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Testemunhos
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De
um aluno
Tive uma grande força de vontade para vir para esta escola porque sempre frequentei colégios particulares. No final do 9º ano muitos colegas do Colégio Campo de Flores vinham para a Anselmo e esse era um aspecto importante para a minha integração. Vim com receio pois diziam-me que num colégio o acompanhamento e apoio dos professores era maior mas até à data tive bons professores e colegas. Se bem que houve algo de negativo e nem tudo foi um mar de rosas. Não havia muita abertura para me receber, talvez por receio mas a minha mãe batalhou e a minha família colocou as rampas de acesso para a cadeira.
Nas aulas, no início do 10º ano, tive a sorte de ter uma turma muito boa em que me dava com todos (hoje é mais difícil estar a concluir o 12º ano numa turma nova) o que foi muito bom para a integração. O problema foi as barreiras físicas pois não posso ir de forma autónoma à biblioteca ou a outros espaços no 1º piso, só com a ajuda de um colega. Consegui acompanhar as aulas embora a Matemática seja muito difícil.
O balanço tem sido positivo apesar das resistências iniciais em receber um aluno diferente. Sinto-me bem e adaptado e a relação com os funcionários também tem sido positiva.
Cresci nestes anos. No início fiquei chocado com algumas situações na relação alunos/professores pois alguns alunos respondem de um forma menos correcta. Fiquei a conhecer outra realidade das escolas. Ter estado num colégio ajudou-me a definir os objectivos. Numa escola pública há uma maior liberdade e temos que ter uma personalidade mais vincada para não cairmos em caminhos que não devemos. Esta liberdade fez-me muito bem.
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Aula de equitação
Capuchos
Quero continuar a estudar. Gostava de tirar um curso superior apesar de estar consciente das minhas limitações. A cadeira de rodas não pode nem deve ser um obstáculo para
mim. Posso tirar um curso independentemente de estar numa cadeira. Já muitos fizeram isso! Se eles conseguem porque é que eu não hei-de conseguir? A minha família nunca deixou que me sentisse diferente. Sei que tenho diferenças mas todos somos diferentes. Muitas vezes a sociedade considera normais pessoas que têm problemas maiores que o meu. Quero sentir-me igual aos outros e quando isso não acontecer é porque alguma coisa de mal está a acontecer. Até agora os meus colegas e professores não me deixaram sentir diferente.
Aluno da Esc.
Sec. Anselmo de Andrade
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mãe
De uma mãe
Todos os pais sonham com um futuro brilhante para os filhos. Desejam que os seus meninos sejam bons alunos, que tirem um curso promissor, enfim, que tenham um futuro risonho. A maioria nem se lembra que existem aqueles pais cujos filhos nunca terão essas oportunidades e que desejam apenas que lhes seja dado direito a frequentar um escola onde existam todas as condições indispensáveis às suas necessidades porque são
diferentes- são crianças deficientes!
Para estas crianças tudo é difícil! Até a participação na vida escolar do ensino regular!
É incrível, não é? Mas é verdade! E olhem que sei bem do que estou a falar pois sou mãe de dois meninos nestas condições.
Vou apenas falar do meu filho mais velho, o Pedro, porque, apesar de tudo,
creio que até agora é um exemplo de integração bem sucedida. O mais novo, o Miguel, é autista e para estes meninos parece que não há inclusão à vista.
O Pedro frequentou durante algum tempo um jardim de infância regular, mais tarde passou para um colégio de ensino integrado. Aqui tinha quase tudo o que precisava: colegas ditos “normais“, terapeutas, técnicos e pessoal especializado. Só que este era o único colégio da margem sul com estas características e por falta de apoio estatal acabou por fechar. E agora? Que fazer? Não podem imaginar a angústia que senti! Os pais que estão em condições semelhantes à minha sabem bem do que estou a falar!
Só existiam duas hipóteses: colégios de ensino especial onde estas crianças estão praticamente afastadas da restante sociedade, não obstante o esforço que algumas dessas mesmas instituições fazem para que tal não aconteça,
ou a integração numa escola de ensino regular. Optei pela última.
E aqui começam novos problemas: Que escola escolher? A maior parte não está preparada
fisicamente nem tecnicamente para receber estes meninos e também não tem capacidade de resposta ao nível do pessoal auxiliar.
No caso do Pedro, embora com muitas dificuldades, a inclusão tem sido feita com relativo sucesso porque enquanto mãe, dirigi-me a todo os locais onde me pudessem dar ajuda e também porque desde o início a direcção da escola onde o Pedro se encontra (Escola nº1 de Marco Cabaço)
tem sido incansável e tem batido a todas as portas. Sim, porque neste campo continua a ser necessário pedir muito e até a própria informação e respectiva divulgação é escassa.
Só a título de exemplo, posso dizer que foi um enorme problema tentar arranjar uma auxiliar que acompanhasse o Pedro porque apesar de todos os pedidos que a escola fez, o Ministério não colocava ninguém atempadamente e mais uma vez teve de ser a escola a resolver esse problema. Ora, isto é, a meu ver, completamente absurdo já que estas crianças precisam de um adulto que as acompanhe permanentemente.
Não se trata de um luxo!
