Aceitar o
desafio proposto pelo Centro de Formação Proformar de dar a
minha opinião sobre a problemática de educação especial no
âmbito das escolas especiais “versus” escolas regulares
é no mínimo muito controverso quando tudo aponta para que as
crianças com NEE´s frequentem o sistema regular de ensino.
No entanto, aceitei escrever estas linhas, porque por mais que
se fale em inclusão há os esquecidos do sistema, os quais
encontram na escola de educação especial a melhor solução
dos seus problemas.
As normas actuais apontam para que as crianças e jovens com
NEE´s tenham alguns direitos fundamentais como:
- Respostas
educativas adequadas
- Educação centrada no indivíduo
- Igualdade de oportunidades
- Interacção social
- Estabilidade emocional
- Formação profissional
- Integração na vida activa
Para o
atendimento das crianças e jovens com NEE´s aponta-se como
prioritário a sua integração nas escolas regulares de
ensino (modalidade geral de ensino escolar). No entanto,
outros modelos são possíveis desde que o tipo e grau de
deficiência assim o obriguem ou as condições na modalidade
geral de educação escolar não possua todas as condições
necessárias para um atendimento/apoio específico e
especializado.
Posto isto, podemos afirmar que para além do sistema regular
é possível integrar indivíduos com NEE´s nas seguintes
modalidades:
- Turmas
reduzidas
- Unidades ou grupos especializados
- Estabelecimentos de educação especial.
Para
apoiar as crianças e jovens com NEE´s incumbe ao Estado
promover a formação e colocação de técnicos
especializados (equipas multidisciplinares) de forma a que
estes alunos tenham uma formação adequada baseada em currículos
e programas adaptados às características específicas dos
tipos e graus de deficiência.
Por fim o Estado tem também obrigação de apoiar
financeiramente todas as escolas oficiais, particulares,
cooperativas, associativas, etc. desde que os seus projectos
educativos apontem claramente para o atendimento especializado
a alunos com NEE´s.
Posto isto, e sabendo nós que tudo o que se afirmou
consta de várias recomendações internacionais e de diversa
legislação nacional, poderíamos afirmar que os alunos com
NEE´s estão de “boa saúde” ou melhor de “boa educação”...
Mas de facto, salvaguardando desde já algumas excepções,
nem tudo vai bem na educação especial... Nas escolas
oficiais as queixas são enormes: falta de professores
especializados, falta de terapeutas, falta de psicólogos,
falta de assistentes sociais, falta de equipas de saúde
escolar, falta de formação dos professores, falta de apoio
às famílias, falta de materiais específicos...
No entanto, podemos afirmar que muito se avançou se
recuarmos 20 anos, mas esta seria uma visão desfocada da
realidade de uma escola em mudança que se pretende actual e
que resolva os problemas que se vão colocando à sociedade.
Uma das funções mais importantes da escola é a resposta que
esta possa dar à sociedade; e a escolarização da criança
com NEE´s é sem dúvida um dos grandes desafios do momento.
Algumas questões mais fortes se têm que pôr e que em
muito têm a ver com a atitude de todos perante as crianças e
jovens com NEE´s nas várias componentes. É preciso criar
atitudes positivas com conceitos actuais numa perspectiva de
mudança social, cultural e educacional. Pensamos que só
assim será possível, mesmo que com menos recursos,
ultrapassarmos muitas das questões que agora se põem.
E é aqui que em nossa perspectiva a escola regular tem
vindo a falhar, enquanto que as escolas especiais mentalizadas
para a resolução global dos problemas das crianças e jovens
com NEE´s acabam por prestar o apoio de que tanto os alunos
necessitam. Nestas escolas existem as equipas
multidisciplinares com psicólogos, terapeutas, professores
especializados ou não mas com atitudes positivas para o
trabalho com estas crianças/jovens. Tudo isto a par de:
-
Um sistema
de transporte adequado aos interesses das famílias
trabalhadoras
-
Um
alargamento de tempo de permanência nas escolas de tipo
ATL
-
Uma alimentação
específica com ementas próprias
-
Uma óptima
relação afectiva das crianças e jovens com toda a
equipa docente, não docente e auxiliar.
