Revista Bimensal 
Edição 2 - Jan. 04
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INTERVENÇÃO PRECOCE

Ana Cristina Matias
Psicóloga / Educadora de Infância


O nascimento de um bebé provoca invariavelmente uma alteração na dinâmica familiar. Os horários, as rotinas, a organização do espaço físico e a gestão económica, ficam subordinados às necessidades do novo elemento, exigindo aos pais um esforço de organização e de adaptação que nem sempre é fácil de conciliar.

Quando o recém-nascido apresenta um risco estabelecido (deficiência física, sensorial, mental) o esforço de restruturação é substancialmente maior, dado que o bebé apresenta necessidades acrescidas e os pais encontram-se altamente fragilizados com o impacto da situação.

Antes de nascermos, todos nós fomos "sonhados", alguns até com pormenores físicos, da cor dos olhos e do cabelo, com bochechas ou rosadinho, mas independentemente da minúcia, todos os pais idealizam o seu bebé: um bebé que tenha todas as condições para ser feliz e que lhes proporcione felicidade.

A reacção parental ao conhecimento da deficiência do seu filho é sempre individualizada e a expressão das emoções pode ser a mais diversificada, no entanto, nela está sempre subjacente a perda do filho que se tinha imaginado.

A exteriorização do sentir pode adquirir diferentes formas e passar por várias fases: mágoa, revolta contra os outros, recusa, vergonha, auto-culpabilização. Podem adoptar-se comportamentos de isolamento social ou de uma busca obstinada por novas respostas, quer sejam médicas, terapêuticas, místicas ou outras. No entanto todos eles fazem parte de um processo de integração e de adaptação a uma nova realidade. 

Às preocupações consentâneas com um recém-nascido, a alimentação, o sono, a higiene, o bem estar, acrescem outras, que apesar de extemporâneas adquirem um maior relevo: irá alguma vez andar? Conseguirá fazer a escolaridade? Poderá conduzir um carro? Poderá casar?

As habituais consultas pediátricas, transformam-se em rotinas de consultas de especialidades, exames médicos, terapias e contactos com diversos serviços, que exigem uma disponibilidade nem sempre compatível com a actividade profissional e que é particularmente agravada no caso de famílias monoparentais ou de baixos recursos económicos. 

O facto de uma família ter uma criança excepcional, transforma-a numa família com necessidades especiais, dado que o esforço de adaptação é muito superior e o investimento da disponibilidade é acrescido.

A importância da interacção pais-criança no desenvolvimento emocional, cognitivo e social da criança é considerada vital num vasto corpo da literatura, que considera igualmente que as intervenções centradas na família têm uma possibilidade muito maior de influenciar positivamente, quer o desenvolvimento global da criança, quer a competência dos pais em lidar com as necessidades da criança.

É com base nestes pressupostos, que são criados os programas de intervenção precoce, que procuram colaborar com a família na identificação e análise das suas necessidades, no apoio emocional e no reforço das suas potencialidades, respeitando o seu contexto social e cultural.

Nestes programas, a ajuda às famílias com crianças em risco (estabelecido, biológico ou social), pretende-se que seja concertada e abrangente, numa parceria entre a família e os serviços que respondem às suas necessidades, que em conjunto delineiam as acções necessárias à concretização dos objectivos pretendidos.

No ano de 1999, um despacho conjunto dos Ministérios da Saúde, da Educação, do Trabalho e da Solidariedade Social (Desp.nº891/99), define os objectivos da Intervenção Precoce e a estrutura de articulação entre os vários técnicos dos diferentes Ministérios. 
Em linhas gerais, pretende-se que a identificação e a sinalização das situações ocorra o mais precocemente possível, que os técnicos actuem no ambiente natural da criança de uma forma transdisciplinar e que para cada família seja concebido um plano individual de intervenção, com a participação da família e dos técnicos necessários à persecução dos objectivos. 

Há já vários anos, que profissionais ligados ao desenvolvimento infantil, no Concelho de Almada, elaboraram um Projecto Integrado de Intervenção Precoce, de modo a promover uma articulação entre os vários serviços que intervinham com as crianças com necessidades especiais dos 0 aos 6 anos.

Após a publicação do referido despacho, o Projecto foi reformulado e apresentado para aprovação. Deste Projecto fazem parte, profissionais do Centro de Saúde de Almada, dos Apoios Educativos de Almada, do Centro de Segurança Social e da C.E.R.C.I.S.A. em parceria com o Hospital Garcia de Orta.

Apesar de ainda não se encontrar aprovado, o projecto está a ser desenvolvido com um grupo de famílias residentes no Concelho de Almada, procurando promover as respostas adequadas a cada contexto familiar.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRAZELTON, B & CRAMER, B(1989). A Relação Mais Precoce: Os pais, os bebés e a interacção precoce. Lisboa: Terramar

CORREIA, L. M..& SERRANO, A.M. (2000) Envolvimento Parental em Intervenção Precoce. Porto Editora 

LEITÃO, F. R. (2001) A Intervenção Precoce e a Criança com Síndroma de Down. Porto Editora

FIGUEIREDO, B.(2001) Mães e Bebés. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

PEDRO, J.C.G.(1882) Influência no comportamento do recém-nascido do contacto precoce com a mãe - contributo para a interpretação clínica da interacção da díade. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian

STERN, D. (1980) Bebé - mãe: primeira relação. Lisboa Moraes Editores