Na escola do Pedro tem havido um excelente trabalho de equipa, ingrediente essencial para uma inclusão bem sucedida, e que seria melhorado se tivesse o apoio de terapeutas, fisioterapeutas e psicólogos que trabalhassem nas próprias escolas.
O Pedro tem tido todos estes apoios mas fora da escola.
Então, tenho de ser eu e os meus pais a levá-lo às terapias e actividades de recuperação, como a natação adaptada e
hipoterapia.
Acontece que isto dificulta ainda mais a vida das famílias que já é suficientemente difícil e há muitas crianças cujos pais não têm disponibilidade para estas tarefas.
O Pedro tem paralisia cerebral pelo que não anda nem fala, embora entenda e tenha um desenvolvimento cognitivo normal, e no início , fazia algumas “birras” porque não era entendido facilmente. Apesar de todas as dificuldades o Pedro tem conseguido uma boa integração na escola e na turma e isto deve-se também a ele próprio porque é uma criança esforçada e persistente.
Gosta muito de estar na escola e de todas as pessoas que o ajudam e trabalham com ele diariamente. Teve sempre o apoio de uma professora especializada e de uma auxiliar que em tudo ajudaram para que a sua integração fosse mais fácil.
Tem havido uma continuidade no trabalho por parte das professoras, o que ajuda qualquer criança, mas é decisivo para as que têm NEE .
É preciso acrescentar que o Pedro e os professores têm tido o apoio do CANTIC ao nível das ajudas técnicas na área das comunicações aumentativas.
Obviamente que este texto é apenas o testemunho de uma mãe que sente todos os dias as dificuldades de uma inclusão que ainda é muito apregoada mas pouco efectiva. No entanto, tenho de agradecer a todas as pessoas que fazem parte da Escola nº1 de Marco Cabaço, e em especial à direcção, auxiliares e professoras que trabalham directamente com o Pedro, todo o apoio prestado e o facto de terem tornado esta integração possível.
Por último, e embora não seja este o local apropriado, tenho de agradecer sempre aos meus pais pois são eles a minha grande ajuda e parte inquestionável da boa integração do Pedro.
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professora
De
uma professora
Um
não, depois de um sim e um sorriso
“Todas as flores do futuro estão nas sementes de hoje”
Provérbio chinês
Naquela Escola, na última década do século que passou, era, para muitos dos professores, o primeiro caso de um aluno com deficiência. Pelos frequentes comentários, percebia-se como era questionada a presença deste aluno diferente dos seus pares.
Eu, a professora que iria acompanhar o percurso escolar desse aluno sentia a insegurança própria de quem tem pela frente o desafio de enfrentar a resistência à mudança de atitude perante a diferença.
A situação era a de um aluno diferente no meio de uma comunidade educativa nova para ele, a família que acreditava ser possível a escolaridade do seu educando naquela escola, e duas visões de sinais contrários, uma minoritária dirigida para a integração e outra maioritária apontando para uma Instituição de Ensino Especial.
Apesar de existir suporte legislativo, o incómodo entre os professores era grande e as perguntas sucediam-se:
- Que preparação temos nós?
- O que fazer com o aluno?
- Como fazer?
- Como actuar?
Mesmo que fossem propostas medidas e estratégias, voltavam sempre às mesmas questões:
- Que preparação temos nós?
- O que fazer com o aluno?
- Como fazer?
- Como actuar?
O tempo foi passando e com a sua mestria foi mostrando que era possível pôr em prática medidas e estratégias que ajudassem à integração desse aluno diferente.
Uma das professoras resistentes à ideia de integração, confessou-me que, sempre que pensava na sua atitude inicial, se sentia envergonhada com ela própria.
Também soube que outro professor pensava de outro modo, quando se me dirigiu, dizendo:
- Mudei de opinião, podes contar comigo.
E sorriu.
Não sei bem explicar porquê, mas ainda hoje, a sua atitude me comove.
Será por ter sentido, nesse momento, que uma semente germinara?
Uma professora
de Apoio Educativo
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Nota de Esclarecimento
da Escola Secundária Anselmo de Andrade
Com o objectivo de clarificar algumas afirmações do nosso aluno Bruno Gomes, susceptíveis de má interpretação, gostaríamos de prestar as seguintes informações:
- a matrícula do aluno foi feita fora do prazo legal de matrícula no Ensino Secundário (27 de Julho de 2000) sem qualquer indicação prévia da intenção do Bruno se matricular nesta Escola, estando as turmas já constituídas não tendo em consideração a limitação do número de alunos para incluir alunos com necessidades educativas especiais;
- a Escola Secundária Anselmo de Andrade não possui salas de aula no rés do chão, pelo que teve de ser adaptada especificamente uma Oficina com prejuízo para os alunos da opção de Artes. Também os serviços de apoio ao aluno, como a Biblioteca / Centro de Recursos, entre outros, estão localizados no 1º andar.
- só a estreita colaboração entre a família e a Escola permitiu criar atempadamente as condições mínimas para a frequência do Bruno, inclusivamente na criação de rampas de acesso que, noutras circunstâncias, demoraria muito mais tempo a obter, através das instâncias superiores.
Esc.
Sec. Anselmo de Andrade
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