
dos direitos mais elementares da condição humana. Do ponto
de vista da acção, torna-se incontornável a necessidade de
o dia a dia da comunidade ser preenchido por relações
interpessoais caracterizadas por exemplos espontâneos de
valorização das diferenças e de processos de entreajuda.
A prática quotidiana de processos inclusivos nas
comunidades escolares deve decorrer de princípios subjacentes
devidamente explicitados no projecto educativo de escola e
assumidos - frise-se - por todo e qualquer elemento que ali
vive o seu dia. Desta forma a inclusão é considerada como um
dos esteios nucleares da política educativa escolar.
Por outro lado, no projecto curricular de escola deverão,
igualmente constar os princípios orientadores a implementar
no âmbito da gestão curricular para que a acção educativa
promova o sucesso escolar e educativo da generalidade dos
alunos em ambientes de interacção genuinamente inclusiva.
Num outro contexto, os projecto curriculares de turma
deverão, coerentemente com todo o ideário escolar,
constituir o meio crucial de levar a cabo, junto de cada grupo
concreto de alunos, um processo de ensino-aprendizagem susceptível
de responder, de modo adequado às necessidades daqueles.
Assim, o projecto curricular de turma terá de ser concebido e
desenvolvido sob a lógica de resolução de problemas.
Problemas esses que deverão ser previamente identificados
pelos agentes envolvidos nesse projecto (professores e alunos)
e, posteriormente, alvo de um processo de resolução
dinamizado pelos mesmos agentes em estreita e convergente
cooperação com as famílias.
Saliente-se, a propósito, o aproveitamento pedagógico
que pode ser feito tendo por base a articulação estratégica
das áreas disciplinares com as áreas curriculares não
disciplinares. Tal poderá ser levado à prática se, por
exemplo, na elaboração dos projectos curriculares de turma
se seguirem procedimentos do género:
-
Avaliação
diagnóstica do estilo de aprendizagem dos alunos1
(perfil de turma);
-
Identificação
dos problemas prioritários evidenciados através da análise
do perfil de turma;
-
Planificação
e implementação prática de procedimentos pedagógicos
tendentes à resolução daqueles problemas,
explorando-se, preferencialmente, os espaços e tempos das
áreas curriculares não disciplinares em regime de
convergência metodológica com a gestão curricular das
áreas disciplinares.
Para
a optimização dos processos e resultados decorrentes dos
projectos curriculares de turma, torna-se, portanto, crucial
que as áreas não disciplinares não tenham, à partida, um programa2.
Este (programa) só seria definido após a análise da
avaliação diagnóstica do perfil de turma e traduziria o
conjunto de competências e situações de aprendizagem a
implementar para tentar resolver os problemas constatados
através da referida análise.
Nesta perspectiva, advoga-se, claramente, a primazia da pedagogia
da aprendizagem, ou seja, a prática de um ensino
centrado no modo de aprender dos alunos. Tal só será viável
se, evidentemente, emergir, entre nós uma sólida cultura de
avaliação e identificação dos processos e dos produtos da
aprendizagem de cada aluno.
Insiste-se, então, na ideia de que um processo
educativo de qualidade, concretizado em ambiente interaccional
de respeito e de ajuda recíprocos, consubstancia o
procedimento que, provavelmente, maiores garantias dá para
que, em cada comunidade escolar, a educação inclusiva seja,
de facto, uma realidade tangível.
Eventuais constrangimentos à prática da educação
inclusiva
Sumariamente, mas de modo tão claro quanto possível,
elencam-se de seguida alguns aspectos que, configurando dados
mais ou menos reais, prefiguram por essa razão, sérios
constrangimentos à criação e desenvolvimento de comunidades
escolares inclusivas:
-
O
preconceito generalizado de que a educação inclusiva
remete, em particular, para o atendimento pedagógico dos
alunos com necessidades educativas especiais (ora, como se
pode testemunhar no dia a dia das nossas escolas qualquer
aluno - com ou sem NEE - está, potencialmente, sujeito à
condição de marginalização/exclusão);
-
A
ideia de que a educação inclusiva pressupõe,
essencialmente, a escolarização integrada de
determinados alunos3;
-
Algumas
práticas de formação de professores afiguram-se
desajustadas face às exigências pedagógicas subjacentes
à gestão da diversidade4;
-
Excessivo
número de alunos por turma5;
-
A
composição-padrão das equipas educativas é desadequada
face à natureza dos problemas emergentes na actual população
escolar6.
