Ao longo da história, os agentes sociais pautaram a deficiência como algo de
homeostático, irreversível e inevitável.
Indiferença, medo, incapacidade, renúncia e procrastinação caracterizaram as suas atitudes e comportamentos que conduziram ao isolamento dos deficientes e à retardação do seu desenvolvimento.
Contudo, a persistência, a certeza e a convicção não só das pessoas com deficiência e dos seus familiares, mas também daqueles que defendiam a sua equidade como membros da sociedade abriram caminho a importantes modificações.
O crescente envolvimento de governos, grupos comunitários e pais na procura da educação para todos os que apresentam necessidades especiais consubstancia-se na Declaração de Salamanca resultado da conferência mundial sobre Necessidades Educativas Especiais, realizada em Salamanca, no ano de 1994. Esta Declaração de Princípios confirma o compromisso da Educação para todos numa Escola Inclusiva, ou seja, uma escola que receba todos os alunos,
proporcionando-lhes condições de ensino diferenciadas que conduzam à igualdade de sucesso nas aprendizagens. No fundo pretende-se minorar a diferenças sociais, suprimir atitudes discriminatórias por forma a alcançar uma sociedade mais justa e abrangente.
É nesta perspectiva que tem início, no ano lectivo de 1999/2000, a Unidade da
Multideficiência. Esta Unidade, a funcionar na Escola nº2 do
Laranjeiro, abrange crianças com múltiplas deficiências de todo o Concelho de Almada. Com o intuito de responder às suas necessidades individuais e sociais aponta-se para uma selecção das aquisições que se pretende que as crianças aprendam ou experimentem, sejam elas académicas, sociais ou ambientais desenvolvendo-lhes competências necessárias ao seu funcionamento actual e futuro e visando a criação de autonomias tão necessárias à sua vida pessoal, familiar e social.
O primeiro grande passo foi dado, com a inclusão de todas as crianças na escola, cabendo agora a todos nós técnicos, alunos, pais, amigos e outros membros da comunidade educativa, o cumprimento destes objectivos.
Convido-vos, agora, a uma pequena viagem até ao mundo da reflexão sobre a simultânea igualdade e diferença dos meninos e meninas desta escola. Podemos partir do Jardim de Infância, passar pelo
A.T.L., seguir pelas salas de aula e chegar à Unidade de
Multideficiência.
Ao longo da nossa caminhada cruzamo-nos com crianças altas, baixas, de estatura média, com boa locomoção ou com problemas motores. Gordas, magras ou simplesmente bem constituídas. De olhos azuis, castanhos, verdes, com boa visão ou com problemas visuais graves. De cabelo curto ou comprido, apanhado, com trancinhas ou tão-somente solto e das mais variadas tonalidades. Meninos e meninas de diferentes etnias.
Esta digressão leva-nos ainda ao encontro de crianças tímidas ou extrovertidas, alegres ou tristes (infelizmente também as há!), calmas ou agitadas, dóceis ou desobedientes. Que se exprimem bem, que usam poucas palavras, que comunicam só com gestos ou usam gritos (e que gritos!) para interagir.
Meninos e meninas que gostam de brincar com carrinhos, com bonecas, à apanhada, de jogar à bola, de saltar, de correr, sozinhos ou acompanhados. De ler revistas, de ler histórias, de ouvir música, de ver filmes. De sair com os colegas para um passeio, para uma festa de Natal, Carnaval…
ou outra (e como gostam de passear!). De festejar o seu aniversário ou de um colega. De ouvir ler histórias ou participarem na feitura de um livro da escola. De se sentar ao pé do seu colega para conversar ou apenas para estar junto de alguém.
Próximos do fim da nossa jornada, ainda que em pensamento, podemos constatar que na nossa escola, à imagem e semelhança de tantas outras, todos os meninos e meninas são e têm o direito a ser diferentes no seu aspecto físico e na sua personalidade mas não deixam de ser iguais nas suas brincadeiras, nas suas escolhas, nas preferências, nas vontades, nos desejos.
Afinal… todos diferentes mas todos iguais.
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