-
Um número
limitado de alunos por turma entre 8 a 15 alunos
-
Um corpo
auxiliar com atitudes positivas e preparado tecnicamente
-
Equipamentos
e materiais adquiridos pelas escolas nos momentos certos e
sem dependerem das grandes burocracias
-
Possibilidades
de efectuar parcerias e intercâmbios de forma articulada
e multifuncional, criando-se interacção social e escolar
na comunidade
-
E por fim,
algo de muito importante e que torna estas escolas ainda
mais especiais é o que tem a ver com a sua lotação. São
escolas pequenas em que nos conhecemos todos, onde as
salas são de todos para todos, onde os pais entram e saem
e colaboram directamente com todo o pessoal técnico e não
técnico, onde o “caderno” leva diariamente a informação
do que se passou na escola, onde a auxiliar recebe e
entrega pessoalmente as suas crianças/jovens
Estas são
sim, as nossas escolas especiais que tão mal apoiadas têm
sido ultimamente em prol de uma inclusão que muitas vezes tem
grandes dificuldades em existir a não ser nas intenções e
nos “papéis”.
Que seria das nossas crianças e jovens se estas
escolas não existissem? Onde estariam aqueles que no sistema
regular de ensino são “rejeitados”? Onde estariam aqueles
que devido à sua grave deficiência nem um dia estiveram numa
escola regular?
Como teriam resolvido as Famílias as suas questões
laborais e a necessidade constante de ajuda psico-social?
Em Conclusão:
Pensamos que os dois sistemas são possíveis e se
completam, devendo mesmo criar-se uma relação de
complementaridade e de parceria em termos de recursos
materiais e humanos com normas bem definidas e aceites pelas
partes interessadas (escola regular, escola especial e família),
obedecendo a um projecto educativo comum às escolas que vise
um movimento cada vez maior para o desenvolvimento da Escola
Inclusiva.
Somos da opinião que as escolas especiais deveriam
merecer do Estado um maior apoio de forma a transformá-las em
centros de recursos e de formação para as escolas regulares
e respectivos professores.
O pessoal existente nestas escolas poderiam ser uma
mais valia para o sistema educativo em termos de avaliação
precoce e de identificação dos alunos portadores de deficiência
ou de graves perturbações que ponham em risco o normal
prosseguimento dos estudos. Por outro lado os casos graves de
deficiência (profundos) teriam nestas escolas especiais um
melhor atendimento onde o escolar e o social se juntariam
dando a resposta global mais adequada de forma a que as Famílias
se sentissem devidamente apoiadas.
Algumas experiências já foram feitas com CERCI´s e
Colégios de Educação Especial em termos de Parcerias
pontuais ao Abrigo das Portarias 1102/97 e 1103/97, no entanto
é preciso ir mais além dando segurança efectiva a estes
projectos, tornando-os em programas oficiais com os apoios
devidos.
Por fim pensamos que urge reformular a formação dos
professores de forma a provocar novas atitudes de mudança na
escola tendo em conta os novos desafios de heterogeneidade e
de respeito pela diferença assente nas reais capacidades dos
alunos.
Terminamos, apelando para que a nossa escola se
transforme o mais rápido possível numa escola de valores,
formando cidadãos conscientes, livres, participativos e
empenhados na mudança da nossa sociedade que se quer
humanizada e onde a Família surja como um elemento dinâmico,
equilibrado e com um alto grau de satisfação nas
necessidades mais básicas de todos os seus elementos e em
particular daquelas que mais precisam e que requerem cuidados
especiais a que a nossa escola designa por alunos com NEE´s.
Para eles o nosso total apoio, pois iremos, dia após dia,
construindo com alegria a Escola da Vida com o objectivo último
de torná-los Felizes.
|