Notas
conclusivas
Apresentou-se, portanto, uma noção abrangente do que
pode ser entendido como educação inclusiva. Aliás, noção
essa que assenta num pressuposto tão simples como
significativo: num processo de educação inclusiva ninguém
pode ficar de fora. Logo, é um processo que resulta da acção
de todos, com todos e para todos.
A concretização do ideal da inclusão não será
tarefa fácil. Contudo, vale a pena tentar. E isto porque
antes de ser uma filosofia, a inclusão é uma forma de ser e
de estar. No fundo, um autêntico modo de viver. Modo de viver
que por assentar numa base de cooperação e de solidariedade
activas trará, sem dúvida, mais sentido e, sobretudo, mais
felicidade a cada um.
Se todo e qualquer ser humano procura, no seu dia a
dia, fundamentalmente, ser feliz, então, afigura-se
que a interacção inclusiva, até neste contexto, pode ser um
meio ímpar para que cada um se sinta mais feliz: uns porque,
recebendo ajuda, melhoram a sua própria qualidade de vida,
aumentando, por consequência, os seus níveis de percepção
da felicidade; outros, porque dando ajuda, reforçam os seus
próprios patamares de felicidade,. devido precisamente à
satisfação interior experimentada pelo facto de haverem
contribuído para a felicidade daqueles que sem a sua ajuda não
seriam ... tão felizes!
É, pois, fundamentalmente disto - a oportunidade
de ser feliz - que se trata ao falar-se de educação
inclusiva.
1Entendo-se
por estilo de aprendizagem as formas pessoais de apropriação
de saberes, as quais se podem descrever através dos níveis
detidos por cada aluno, nos seguintes factores:
a.
Motivação
b. Capacidades/estratégias de aprendizagem
c. Conhecimentos prévios
d. Hábitos e métodos de trabalho.
2Caso
contrário ganhariam o estatuto de disciplinarização
negando-se, assim e ingloriamente, a sua condição originária
de áreas curriculares não disciplinares.
3Claro que a criação de ambientes
relacionais de aceitação e de pertença é um factor
indispensável no contexto da educação inclusiva. Sendo uma
condição necessária, não é, porém, suficiente. Deste
modo há que acrescer àquela, uma outra condição que se
traduz pela necessidade de promover, efectivamente, o sucesso
educativo junto da generalidade dos alunos, dado que o
insucesso - como é empiricamente verificável - é, em grande
parte dos casos, um caminho irreversível para a situação de
exclusão, primeiro escolar e, depois, social.
4Decorrente de tais práticas
formativas acontece que muitos professores assumem uma função
docente centrada na transmissão de saberes, estratégia que
funciona em relação a alguns alunos, mas que não resulta
junto de muitos outros. Estes, com maior ou menor demora
entram em estado de desânimo aprendido, desmotivando-se e
tendendo a enveredar, acriticamente, nos tais caminhos da
exclusão. Logo, prefigura-se premente orientar as estratégias
de formação de professores para o desenvolvimento de competências
capazes de os tornar capazes de agir como mediadores bem
sucedidos entre as capacidades/estratégias e saberes prévios
dos alunos (estilo de aprendizagem) e o seu processo de aquisição
de novos conhecimentos.
5Os modos de ser e de agir das
novas gerações são significativamente diferentes dos que
eram em gerações anteriores, como qualquer professor com
mais de 10 anos de prática profissional vai confirmando. Tal
facto torna mais difícil a gestão do binómio
aprendizagem/comportamento de grupos numerosos, pelo que, em
favor da qualidade da educação se preconiza, com premência,
a redução da média formal de alunos por turma.
6As equipas educativas são
formadas quase que exclusivamente por pessoal docente. Ora o
que se constate à vista desarmada é que os problemas com que
se debatem hoje em dia as escolas e os professores não são
unicamente de ordem pedagógica. Efectivamente, outro tipo de
problemas coexistem em elevado grau e com um impacto muito
significativo na ambiência escolar. Cabem aqui,
comportamentos desajustados de natureza nomeadamente, psicológica
e sociológica, situação cuja solução não compete
naturalmente aos professores. Consequentemente, torna-se
urgente dotar os estabelecimentos de ensino de profissionais
na área da intervenção psicológica e sociológica, para em
termos de intervenção convergente e complementar da acção
docente, ser possível começar a responder de maneira mais
eficiente, às necessidades genericamente protagonizadas pela
actual população escolar.